A criança que habita em mim ainda sente a presença de sua mãe ao seu lado. Esta criança sente solidão diante do mistério do infinito. Ainda recua diante do violento e se mete em episódios de distração e inocência. Minha criança ainda gosta de abraço caloroso, proteções misteriosas e de um modo de rezar que o adulto nunca mais conseguiu. Minha mãe não foi melhor do que as outras. Seria incapaz de se matar, como a mãe judia, se eu não tomasse a sopa. Nem subiria na mesa, como uma mãe italiana. Ou a lusitana, que chora um oceano se o rebento não comer. Em casa éramos cinco irmãos. Um bife para cada um, cortado bem fininho para disfarçar a dureza da carne. Quem demorasse a pegar o seu, corria o risco de ficar sem. Até hoje tenho o costume de comer depressa, como se fosse acabar. Agora eu entendo porque minha mãe dava tanta ênfase à personalidade de cada um dos Sete Anões, quando contava a "historinha" da Branca de Neve. Minha mãe tinha baixa escolaridade ? abandonou o ginásio para se casar -, mas lia muito. O papel dos anões nos dava uma boa pista da orientação de princípios. Sete pessoas distintas, com peculiaridades diferentes, vivem numa mesma casa. Os anões nos ensinam como conviver com pessoas em comunidade, respeitando as diferenças. Dunga, o agitado, aceitava a lerdeza do Soneca. Todos toleravam a chatice do Zangado. Ajudavam Atchin, na sua fragilidade doentia e a Dengoso, nas suas limitações. Feliz era um alienado que vivia rindo. As orientações do Mestre, o mais velho, eram ponderadas porque frutos da experiência. Podiam ter suas divergências no trabalho na mina, mas ao final do expediente todos seguem juntos: "eu vou, eu vou, para casa agora eu vou". Cada um deve respeitar o bife do outro. Hoje eu entendo minha mãe, que às vezes se impunha com o chinelo na mão. Deus nos deu bumbuns acolchoados, justamente para isso. Hoje a lei proíbe as "palmadas pedagógicas". O Estado quer interferir nas famílias a ponto de oferecer punição a pais que deram alguma chinelada em seus filhos, não importa o motivo, mesmo que tenha sido a única. O chinelo da minha mãe era de pelica acolchoada. Agora, quem punirá o governo pela falta de educação de qualidade? Talvez não precisemos de palmadas para educar nossos filhos. Mas, também sou contra leis que intervenham nos lares. A agressão física real já é tipificada no Código Penal e no Estatuto do Menor e do Adolescente.
Ninguém, muito menos o Estado, substitui a sabedoria e a intuição das mães. Napoleão Bonaparte observou que, "se a França tiver boas mães, terá bons filhos". Ele queria deixar claro que a boa educação começa em casa. Do repeito à hierarquia e aos valores tradicionais depende o futuro da nação. A mãe de hoje é um pouco diferente, mas nem por isso tem menos valor. A mãe trabalha fora. É um tipo sempre com pressa. Para estar o mais rápido possível junto das crias, nos atropela, impaciente, com seu carrinho de supermercado, quando nos flagra apalermados diante de tantas marcas e preços de azeite a escolher. Na saída da escola elas estacionam em fila dupla, buzinam para apressar o filho distraído com a conversa de fim de aula. Quando chega em casa ainda vai pôr o almoço na mesa, preparado na noite anterior. Acho que Deus, não podendo estar em todas as partes ao mesmo temo, criou as mães para ajudá-lo. "Por que Deus permite que as mães vão-se embora?" perguntava Drummond numa crônica-poema.
A revista Time, desta semana, estampou uma capa polêmica. A foto de uma mãe de 26 anos dando de mamar ao filho de três anos. O garoto sobe numa cadeirinha para alcançar o seio da mãe. O título provocativo: "Você está sendo uma boa mãe?" A reportagem traz uma entrevista com um pesquisador que defende a teoria da chamada "criança com apego". Caracteriza-se pela lactância até idade avançada, dormir com as crianças e levar os bebês apegados ao corpo. Esta seria a melhor maneira de criar os nenês, para que cresçam com confiança e seguros de si próprios. As japonesas já fazem isso há séculos. Termino com Drummond: "Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto e seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC