Ano 2027 - O governo tinha que decidir: o sistema educacional continuaria a ensinar a escrita convencional ou a comunicação das pessoas deveria ser por ícones e símbolos. Para os velhos iria-se manter a escrita antiga com letras, palavras e frases, mas os novos aprenderiam escrever apenas pela linguagem icnográfica! Os rótulos, placas e meios de comunicação deveriam ser "bilíngues"! Os jornais, revistas e livros deveriam adotar o novo sistema.
Esta decisão tinha um importante justificativa: os dois sistemas simultâneos estavam confundindo as crianças. Os seus dedos ficavam machucados pois os esfregavam no papel como tocassem na tela dos iPads e iPhones. Elas tinham dificuldade em folhear as revistas; no lugar de virar páginas com os dedos, esfregavam-nas! Nas revistas do velho sistema as crianças batiam com os dedos nas figuras ou palavras para que para que se abrisse um página explicativa, sem êxito! No papel não dá para obter informação tocando o dedo! Se revoltavam com o atraso.
O "toque pelo dedo" nas telas gerou mudanças, algumas engraçadas, como o uso de camisetas e tatuagens com os dizeres: me toquem que eu gosto! O professor disse: vou dar um toque a vocês; toque para ele seria uma dica, uma informação pontual importante! Os alunos fizeram fila para o professor tocar seus tablets, pois acharam que tinha uma senha especial!
Antes de adotar a linguagem dos símbolos e ícones no sistema educacional, transcorreram meses de discussões. Deveríamos ou não abandonar o sistema convencional? Seria importante aprender letras, palavras e frases que nem escrevemos mais? A produção de canetas e lápis havia sido abandonada há anos, apenas um ou outro marceneiro fazia-as artesanalmente! Todo conhecimento seria transcrito para ícones e símbolos, como fizeram do árabe para o grego, do grego para o latim e do latim para o inglês.
Estudos experimentais em animais e simuladores mostraram que com o passar dos anos não se desenvolviam mutações e lesões pelo uso excessivo dos dedos. O problema da contaminação das teclas e telas havia sido resolvido pela incorporação de substâncias antibióticas e antissépticas em películas muito finas aplicadas periodicamente. Tudo certificado pela Anvisa.
O presidente iria fazer o anúncio ao país: o ensino de letras, palavras e frases seria abandonado e substituído por ícones e símbolos. Ele chamou seu ministro da educação e pediu uma consultoria: quando se começou pioneiramente a pensar que a educação poderia ser feita com ícones e não letras, palavras e frases? Em 2012.
A realidade
Em abril de 2012, Jonathan Grainger e equipe da Universidade Aix-Marseille, na revista Science, publicaram os resultados de uma pesquisa realizada na França. Seis babuínos foram treinados para que em tela de computadores reconhecessem letras que formavam palavras conhecidas ou se eram apenas uma sequência aleatória. Uma palavra formada por letras chama-se informação ortográfica e tem sons e sentidos relacionados com objetos ou ideias no cérebro.
Os primatas mostraram que sabiam processar uma informação ortográfica mesmo sem conhecimento da linguagem humana. Podemos saber, construir conhecimento sem processamento ortográfico, sem representação linguística? Os babuínos foram treinados a tocar as telas dos computadores nas quais apareciam quatro letras que ora formavam palavras, ora eram aleatórias. Se reconhecessem as letras como palavras apertavam uma cruz na tela, caso contrário escolhiam um círculo.
Os testes relatados na pesquisa eram 25 apresentações de uma nova palavra, de 25 palavras já aprendidas e de 50 pseudopalavras para cada animal. A cada acerto retribuía-se com recompensa a base de alimento. O índice de acerto dos animais foi impressionante: 75%. Os resultados implodiram a teoria de que o reconhecimento de palavras passa obrigatoriamente pela linguagem.
O trabalho revelou que reconhecer ícones, símbolos ou objetos de forma sequencial não é exclusivo do homem e deve ter sido adquirida muito antes do primata dar origem ao homem! Parece que temos uma capacidade muito antiga de aprender, memorizar, construir ideias, reconhecer processos e nos comunicarem com ícones e símbolos.
Estaríamos a caminho de uma educação com base em ícones e símbolos na construção do conhecimento? Será que chegaremos à ficção dos seis primeiros parágrafos? Evoluiremos ou retrocederemos?
Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC