08 de julho de 2026
Geral

Trânsito sem planejamento cria vários becos sem saída

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 10 min

 

Trânsito tem saturação com aumento de frota e falta de via expressa

Sem uma via expressa, de fato, o trânsito de Bauru sufoca os usuários do saturado sistema viário da cidade diariamente. 

Carente de grandes alternativas, condutores e pedestres são obrigados a conviver com a lentidão em horários de pico e riscos de acidentes em períodos com fluxo cuja densidade é incompatível à estrutura de ruas ou avenidas. 

 

Especialistas em estudos sobre trânsito advertem que o colapso já chegou e elencam alternativas que, se não são imediatas, surgem como terceira via para absorver a atual e futura demanda de tráfego. 

 

Transporte coletivo eficiente e atrativo e revitalização da malha ferroviária urbana como forma de transporte interbairros, além da antiga necessidade de vias expressas na cidade, são as principais saídas, apontadas por eles, para o labirinto que se tornou o trânsito de Bauru. 

 

O Poder Público, por sua vez, admite os problemas e estuda medidas imediatas, como a disciplina de tráfego com sinalização, semáforos e rápidas intervenções estruturais. 

 

Contudo, projetos condizentes ao aumento anual da frota da cidade (atualmente na casa dos 220 mil veículos) aguardam sinal verde para sair do papel. 

 

 

 

Funil na praça

 

Os grandes gargalos, principalmente nos horários de pico – início da manhã e final de tarde, estão no eixo Duque/Nações/Rodrigues. Porém, os pontos de lentidão também se estendem para outras vias que ligam o centro aos bairros. 

 

A praça Sugiro Otake segue como grande funil catalizador de praticamente todo o fluxo entre Centro e bairros, principalmente regiões das vilas Falcão e Independência. 

 

Ainda como reflexo do afunilamento na rotatória, além da entupida avenida Castelo Branco, outras ruas têm a fluidez comprometida, entre elas a Bernardino de Campos (acesso à Vila Giunta), Wenceslau Braz e Nilo Peçanha, respectivamente, ida e volta da região da Falcão. 

 

O segundo elo de ligação entre a região central e essa área, pela avenida Pedro de Toledo, a partir do final da Rodrigues Alves, não apresenta cenário diferente, com agravante no final da tarde, com fluxo aumentado em razão do trânsito de universitários pela região.  

 

Particularmente, a  avenida Duque de Caxias que  por sua vez, conforme a própria Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), apresenta singular estágio de saturação.  

 

O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) estabelece uma média diária de 600 veículos/hora – aferida nas oito horas de maior fluxo – para artérias do porte da Duque de Caxias (duas faixas de rolamento), explica o gerente de planejamento e sinalização viária da Emdurb, Aníbal Ramalho. 

 

Na Duque de Caxias, especialmente no trecho entre os radares próximos ao viaduto sobre a Nações, essa média é de 900 veículos/hora, ou seja, 300 a mais do que o máximo especificado para essa categoria de avenida. 

 

Diariamente, na mesma região, são contabilizados, em média, 26 mil veículos. Mil a mais do que a Nações Unidas, nas proximidades do viaduto com a própria Duque.

 

 

 

Rondon vira avenida

 

Outra demanda são as obras no trecho urbano da rodovia Marechal Rondon (SP-300). Entupida tanto pelos veículos pesados que protagonizam ultrapassagens entre si, as pistas ainda recebem grande fluxo local, necessitando de terceira faixa ou pistas marginais. As melhorias estão previstas no acordo de exploração do trecho, sob concessão da Via Rondon. 

 

“O movimento está excessivo. Uma terceira faixa já ajudaria bastante”, opina o inspetor de alunos Claudemir Rocha, de 32 anos, morador de um loteamento entre Bauru e Agudos e que, diariamente, faz da SP-300 o caminho de ida e vinda do trabalho. 

 

A concessionária, por meio de nota enviada à redação, sexta-feira à tarde, informou que desenvolve estudos para obras de construção de pistas marginais em trechos urbanos da Rondon em Bauru e Araçatuba. O próximo passo, ainda de acordo com a Via Rondon, é enviar o levantamento para apreciação da Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp). 

 

De acordo com a prefeitura, o contrato de concessão sobre a rodovia prevê intervenções apenas em 2016. 

 

Um dos entraves para antecipação das obras – como já ocorre na rodovia Engenheiro João Baptista Cabral Rennó, a Bauru-Ipaussu, administrada pela Cart, em fase de duplicação no trecho que abriga tráfego urbano -, salienta o titular da Seplan, também seria a adaptação do edital. 

 

As melhorias previstas no documento enviado na época do contrato à Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) não amenizariam, a contento, os efeitos do alto fluxo de veículos na Rondon urbana. Outra rodovia que corta a cidade, a Bauru-Iacanga (SP-321) já teve a duplicação anunciada pelo Governo do Estado.

 

 

 

Sufoco coletivo

 

Também “vítima” do caos tanto nas ruas e avenidas quanto rodovias que cruzam a cidade, principalmente no horário do “rush”, o próprio prefeito Rodrigo Agostinho admite: “já estamos parando e a questão da mobilidade é um grande desafio”. 

 

Ele diz que a prefeitura discute com a concessionária a antecipação das obras (pistas marginais e terceira faixa) no trecho urbano da SP-300. 

 

Por outro lado, pondera Agostinho, a concessionária também teria pontuações a fazer antes das melhorias. Entre elas, enfatiza, estaria o fechamento de acessos à cidade, pontos considerados de alto risco de acidente. O trevo que sai da SP-300 pela rua Marcondes Salgado, na Vila Cardia, seria um dos acessos fechados.  

 

Contudo, independentemente à necessidade de obras, Agostinho acredita que o alívio para o trânsito, não apenas em Bauru, se dará por conta de investimento em transporte coletivo. 

 

Numa cidade que, só no ano passado, teve a incorporação de, aproximadamente, 20 mil novos veículos à frota, o prefeito, entretanto, se diz ciente da dificuldade em reverter o processo de “individualização” do trânsito. Além de tornar o transporte coletivo mais atrativo para a população, um “círculo vicioso”, segundo Agostinho, também emperraria o aprimoramento do setor. “Estamos perdendo passageiros”, atenta. A fuga de “clientela” alavancaria as tarifas. Por outro lado, acentua, o preço mais alto também incentivaria antigos usuários a tirar o carro da garagem.  

 

 

 

Mão única na Duque?

 

“Daqui a pouco pensaremos em mão única na Duque de Caxias”, supõe Nico Mondelli, diretor da Emdurb. A previsão não chega a ser tão exagerada, justifica o chefe da autarquia, lembrando o início dos anos 1990 quando o estacionamento na avenida foi restrito. “Houve polêmica, muita gente reclamou”, recorda. “No entanto, hoje é inviável pensarmos em estacionamento liberado na Duque”, compara. 

 

Antes de medidas mais drásticas, a Emdurb, explica Mondelli, tenta disciplinar o trânsito num quebra-cabeças que envolve constantes de alterações de sentido (muitas vias deixam de operar em mão dupla) ou implantações de semáforos. 

 

Desde outubro de 2010, contabiliza Mondelli, foram instalados 21 novos conjuntos semafóricos nos cruzamentos. “Semáforos e alterações para mão única, para diminuição dos pontos de conflito em cruzamentos, são as alternativas em curto prazo”, resigna-se, ao mesmo tempo em que cita as recentes melhorias para maior fluidez no “tripé” Rondon – Getúlio – rua das Festas, com mão dupla instituída. A região receberá uma nova avenida. 

 

De acordo com a prefeitura, a obra resultará na principal opção de acesso à zona sul da cidade para o motorista que chega da SP-300, sentido capital-interior. 

 

A médio ou longo prazo, as saídas, de fato, para o labirinto em que se torna o trânsito da cidade seriam as grandes obras. Entre os grandes projetos – além da “novela” viaduto central que se arrasta há cerca de duas décadas -, figuram também o prolongamento da Nuno de Assis após o trevo com a Rondon, em direção ao Núcleo Mary Dota; avenida Água Comprida, entre a Nações e Rodrigues (no Núcleo Geisel). 

 

O início das obras, contudo, ainda depende de finalização de convênio entre prefeitura e Governo Federal, detalha o titular da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), Rodrigo Riad Said. 

 

 

Uso de ferrovia pode ser alternativa

 

Técnicos em trânsito sugerem linhas de Veículo Leve sobre Trilho (VLT) e há quem defenda a retirada dos trilhos do Centro

 

Para especialistas no estudo sobre o trânsito, a chave para solucionar – ou minimizar – a saturação das vias aliadas à proliferação desenfreada da frota está no passado. 

 

Os hoje desprezados trilhos das três ferrovias que cortam a cidade (Noroeste, Paulista e Sorocabana) seriam alternativa de transporte urbano, seja através de composições maiores ou por meio dos Veículos Leves Sobre Trilhos, ou VLTs. “A estrutura ferroviária que hoje está deteriorada, jogada às traças, poderia ser muito bem aproveitada, sugere o psicólogo e instrutor de trânsito Ilton Sant’Anna. 

 

Orientador de instrutores e palestrante, Sant’Anna é um dos que defendem a implantação de linhas regulares por via férrea ligando os extremos da cidade, tanto para transporte diário comercial quanto para fins turísticos e educacionais. 

 

No mais, acentua, o primordial acima de grandes ou pequenas obras, é mudança de conduta. “Na Duque de Caxias não se consegue ultrapassar pela esquerda. Ninguém dá passagem. Tem gente que, inclusive, deve passar na prefeitura para ‘pagar a escritura’ por se achar dono da rua”, ironiza. 

 

Por outro lado, argumenta o prefeito Rodrigo Agostinho, a ideia de se implantar o VLT em Bauru esbarraria no alto custo da obra. Em alguns municípios, contudo, observa o chefe do executivo, o Governo Federal incentivaria a obra através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “O foco são as cidades com mais de um milhão de habitantes. As exceções são feitas para municípios com 700 mil moradores”, especifica Agostinho. 

 

Já o engenheiro de trânsito Archimedes Raia Júnior também defende o aproveitamento dos caminhos antes abertos pelas ferrovias. Contudo, para ele, a solução não estaria, exatamente, no transporte férreo. “Toda a ligação leste-oeste da cidade passa onde estão os trilhos”, observa ele. 

 

Doutor pela USP e professor de Engenharia e Segurança de Tráfego da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Archimedes é favorável à retirada dos trilhos, que seriam transferidos para o entorno da área urbana. “É interessante para a cidade e para a própria ferrovia”, acredita. 

 

Dentro das soluções – ou paliativos – imediatos, o engenheiro de trânsito defende a revisão sobre algumas rotatórias – a mais crítica, cita, na praça Sugiro Otake (final da Duque de Caxias rumo à Vila Falcão) e o desestímulo ao uso do automóvel, com incentivo à utilização do transporte coletivo. “É também preciso pensar num plano cicloviário para a cidade e, obviamente, trabalhar com a questão da educação”, salienta. 

 

A região central, complementa o especialista, é um capítulo à parte em todo o caos. Ruas cada vez mais apertadas com fluxo dividindo espaço com os carros estacionados, tornam a área cada vez mais inapropriada para a presença de veículos. “Em algumas cidades não se chega mais até o Centro de carro”, argumenta. Outra solução elencada pelo engenheiro, contudo ousada, seria a do pedágio urbano para desestimular o uso do carro. 

 

No entanto, salienta, seria uma medida viável desde que fossem criados todos incentivos e estrutura para deixar o carro na garagem: “alguém tem coragem?”, desafia. 

 

 

Conduta ainda é principal reclamação

 

Ruas saturadas, excesso de veículos. Os grandes problemas do trânsito são acentuados pela falta de educação de condutores e pedestres. “Tem gente que não respeita a sinalização, fecha e te atravessa. Você olha no retrovisor esquerdo e a pessoa ( que pretende ultrapassar) já está no direito”, reclama o arquiteto Cláudio Garcia Castanho de Almeida, 66 anos. 

 

Tidos, em muitos casos, como “vilões”, motociclistas também reclamam de falta de cortesia do “outro lado”. “Há uma disputa acirrada e há agressividade também contra motoqueiro”, pondera o empresário Nestor Neves Júnior, 48 anos, que resolve as pendências do trabalho a bordo de motocicleta. 

 

Essa conduta, acentua, é agravada pela má condição do pavimento, diz ele: “O asfalto está ruim e perigoso para quem anda de moto, com riscos de queda. Levei uma fechada, tentei desviar, e caí num buraco na Nações”, narra. 

 

Por outro lado, há quem observe avanços na qualidade do pavimento em Bauru. “Quando morava aqui achava o trânsito problemático. Mudei para outra cidade (São José do Rio Preto) e lá a situação é pior. O excesso de velocidade é muito grande. Aqui a pista está melhor. A av. Duque de Caxias, na época em que fui embora, estava toda esburacada”, compara a corretora de imóveis Viviane Sodré.