Com pauta vazia e com poucos discursos de vereadores, a sessão legislativa de ontem teve o mínimo de agitação por conta das reações negativas de parlamentares de oposição à comissão de diagnóstico dos problemas do Departamento de Água e Esgoto (DAE), anunciada na semana passada pelo prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB). O debate, porém, aconteceu fora da tribuna e o único a defender a medida foi o líder governista, Renato Purini (PMDB).
O principal crítico à comissão foi o vereador Marcelo Borges (PSDB), que chamou a alternativa encontrada pelo prefeito de imoral. “O presidente está lá para quê? Além disso, existe um conselho administrativo, pelo qual os membros são remunerados. Aliás, o ex-presidente André Andreoli, que foi afastado porque não conseguiu resolver os problemas da autarquia, agora é um dos conselheiros”, atacou.
O tucano pontuou ainda que Agostinho é o responsável pelas indicações do comando do DAE e faz parte do governo desde a gestão de Tinga Angerami. “Ele não deveria sorrir para fotos no jornal. O prefeito tinha que estar chorando, pedindo perdão pelo que fez com a autarquia, que, até então, funcionava”, afirmou.
Segundo Borges, o discurso adotado para justificar a criação da comissão é o mesmo assumido por todos os presidentes que assumiram o DAE ao longo da gestão de Rodrigo. “Sempre dizem que vão diagnosticar os problemas, mas todos nós sabemos quais são: a acomodação política e a ocupação dos cargos de diretoria. Conseguiram destruir o DAE. Além da falta de água, o tratamento de esgoto foi enganação, papo furado”, relembrou.
O vereador José Roberto Segalla (DEM) também atribuiu a Agostinho a responsabilidade sobre as deficiências na autarquia. O demista ironizou a postura do prefeito, dizendo que ele deve ser o único na cidade a desconhecer quais são os problemas. “É clara a falta de planejamento e de administração capacitada e competente, aliada ao mau uso das nomeações políticas”, enfatizou.
‘Intervenção’
Segalla diz ainda que a comissão criada por Rodrigo Agostinho tem caráter intervencionista, o que, segundo ele, não teria motivos para acontecer. “Se fosse o caso, deveriam então afastar a diretoria atual”, sugeriu.
A vereadora Chiara Ranieri (DEM) também demonstrou descontentamento com a medida do prefeito e disse que o chefe do Executivo deveria, então, nomear o chefe de Giasone Candia como presidente do DAE. Isso porque o chefe de Gabinete de Rodrigo foi escolhido para comandar o diagnóstico da autarquia, junto a Kelly Guariento (Secretaria de Finanças), Donizete do Carmo dos Santos (Secretaria da Administração) e Ana Carolina de Carvalho Fraga (Secretaria da Administração). “Se é ele a pessoa capaz de resolver os problemas, deveria então assumir o departamento”, avaliou.
Alguns vereadores da base aliada do prefeito, chamada também de ‘Arca do Rodrigo’, também criticaram a comissão de diagnóstico. O mais recente membro do grupo, Moisés Rossi (PPS), chamou a medida de ‘brincadeira’. Para o vereador, a única saída para os problemas enfrentados pelo DAE seria o próprio prefeito assumir a autarquia.
CEI para o DAE
Tiveram início, na sessão legislativa de ontem à tarde, as primeiras movimentações para a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para o DAE. Sob a articulação de Marcelo Borges (PSDB), a iniciativa teria o apoio dos vereadores tucanos e demistas, que conseguiriam as cinco assinaturas mínimas para a apresentação de requerimento. No entanto, a criação de uma CEI dependeria ainda do apoio da maioria do plenário, hoje favorável ao prefeito.
Apesar do consenso entre vereadores do PSDB e do DEM, nenhuma medida concreta foi tomada nesse sentido e a comissão parlamentar pode ficar apenas nas palavras, como já aconteceu em outros casos nessa legislatura, que já ameaçou, por exemplo, criar CEI para investigar a Companhia da Habitação Popular de Bauru (Cohab). Além disso, José Roberto Segalla (DEM) diz que precisa ser ponderado se uma virtual comissão teria tampo hábil para a conclusão dos trabalhos. O parlamentar, porém, disse que a oposição não deve se melindrar sobre as críticas de que a abertura de uma CEI, a essa altura do campeonato, teria conotações eleitorais.
Os vereadores da base minimizaram os rumores. José Carlos de Souza Batata (PT) apenas riu. Moisés Rossi (PPS) argumentou que é necessário um ponto específico para a criação de uma CEI. “Caso contrário, se tornaria uma comissão sem final e sem resultados”, afirmou.
Já Renato Purini (PMDB) ressaltou que a criação de uma comissão de caráter político apenas atrapalharia ainda mais o DAE a resolver seus problemas internos. Roque Ferreira (PT) disse que precisaria ter a garantia de recursos materiais necessários, como auditorias técnicas, para que as investigações tivessem frutos.
A Comissão
A medida anunciada pelo prefeito na última quinta-feira, noticiada com exclusividade pelo Jornal da Cidade, é motivada por uma série de problemas que vem sendo enfrentados pelo DAE. Além da falta crônica de água, a dificuldade no setor de compras, resultado na aquisição de cloro e soda cáustica em regime de urgência, e outras deficiências no setor administrativo são alguns dos exemplos.