09 de julho de 2026
Articulistas

Nosso irmão, o policial

Ney Vilela
| Tempo de leitura: 2 min

Dizem que minha profissão é a mais injustiçada do país. Ser professor significa, com muita frequência, receber salários baixos. Há algo ainda pior do que ter problemas com a conta bancária: os professores são ridicularizados por anões intelectuais como Chico Anísio, são excluídos das escalas de trabalho em escolas públicas ou são demitidos das escolas particulares ao sabor do fluxo de caixa da mantenedora. E sempre aparece algum aluno que, ao final da aula, num papo informal lhe faz a seguinte pergunta: "Professor, além de dar aulas, você trabalha?" Há, no entanto, uma profissão que é - no mínimo - tão injustiçada quanto a de professor. Trata-se da atividade policial. Para começar, o policial é mal remunerado. Por esse motivo, quase todos os policiais realizam jornada dupla de trabalho, labutando como seguranças, leões de chácara e vigias, chegando a trabalhar por 36 horas ininterruptas.

Mas isso é só o começo dos problemas. Os policiais arriscam suas vidas na luta contra os bandidos, armados de maneira deficiente, sem cursos frequentes de especialização, com insuficientes meios de transporte, sem apoio eficiente nas áreas científicas de pesquisa e sem quadros em número suficiente para a realização competente das atividades de prevenção e repressão ao crime. Como se isso não bastasse, há o preconceito contra a atividade dos policiais: de acordo com pesquisas apresentadas nos jornais dessa semana, a população não confia nos soldados, considerando-os desnecessariamente violentos, corruptos e covardes. Na verdade, se considerarmos os baixos salários da polícia e o poder corruptor de bicheiros, traficantes e proxenetas, é surpreendentemente pequeno o número de policiais que se deixa subornar. Se lembrarmos da violência das quadrilhas, é surpreendente a civilidade da grande maioria dos homens fardados que zelam pela segurança das cidades. Se lembrarmos do poder de fogo dos marginais, temos que admirar a coragem dos homens que lhes fazem combate.

Os policiais, quando estão à paisana, se derem o azar de serem assaltados portando documentos profissionais, são sumariamente assassinados. As esposas dos policiais não podem lavar as fardas dos maridos e as colocar para secar ao sol: se alguma quadrilha descobre, eis os filhos do policial correndo o risco de sequestros e torturas. Ninguém quer ser vizinho de um policial. Se você toma uma cachaça ao lado de um policial, passa a ser considerado alcaguete. Os policiais estão perdendo o direito de ter amigos, de levar os filhos à escola ou de jogar conversa fora, num bar. Combate-se, corretamente, o racismo. Evita-se, justificadamente, o preconceito em relação aos homossexuais. Luta-se, com evidente mérito, para que os deficientes físicos possam ter uma vida com menos obstáculos. Os animais têm um grupo de abnegados indivíduos a protegê-los. Patrimônio arquitetônico tem seus protetores. Até as árvores são defendidas ardentemente por grupos de ecologistas. Mas os policiais estão sós. Desumanamente sós. Os policiais são meus irmãos. Confio neles. Respeito-os. E espero que continuem em seu trabalho, mesmo sem receber o reconhecimento que merecem.

O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela