08 de julho de 2026
Política

Desperdício é igual à produção da ETA

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Uma Estação de Tratamento de Água (ETA). Essa é a diferença entre o volume da água produzida pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) em Bauru e o que, de fato, chega às casas da população. E o pior: a maior parte dessa água é perdida em vazamentos, que estão espalhados pelos quatro cantos da cidade e para os quais a autarquia chega a demorar meses para dar solução. Traduzindo em números, a água perdida pode chegar a 1,45 bilhão de litros por mês.

 

Esse volume é superior ao produzido pela ETA (Rio Batalha), no mesmo período: 1,43 bilhão de litros. Enquanto isso, os 29 poços de Bauru em operação produzem 2,35 bilhões de litros, totalizando 3,78 bilhões. No entanto, o faturamento de consumo de água, durante o mês de março, foi de 2,32 bilhões, aproximadamente 61% do total.

 

Para se ter ideia do volume de água produzido pela ETA – que é o mesmo perdido -, ele é responsável pela cobertura de até 70% da área urbana em Bauru, embora, em muitos bairros, divida o abastecimento com a água retirada de poços. De acordo com a diretoria de Produção do DAE, as únicas regiões que não recebem água da ETA são: Geisel, Redentor, Octávio Rasi, Gasparini, Manchester e Mary Dota.

 

O próprio DAE já havia admitido que cerca de 40% da água que produz é perdida. No entanto, o diretor da Produção, Igor Fournier, afirma que não é bem assim. Segundo ele, alguns procedimentos e formas de consumo não são contabilizados e entram no volume resultante da diferença entre a água produzida e consumida, como a lavagem de filtros, descargas de rede, pontos de fornecimento públicos de água, manutenções e caminhões-pipa.

 

Ainda assim, Fournier reconhece que o volume de água destinado a esses itens é muito reduzido diante do que é perdido por vazamentos e ligações irregulares de água. A retrolavagem dos filtros, por exemplo, consome 1 milhão de litros, 0,06% do total da diferença entre a produção e o consumo.

 

Igor confirma também que o cenário de vazamentos em Bauru é grave, mas pondera que, em outras cidades com dificuldades no sistema de monitoramento e controle da produção e distribuição de água, o índice de perda gira também em torno dos 40%. “Já os municípios que contam com sistemas de telemetria, isso fica na casa dos 25%”, compara.

 

Na divulgação desses dados, o DAE perde também por não dispor de sistema de medição de consumo nos itens citados por Fournier. “Temos seis pontos de distribuição de água [como o próximo ao Parque Vitória Régia], mas não sabemos qual o volume de água tirado de lá. Isso é um erro. Não que nós fossemos cobrar do próprio DAE, mas é preciso ter um controle”, admite. Apesar disso, Igor diz desconhecer qualquer projeto para reverter a situação.

 

 

 

Vazamento de 60 dias

 

Diretor da Divisão Técnica do DAE, Manuelino Câmara Filho afirma que, no cenário ideal, problemas com vazamento deveriam ser solucionados em 48 horas. No entanto, isso não acontece. Moradores da quadra 1 da rua Nelson Mortari, no Jardim Ouro Verde, sabem bem disso. 

 

Os relatos são de que a água jorra pela rua já há dois meses. A situação se agrava ainda mais porque, na mesma via, três quadras adiante, outro vazamento deixa a população indignada.

 

Além disso, novos vazamentos não param de surgir. Na quadra 3 da rua Primo Vitti, no Mary Dota, um já existe há três dias, segundo moradores da região.

 

 

 

Veneza é aqui?

 

Um dos casos mais impressionantes, porém, fica na quadra 6 da avenida Hipódromo, no Bauru 22. A via está alagada de água. A impressão é que uma chuva torrencial caiu e deixou rastros sobre o local. Uma moradora que prefere nãos e identificar diz que precisa atravessar o ‘rio’ formado na rua todos os dias para chegar à padaria.

 

A origem dessa água toda está no vazamento do pé de um poste na quadra 7 da rua Salvador Cacciola, que fica acima da avenida Hipódromo. “A água desce toda para cá”, conta a mesma moradora.

 

 

 

Maquinário quebrado

 

Diretor da Divisão Técnica, Manuelino Câmara Filho admite que o serviço de reparo está muito aquém, mas não soube precisar o tempo médio de espera para que os consertos sejam feitos. “A gente prioriza os casos mais sérios em detrimento dos menores”, pontua.

 

A explicação para a demora no serviço é a falta de maquinário adequado, mais precisamente, retroescavadeiras. O Jornal da Cidade mostrou na semana passada que um terço das 18 máquinas desse tipo estava encostado, esperando reparo ou reformas. As licitações para tal ainda não foram publicadas.

 

Enquanto isso, aproximadamente 1.000 novos vazamentos são registrados todos os meses. As reclamações chegam a 70 por dia.

 

Para diminuir esses casos, Manuelino afirma que seriam necessários investimentos na rede. “Os canos de ferro e concreto, que correspondem a 40% do total, precisavam ser de PVC”, pontua.

 

Segundo o diretor, com a queda de temperaturas, as ocorrências de vazamentos aumentam ainda mais. “Com a redução do calor, o material dos canos se contrai e fica mais vulnerável”, explica.

 

 

 

Como reclamar

 

Os munícipes que se depararem com vazamentos podem registrar reclamações pelo telefone 0800-7710195. De acordo com a Divisão Técnica do DAE, quatro funcionários atuam nesses atendimentos. 

 

No entanto, há muitas reclamações de bauruenses que alegam ser atendidos com descaso pelos atendentes. “Eu já liguei e me respondem que, quando der, eles vêm aqui”, conta uma moradora.

 

O diretor Manuelino Câmara classificou a situação como inadmissível e orientou que os munícipes que passarem por essa situação devem reclamar na Divisão Técnica, pelos telefones (14) 3235-6138 ou (14) 3235-6201. Para isso, é necessário anotar o número de protocolo e, se possível, o nome do atendente.