08 de julho de 2026
Geral

Grávida morre à espera de socorro

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Conheci meu irmão no caixão. Não era para ter sido assim”. Em meio à dor e lágrimas, o lamento de Juliana Cristina Francisco, 28 anos, revelava o clima de inconformismo da família durante o velório da manicure Rosana Garcia, 38 anos, que morreu ontem de madrugada, em Bauru.

 

Rosana estava grávida de 8 meses e passou mal em sua casa, localizada no Núcleo Geisel, por volta das 3h. O marido, o mecânico Geraldo Francisco, 53 anos, teria acionado o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas o socorro só teria chegado uma hora depois. 

 

Assim como a mãe, o bebê, que seria registrado com o nome de Enzo Gabriel, também não resistiu. O Samu alega que o primeiro chamado para a ocorrência só foi registrado após as 4h e que a equipe teria chegado ao endereço dez minutos depois.

 

Juliana, filha de Geraldo e enteada de Rosana, rebate a informação. “Não é verdade. Meu pai ficou 20 minutos com uma atendente ao telefone e ninguém fez nada”, reclama. De acordo com ela, a manicure era hipertensa e acordou por volta das 2h para tomar o medicamento de controle da pressão arterial.  

 

“Ela reclamou de insônia e, às 3h, levantou de novo, dizendo que não estava bem. A gente pensou em levá-la para a maternidade de carro, mas como o Samu é perto de casa, deduzimos que ela seria melhor e mais rapidamente atendida por uma equipe especializada”, justifica.

 

A distância entre a base do serviço de urgência e a residência da família não passa de 1,5 quilômetro. Mas, como o socorro demorava a chegar, Geraldo resolveu ligar para a Polícia Militar, que foi rapidamente até o local.

 

Quando o cabo Daniel Fernando Burque e o soldado Maurício dos Santos entraram na casa, a manicure já estava desacordada. Antes de perder a consciência, ela teria vomitado e, sem conseguir respirar, disse à família que acreditava que iria morrer. 

 

Por volta das 4h, os policiais colocaram Rosana deitada no banco do passageiro do Fiat Palio da família, que foi conduzido até o Hospital Estadual (HE) pelo próprio soldado Santos. 

 

“A gestante deu entrada no hospital com parada cardíaca. A informação que recebemos é de que os médicos conseguiram ressuscitá-la, mas ela teve nova parada e não resistiu. Pelo tempo em que ela ficou sem oxigenação, também não conseguiram salvar o bebê”, comenta o cabo Burque. A suspeita é de que a mãe tenha morrido de infarto ou pré-eclâmpsia.

 

 

Gravidez de risco

 

Na semana passada, a manicure já havia sido internada na Maternidade Santa Isabel após uma crise de hipertensão. Como a gravidez era de risco, ela ficou dois dias em observação e teria recebido alta no último sábado.

 

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Bauru informou que não houve nenhum chamado registrado para o Samu entre 23h de ontem e 4h de hoje. Ainda segundo a pasta, logo após as 4 horas da manhã, a PM teria solicitado uma viatura do serviço para atendimento na residência de Rosana e a equipe teria chegado ao local dez minutos após a ligação.

 

Durante o velório, que teve começou no início da noite de ontem e adentrou a madrugada, os familiares demonstravam indignação. “O quartinho do Enzo estava todo pronto, as roupinhas, o bercinho. Faltava muito pouco tempo para ele nascer e a expectativa para ver o rostinho dele era grande. É o pior sentimento do mundo conhecê-lo dentro de um caixão”, lamenta Juliana.

 

Rosana deixa uma filha de 14 anos. Ela está sendo velada junto com o filho Enzo no Centro Velatório Terra Branca, que fica na rua Gérson França, 5-55. Os corpos da mãe e do bebê serão sepultados juntos, às 9h30, no Cemitério da Saudade.