07 de julho de 2026
Ciências

Osteoporose e bisfosfonato: parar?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

O osso se renova a cada instante e depois de 4 a 10 anos alguém pode dizer: sou uma nova pessoa, troquei completamente o meu esqueleto. Mas é bom ter cuidado, pois a cobra quando troca a pele continua sendo cobra!


No organismo o cálcio participa de quase todas as reações químicas e funções; nossas células precisam dele e corremos risco de vida se abaixar ou subir muito seu nível sanguíneo. Quando abaixa, quatros aglomerados de células chamados de paratireoides no pescoço liberam no sangue uma substância chamada paratormônio que estimula a retirada do cálcio no osso, reabsorvendo-o para colocar no sangue. Quando sobe, células da tireoide liberam outro hormônio, a calcitonina, que breca a reabsorção óssea e cessa a colocação de cálcio no sangue. O dia inteiro isto acontece: ora sobe, ora desce e vamos levando a vida. Para brecar a reabsorção óssea, a calcitonina conta com a importante ajuda dos estrógenos.


Quando se perde a função normal das paratireoides e da tireoide, o osso pode reabsorver mais ou menos. Se reabsorver mais que o normal, as partes mineralizadas do osso conhecidas como trabéculas e corticais ficam finas, delicadas e frágeis. Esta situação recebe o nome de osteopenia. Os ossos ficam mais predispostos a fraturarem em minúsculas áreas ou por inteiro e se isto acontece a osteopenia com a fratura passa a ser chamada de osteoporose.


Na menopausa o nível de estrógenos pode cair muito e eles ajudavam a calcitonina a brecar a reabsorção óssea. Quando isto ocorre a remodelação diária do osso se acelera muito, pois um dos seus controles ou breques representado pelos estrógenos está ausente. O esqueleto da mulher pode apresentar a osteopenia e até a osteoporose.


Ainda hoje há muita controvérsias sobre os benefícios e desvantagens da terapia com reposição hormonal de estrógenos. Este assunto nos últimos anos perdeu um pouco da atenção pelo surgimento de um grupo de drogas conhecido como bisfosfonatos. Milhões de mulheres fazem uso deste tipo de medicamento como parte do controle ou prevenção da osteoporose. Entre os bisfosfonatos, na menopausa, o mais utilizado é o alendronato com vários nomes comerciais.



Bisfosfonatos


Os bisfosfonatos ganham a circulação e se combinam facilmente com o cálcio circulante. Onde o cálcio for, a molécula do bisfosfonato vai junto, se incorporando em todo esqueleto em semanas. Na mulher que usa bisfosfonatos, o cálcio nos ossos não está sozinho, estará sempre acompanhado. Quando os clastos, as células que reabsorvem o osso, ingerem o cálcio também ingerem os bisfosfonatos que promovem ou aceleram sua morte natural ou apoptose. Os clastos, que eram muitos no esqueleto que viria a ter osteopenia e ou osteoporose, agora terá seu número reduzido ao normal. A remodelação readquire um ritmo normal, compatível com um esqueleto de estrutura não fragilizada. Em outras palavras, os bisfosfonatos previnem, reduzem e até eliminariam a osteopenia e osteoporose.


Como são milhões de usuárias imaginem o dinheiro e interesses envolvidos. Os laboratórios que não tem patentes procuram outras alternativas e não deixam de colocar dúvidas sobre a eficiência dos bisfosfonatos, assim como propagam seus potenciais efeitos colaterais. Esses efeitos são muito pequenos, eventuais e questionáveis como as fraturas do fêmur, relação com câncer do esôfago e necrose óssea nos maxilares, especialmente quando se utiliza o tipo alendronato. Os estudiosos sem interesses comerciais reconhecem que os benefícios superam os poucos efeitos colaterais.


Neste mês a The New England Journal of Medicine publicou uma recomendação da Anvisa estadunidense, ou FDA, na qual questiona os benefícios do uso prolongado de bisfosfonatos em tempo superior a cinco anos após analisar vários estudos. A questão principal: por quanto tempo se deve tomar bisfosfonatos para prevenir a osteopenia e osteoporose? Os estudos sugerem que em mulheres com alto risco de fraturas, o uso prolongado tem muito mais benefícios e os riscos valem a pena. Quando o risco da mulher sofrer fratura é menor, a relação custo-benefício deve ser muito bem calculada.


Em caso de dúvidas, não as tenha, pergunte ao médico que receitou como deve proceder, pois o trabalho publicado contrapõe-se a muitos outros relatos científicos e na ciência é assim mesmo: a verdade quando existe é passageira, e quando persiste, será sempre questionada!