08 de julho de 2026
Articulistas

Hecatombe no trânsito

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Os brasileiros convivem com uma verdadeira hecatombe no trânsito, há tempos. Nenhuma ação foi capaz de modificar este panorama; as que foram empreendidas não produziram resultados proeminentes. Para tentar entender essa realidade, um breve panorama sobre o trânsito é aqui apresentado.

Em 1987, a publicação "Acidente de tráfego: flagelo nacional evitável", da extinta Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes, já era enfática ao colocar o problema da acidentalidade como "flagelo nacional".

Mais de uma década depois, em 1999, em seu artigo "O verniz democrático no espelho do trânsito", o filósofo da UNICAMP João Quartim de Moraes, dizia que "o trânsito é um espelho da (falta de) cidadania". Apontava que no trânsito do Brasil, os direitos das pessoas eram cotidianamente desrespeitados por uma massa crítica de maus motoristas, responsáveis pela tragédia nas vias públicas. Ressaltava que a mentalidade do "jeitinho" sempre forja argumentos, mesmo que logicamente pífios, e se presta à autojustificação para os transgressores contumazes dos direitos alheios. A moralidade objetiva de grande parcela dos motoristas, que permeia todas as classes sociais, que desrespeita sistematicamente a legislação do trânsito civilizado, pode ser classificada como antidemocrática.

Em 2012, o filósofo e professor emérito da USP, José de Souza Martins, em seu ensaio "Na arena da transgressão", afirma que os constantes acidentes, motivados pelo uso de veículos pilotados por pessoas inabilitadas recebem o rótulo de fatalidade. Justifica que há fatalidades previsíveis, que podem ser evitadas e aquelas que não podem. "Alguém é responsável por elas", afirma categoricamente.

Martins procura uma justificativa para o comportamento das pessoas no trânsito. Vale a pena citar um trecho seu: "a adoção de equipamentos e instrumentos que dependem de maturidade e habilitação para serem manejados deu-se no Brasil como uma espécie de salto do passado ao futuro, sem a passagem pelo presente da ressocialização e da reeducação para seu uso. Pulamos da era do cavalo para a era da máquina, dirigindo máquina como quem dirige cavalo. A diferença é que o cavalo é um animal que age inteligentemente, mesmo quando o cavaleiro é burro. No caso da máquina, se falta prudência, maturidade e habilitação, não só o usuário corre risco. Também toda a sociedade o corre. Neste risco temos vivido".

O filósofo faz uma leitura sociológica muito feliz que retrata também o nosso pensamento: "o país continua regido por uma cultura da transgressão, própria de uma sociedade de senhores e escravos. Nela, diferentemente do que ocorre em sociedades civilizadas, o outro é irrelevante; relevantes são o sentimento de superioridade em relação aos demais e a esperteza para escapar das formalidades da lei".

Ainda Martins: "herdamos essas concepções da sociedade colonial, que por ser fundada na desigualdade era também fundada no pressuposto de que o ter e o mandar sobrepõe-se ao ser. Passou o tempo e o advento da sociedade moderna (...) em vez de disseminar o cidadão e a igualdade, difundiu a aspiração da afirmação da desigualdade em nome dos valores retrógrados do antigo regime. A lei mudou, na letra e na forma, mas o egoísmo consumista e moderno revigorou costumes e mentalidades. (...) A indulgência da lei e dos tribunais acaba fechando o círculo vicioso da impunidade, que consagra a injustiça e não dá ao transgressor a oportunidade de expiar seu delito".

Neste sentido, Chiara Lubich, fundadora dos Focolares e criadora da Economia de Comunhão, é categórica e dá uma resposta ao problema do trânsito. Afirma que a "cultura do ter" precisa ser paulatinamente substituída pela "cultura do ser e do dar", com o objetivo de se colocar como epicentro da sociedade o "outro" e não o "eu". Somente quando prevalecer o respeito ao próximo (pedestres, motoristas, usuários do transpor te coletivo), aplicando-se a "regra de ouro" - "faça aos outros o que gostaria que fosse feito a você" - poder-se-á ter um trânsito mais humano.

O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro e doutor em Engenharia de Transportes, professor da Universidade Federal de São Carlos e Diretor de Engenharia da Assenag-Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru. E-mail: raiajr@ufscar.br.