O Brasil é o único País do mundo onde a ordem é matar. Essa política do medo não adianta”, afirma Mariana Fraga Zwicker, integrante e ativista da organização não-governamental (ONG) Naturae Vitae. Ela é a organizadora de uma passeata que será realizada em Bauru na manhã deste domingo, na avenida Getúlio Vargas.
A entidade, que participa da campanha nacional “Diga não à leishmaniose, o cão não é o vilão!”, aderiu ao movimento por conta da indignação com a Portaria 1.426, expedida em 2008 pelos ministérios da Saúde e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O texto proíbe o tratamento da leishmaniose visceral canina com produtos de uso humano ou não registrados no Mapa. Atualmente, a recomendação é de que seja realizada a eutanásia dos cães.
Segundo a ativista, esta é a principal medida adotada para o controle da doença no País com o agravante de, em sua avaliação, não ter respaldo científico eficaz. “O diagnóstico é feito de maneira ineficaz no Estado. Soube de casos em que cachorros com uma simples verminose ou doença do carrapato tiveram o primeiro diagnóstico positivo para leishmaniose e depois, em um segundo exame, a negativa apareceu”, enfatiza Mariana.
De acordo com ela, os principais objetivos da campanha são a conscientização da população e da classe veterinária sobre a doença, a revogação da portaria e a aprovação do Projeto de Lei 1.738 de 2011, que regulamenta a Política Nacional de Vacinação contra a Leishmaniose e o direito ao tratamento dos cães.
Para Mariana, a disseminação da leishmaniose é um problema que, além de envolver questões sociais, também está ligada a políticas que controlem o desmatamento no meio ambiente. “Não adianta essa matança de cachorros. É preciso criar políticas mais eficazes de combate e prevenção. Não temos um controle do vetor (da doença) e nem campanhas eficientes”, defende a ativista e dona da cadela Pandora, da raça fila brasileira.
Números
Caracterizada por ser endêmica, a leishmaniose é considerada emergente no Estado e afeta diferentes regiões do país. O sul do Brasil, por exemplo, seria um das únicas áreas ‘livres’ da doença. Em São Paulo, o primeiro caso de leishmaniose visceral teria sido registrado em 1999 e, em Bauru, em 2003.
Nesta semana, o Instituto Adolfo Lutz confirmou mais três casos de leishmaniose visceral em Bauru, conforme informações da Secretaria Municipal de Saúde. Dois deles são referentes a 2011 e um resultou em morte neste ano. Com a confirmação, a cidade totaliza seis casos da doença e dois óbitos neste ano.
Acionado pela reportagem do JC, o Departamento de Saúde Coletiva (DSC) da Prefeitura Municipal de Bauru informou o número de eutanásias em cães realizadas nos últimos anos pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). O levantamento mostra certa estabilidade na quantidade de procedimentos efetuados no período analisado.
Segundo os dados, em 2007 foram sacrificados 4.325 animais. No ano seguinte foram 4.754, subindo para 4.940 no ano de 2009. Já em 2010 foram registrados 4.208 procedimentos de eutanásia em cães, tendo uma pequena queda para 4.030 no ano passado.
Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, o DSC afirma que os números de eutanásia não se referem apenas a casos de leishmaniose. Porém, não detalhou quais seriam as outras razões que levaram à adoção do sacrifício destes animais. Os diagnósticos equivocados feitos pelo município também não foram contabilizados.
Passeata em Bauru
A concentração para a passeata em Bauru será a partir das 10h deste domingo, dia 20, na quadra 15 da avenida Getúlio Vargas, em frente à academia ao ar livre. A caminhada deverá percorrer a avenida, interditada pelo projeto Recreiovia.
‘Não existe cura parasitológica para a doença’, aponta o secretário de Saúde
O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, rebate a afirmação da ativista da ONG Naturae Vitae em relação ao tratamento de cães diagnosticados com leishmaniose. Segundo ele, a Portaria que recomenda a eutanásia nesses casos foi baseada em diversos estudos realizados pelo Ministério da Saúde que apontaram a não existência de cura parasitológica contra a doença nos animais.
“Nossa missão não é realizar eutanásia em cães, mas evitar os riscos à população. Não existe cura parasitológica, existe apenas uma melhora no quadro de saúde do cão, que pode continuar sendo depósito da doença”, aponta o secretário, que também é médico infectologista.
Sobre o sacrifício adotado como medida em âmbito nacional, Monti alega que, por conta da política, o intermédio do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) só pode ser feito seguindo a recomendação técnica do Estado, que hoje se resume em sacrificar os cães infectados.
Ainda segundo ele, não houve desenvolvimento considerável no arsenal terapêutico que é utilizado para o tratamento da doença desde 2003, quando o primeiro caso de leishmaniose visceral canina foi diagnosticado em Bauru.
“Não existem muitas novidades, notamos uma falta de interesse das indústrias farmacêuticas do País sobre o assunto. Se houvesse um tratamento ou uma vacina eficaz, a cura seria nossa prioridade, pois acabaríamos com o depósito da doença”, ressalta.
Quanto a equívocos em diagnósticos realizados pelo município, o secretário de Saúde aponta que, quando constatada a doença, o CCZ tem facultado aos donos dos cães a possibilidade de apresentação de contraprovas. Esses exames seriam realizados pelo próprio tutor com meios próprios, em clínicas particulares.
“Não existe diagnóstico perfeito, mas sim com alto grau de precisão. Tomamos todas as cautelas para evitar as falhas”, reforça Monti, explicando que os veterinários do CCZ, além dos exames, se concentram nas evidências da doença apresentadas pelo cão.
Em relação à prevenção da leishmaniose canina, as coleiras repelentes com deltametrina, um princípio ativo e inseticida recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma das ferramentas de controle da doença, apresentaram eficácia comprovada nos últimos anos.
Ao ser questionado sobre o assunto e quanto à adoção dessa prevenção no município, Fernando Monti explica que o mecanismo ainda é considerado caro para o orçamento da pasta e, por isso, não foi implantado em Bauru. Cada coleira custaria em torno de R$ 50,00 a R$ 70,00.
Conforme o secretário, uma campanha incluindo panfletagem e material educativo sobre a leishmaniose é realizada pela Secretaria Municipal de Saúde na cidade. A criação do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (Comupda), em janeiro deste ano, também foi colocada por Monti como ferramenta importante para traçar novas políticas sobre o assunto.