Apesar das lágrimas ao lembrar das tristes cenas de uma guerra, o ex-combatente Antônio Honório de Lima diz que tem orgulho por ter defendido o Brasil entre 1942 e 1945, em terras italianas. O pracinha atribui a amarga experiência ao destino. “Até me propuseram fugir quando ainda estava no Rio de Janeiro, já parte da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Mas entendo que, se me chamaram, é porque eu tinha que ir”, afirma.
Aos 89 anos de idade, ele garante que não chegou a sentir medo, mas sofreu ao escrever para a família, comunicando sua convocação às batalhas. A principal marca do período, porém, são as imagens e o cheiro dos mortos, que era, literalmente, amontoados nos campos de guerra. “Para piorar, ainda tacavam fogo e, por semanas, aquelas pessoas queimavam. O cheiro era terrível. A sensação de andar entre mortos e pessoas que não conseguiam sequer levantar, eu nunca vou esquecer”, pontua.
Lima conta ainda que um dos colegas de barraca simplesmente desapareceu após um ataque de bombas. O ex-combatente possui grande acervo de fotos e documentos sobre a Guerra e chora ao se rememorar as imagens dos campos de concentração nazistas.
As dificuldades nas trincheiras não paravam por aí. Passou fome e sede nas trincheiras. Muitas vezes, a comida chegava enlatada, como ração, jogada de aviões. Além disso, como era parte da Infantaria, andava muito durante todo o dia. “A gente caminhava até encontrar o inimigo. Quando isso acontecia, tínhamos que ir para cima”, conta Lima, fazendo menção também o brasão da FEB, com a imagem de uma cobra fumando por conta do ditado que diz: “A cobra vai fumar”.
Apesar do sofrimento, o pracinha também tem boas memórias da Itália, por conta de experiências vividas durante o intervalo entre o final da guerra e a volta à região de Bauru, que durou cerca de um mês. Antônio chegou a ter uma namorada e até batizou uma criança a convite de uma amiga. “Só sei que o menino se chamava Quinto Valter, mas nunca mais tive notícias”, ironiza.
Quando voltou ao Brasil, trabalhou como pedreiro até ingressar na Polícia Militar. Em 1946, casou com Alice Alves de Lima, com quem vive até hoje e teve cinco filhos, doze netos e seis bisnetos. “Não é porque ele é meu marido, mas tenho muito orgulho deste homem, porque nunca o vi brigar nem xingar ninguém”, elogia a esposa, emocionada.
De acordo com a 6ª Circunscrição do Serviço Militar (6ª CSM), Lima é um dos 16 pracinhas bauruenses vivos.
Dor em família
O historiador Luciano Dias Pires também teve experiências diretas com a guerra. Seu irmão, José Jack Dias Pires também foi combater as forças nazistas na Itália. Foram quase três anos de agonia e preocupação. Que mais sofria, porém, era a mãe Lázara Dias Pires. “Para piorar, outro irmão servia na FAB e eu no Tiro de Guerra. Ela temia muito que nós também fôssemos para a Europa”, conta.
Na memória de Luciano, porém, uma das imagens mais marcantes foi quando sua mãe recebeu uma carta da namorada de José Jack, contando que o filho, que já estava no Rio de Janeiro, fora convocado para a guerra. “Eu cheguei para almoçar, mas, naquele dia, a comida não estava à mesa. A casa estava fechada e escura, enquanto minha mãe chorava no quarto”.
O irmão de Luciano voltou com vida dos combates e foi recebido com muita alegria pela família em uma noite de 1945, na Estação Ferroviária. “No dia seguinte, ele desfilou pela Batista de Carvalho com suas fardas e medalhas. Foi muito abordado e contava suas histórias, mas teve dificuldades em conseguir emprego. Acabou trabalhando como caixa em uma lanchonete, mas depois, seguiu para São Paulo”.
Fim da guerra e golpe de 1964
O final da Segunda Guerra transformou radicalmente a realidade do mundo e, consequentemente, do País. Com a maioria das potências devastada pelos combates, restaram apenas os Estados Unidos e a extinta União Soviética, que foram aliadas no combate ao Nazismo, mas polarizaram uma disputa sobre poderio econômico e bélico entre 1945 e 1989, com a queda do Muro de Berlim. Esse período foi chamado de Guerra Fria. A professora de História Sonia Mozer afirma que, nesse cenário, configurou-se uma Nova Ordem Mundial.
“Enquanto os outros países tinham estrutura para um curto período de guerra, os EUA e a URSS tinham poderio de armas sem fim. Se afundassem 100 navios deles, eles tinham mais 100. Além disso, os norte-americanos não tiveram seu território devastado, como aconteceu na Europa”, explica.
Como aconteceu com todos os países do mundo, o Brasil também precisou escolher um lado na disputa entre o capitalismo dos Estados Unidos e o socialismo soviético. “Por questões culturais, geográficas e políticas, o país ficou no bloco capitalista”, afirma Sonia.
As consequências foram muitas. A primeira delas foi a queda de Getúlio Vargas, em 1945. “Os combatentes da guerra voltaram como heróis porque combateram ditaduras. No entanto, o País vivia a ditadura de Vargas e ele percebeu isso, tanto que declarou guerra só em 1942, sendo que ela começou em 1939”, pontua a professora.
O período da Guerra Fria também foi marcada por uma verdadeira caça às bruxas, por ambos os lados. Sonia comenta que, na URSS, jovens foram presos por ouvirem e montarem bandas covers dos Beatles, considerados pelos socialistas como símbolos do capitalismo. Por outro lado, no País, havia a perseguição a tudo o que era associado à esquerda. “O Partido Comunista do Brasil se tornou ilegal e os sindicatos trabalhistas sofreram muito também”, conta Mozer.
A Guerra Fria impulsionou, até mesmo, o Golpe Militar de 1964, apoiado pelos Estados Unidos, que estavam preocupados com o governo de João Goulart e os rumos da política brasileira. “O golpe foi avassalador e não houve resistência. No entanto, os norte-americanos já divulgaram documentos que relatam a existência de forças-tarefas na costa brasileira para atuarem caso houvesse dificuldade na derrubada do governo”, afirma.
A professora conta que para reforçar os ideais capitalistas, os Estados Unidos miraram os corações brasileiros. Isso explica a invasão da cultura norte-americana, por meio da comida, da música, do cinema e da moda. (VL)
Correspondências violadas
A ponte entre os familiares e os combatentes era feita pela Legião Brasileira de Assistência às Famílias dos Pracinhas. Em Bauru, ela ficava sediada na praça Rui Barbosa, ao lado do Automóvel Clube. “Nós mandávamos alguns doces, cigarros, roupas. Era tudo endereçado e chegava aos combatentes”, explica o historiador Luciano Dias Pires.
A coordenadora da legião na cidade se chamava Semiramis Mourão de Almeida, poetisa, muito ligada à vida cultural bauruense.
De vez em quando, as famílias também recebiam correspondências dos pracinhas. No entanto, as cartas vinham violadas pela censura na Itália, que rasurava as informações que podiam indicar onde estavam posicionadas as tropas.
Racionamento e treinamentos
Na época, dificuldades na importação de alguns produtos forçou o racionamento de pão e carne, por exemplo. A cidade sofreu ainda com a falta de gasolina. Luciano Dias Pires comenta que o cotidiano de Bauru mudava apenas quando, eventualmente, os moradores eram alertados para algum tipo de treinamento contra ataques inimigos. O toque de recolher no período noturno, por exemplo, era anunciado pelo rádio.
Da mesma forma, a população era submetida a treinamentos de blackout, quando todas as casas e estabelecimentos tinham que deixar suas luzes apagadas.
‘Céu de brigadeiro’ motivou treinos
Antes do esperado “Dia da Vitória”, em 8 de maio de 1945, Bauru também contribuiu de forma significativa para os treinamentos da Força Aérea Brasileira (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial.
A cidade era escolhida para as atividades no período noturno em razão das características de seu céu, classificado como claro e limpo.
O historiador Luciano Dias Pires lembra que os treinos começavam assim que o céu escurecia e só terminavam depois das 22h. No entanto, a sensação não era das melhores. “A gente sentia um pouco da guerra. Não dava para dormir por causa do barulho e dos voos rasantes. Era a sensação da guerra, mas sem as bombas”, explica.