Cachoeiristas, assim entendidos os envolvidos na CPI do Carlinhos Cachoeira, não são cascateiros, assim entendidos os que ?fazem cascatas?, porque enquanto os cascateiros contam o que nunca fizeram, para aparecer, os caichoeiristas negam o que fizeram, para se esconder. Entre eles há uma característica comum: usam truques e artimanhas para tentar convencer que é verdade o que dizem. Ao afirmarem que fizeram, no caso dos cascateiros, ou que não fizeram, no caso dos cachoeiristas, ambos relatam fatos inverídicos com tal firmeza que, em muitos casos, até eles acabem pensando que são verdadeiros. Um caso notável, para fugirmos de gabolas que pegam todas e de papudos que sempre ganham, é a história de um jornalista cascateiro do século XVIII, que fantasiava casos reais para ter sucesso.
O jornalista inglês Daniel Defoe conheceu, nas tavernas junto às docas do Tamisa, em Londres, onde bebiam os marinheiros e bucaneiros, o pirata Alexander Selkirk, que lhe contou ter ficado sozinho numa ilha deserta, a 700 quilômetros do Chile, portando apenas uma Bíblia e lá permaneceu por quatro anos, até ser resgatado por outro pirata inglês. Após ouvir sua narrativa, conhecido cascateiro, como os velhos repórteres, Daniel Defoe a transformou numa história fantástica, em que Selkirk passou 28 anos na ilha, ficou amigo de um canibal e os dois viveram todo esse tempo alimentando-se à base de frutas, da pesca primitiva e da caça às cabras que outros navegadores ingleses deixaram soltas por lá. Nessa história o pirata passou a ser chamado de Robson Crusoé e o canibal de Sexta-Feira. Assim, o jornalista, procurando mostrar-se grande pesquisador, deu ao mundo uma das mais bonitas histórias da ficção. Vejam a semelhança de Defoe com Crusoe (no original).
As mentiras dos cascateiros dão material para sambas de breque, novelas e quadros de humor ou mesmo, uma obra literária como Robson Crusoé, enquanto as verdades que os cachoeiristas se recusam dizer dão material para investigações de processos políticos e judiciais. Os cascateiros usam a criatividade para inventar fatos que possam provocar admiração. Já os cachoeiristas usam artimanhas que causam indignação, pela desfaçatez com que negam os fatos verdadeiros e já conhecidos do público. No caso do senador Demóstenes Torres, a estratégia que ele mesmo sugeriu ao seu advogado foi a de pedir a anulação das provas, alegando que as gravações só poderiam ser feitas com autorização do STF, porque ele tem foro privilegiado. Mas anular provas juridicamente não elimina o fato real. É apenas um esforço para transformar uma verdade em mentira, como o fazem também quando a negam ou contam mentiras para contrapô-la.
Num caso como noutro, uma hora a verdade se impõe e são desmascarados. E o que acontece a eles? Para os cascateiros, geralmente um constrangimento ao ser desmascarado, talvez a punição mais adequada, pois a vítima é ele mesmo. Quanto aos cachoeiristas, ?mensaleiros? e quejandos, via de regra não acontece o que a sociedade espera, que é a punição exemplar pelos seus crimes. Após se apropriarem de dinheiro do povo através de empresas também corruptas, pela prática do superfaturamento, alguns perdem o mandato e tempos depois são reeleitos. O dinheiro que foi não volta e nem a empresa é punida. Agora está tramitando na Câmara o Projeto de Lei 6826/10 que dispõe sobre a responsabilização administrativa e cívil de pessoas jurídicas, nacionais ou estrangeiras, pela prática de corrupção. Mas, como escreveu Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos, na Folha de 08/5: "No que diz respeito à corrupção, a vida no Brasil vai de escândalo em escândalo, com breves intervalos para um cafezinho."
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras