Ariel Baptistella Cruz, 41 anos, iria realizar a manutenção de seu caminhão. Quando estava sob o veículo, ocorreu a tragédia. Arrastado por mais de 50 metros (leia mais abaixo), ele se tornou a mais recente vítima da violência do trânsito bauruense. De acordo com dados da Polícia Militar (PM), são 11 mortos somente no perímetro urbano este ano. Jovens e motociclistas compõem o perfil mais suscetível às fatalidades.
O número de vítimas deste ano já representa 42% do total de 2011, quando foram registradas 19 mortes. “Estamos muito preocupados com estes números”, revela o capitão Jorge Luís Dias, responsável pelo Pelotão de Trânsito da PM.
Nestes cinco meses ainda incompletos de 2012, sete das vítimas tinham entre 18 e 30 anos. “Se pegarmos nos últimos 10 anos, sempre foi assim. A maior parte das vítimas tem este perfil: pessoas em atividade e na faixa etária jovem indo para a vida adulta”, complementa o capitão.
Uma das tragédias que mais “machucou” a cidade ocorreu em abril e comprova este perfil. Na ocasião, três jovens em um Vectra morreram em uma colisão contra um ponto de ônibus e uma parede na quadra 25 da Duque de Caxias. As vítimas tinham 18, 19 e 27 anos.
Deste montante de 11 mortos, quatro estavam em motocicletas. No ano passado todo, foram 11 acidentes fatais com motos. O capitão Jorge Luís explica que o número pode parecer pequeno, mas não é. Ele destaca que a frota de duas rodas é muito menor que a de automóveis, ou seja, o alerta sobre quem anda de moto deve ser mantido e intensificado.
“O número de motos é nossa maior preocupação no trânsito. Por isso, intensificamos as fiscalizações visando este tipo de veículo. Outro fator para as tragédias é a mistura de direção e álcool. Vemos muitos acidentes graves aos finais de semana e é algo diretamente ligado ao uso de álcool”, completa o responsável pelo Pelotão de Trânsito da PM.
Em relação aos veículos de quatro rodas, ele explica que a imprudência é o maior fator de risco. Segundo o capitão, na maioria das tragédias, ou as vítimas estavam em alta velocidade ou sem usar o cinto de segurança.
Tragédia maior
Apesar das 11 mortes confirmadas oficialmente pela polícia já darem uma dimensão trágica do problema no trânsito, o engenheiro de trânsito Archimedes Raia Júnior afirma que o número é bem maior.
“Estas são as mortes que ocorrem no local do acidente ou pouco depois. Se levarmos em conta aqueles que ficam dias internados e morrem, o número é bem maior. Ainda não há estatísticas de 2011 e 2012, mas nos anos anteriores sempre houve esta discrepância”, explica Archimedes, que é doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Engenharia e Segurança de Tráfego da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Ele confirma o perfil das pessoas mais suscetíveis às tragédias e realça o alerta sobre as motos. “A motocicleta é um meio de transporte de país subdesenvolvido. E o Brasil está se desenvolvendo utilizado este meio em larga escala. É algo que realmente preocupa muito”, frisa.
Caminhões
O acidente do motorista Ismael Falcão foi o quarto registrado este ano com mortes envolvendo caminhões e caminhonetes. O fato chama a atenção, uma vez que, de acordo com os especialistas, não é comum ocorrências fatais com veículos deste porte.
Para se ter uma ideia, em todo o ano passado, foram registradas duas ocorrências com mortes em acidentes de caminhões. “É uma fatalidade mesmo. Uma coincidência”, teoriza o capitão Jorge Luís Dias, responsável pelo Pelotão de Trânsito da PM.
Esta é a mesma opinião do engenheiro de trânsito Archimedes Raia Júnior. “Apesar destas quatro vítimas já registradas este ano, creio que seja algo pontual. É uma situação aleatória”, complementa.
Pedestres
Em meio a este quadro violento, os atropelamentos diminuíram significativamente em 2012. Dois pedestres perderam a vida até agora, enquanto, em todo o ano passado, foram nove mortes. O fato, porém, para o capitão Jorge Luís Dias, do Pelotão de Trânsito da PM, não significa uma melhoria no comportamento.
“Além do desrespeito e da imprudência dos motoristas, os pedestres também precisam se educar. Não acredito que o comportamento tenha melhorado. Ainda há muitos que não obedecem aos semáforos e às faixas, por exemplo”, ilustra.
Ele ressalta o cuidado com idosos e crianças. “Os idosos ainda saem muito sozinhos nas vias públicas. Com isso, eles ficam suscetíveis aos atropelamentos. O mesmo ocorre com as crianças. É preciso muito cuidado com pessoas destas faixas etárias”, alerta o capitão Jorge Luís Dias.
11.ª vítima foi arrastada 50 metros
Uma fatalidade que virou tragédia. De acordo com o boletim de ocorrência (BO), o motorista Ariel Baptistella Cruz, 41 anos, estava debaixo do veículo realizando manutenção na noite de anteontem, quando o caminhão perdeu o freio e se locomoveu. A vítima foi arrastada cerca de 50 metros e só parou quando o caminhão atingiu dois postes de sinalização.
Desgovernado, o veículo continuou descendo e atingiu um Gol que estava devidamente estacionado em via pública. O grande caminhão só parou quando colidiu contra um poste de iluminação pública.
O motorista Ariel Cruz chegou a ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhado ao Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru. A vítima não resistiu aos ferimentos e morreu por volta das 19h.
Segundo especialista, há soluções
O engenheiro de trânsito Archimedes Raia Júnior afirma que há soluções para se evitar as mortes no trânsito. “Porém, alguém precisa começar a tomá-las”, critica o especialista, que ainda classifica estes caminhos em curto, médio e longo prazo.
“Em curto prazo, é preciso aumentar a fiscalização e ter mais rigor nas leis. Dois exemplos de que há problemas é o tanto de pessoas que bebem e dirigem mesmo com a Lei Seca e aqueles que atropelam e matam alguém e depois saem livres pagando cestas básicas”, argumenta o engenheiro.
Ele, entretanto, afirma que as soluções em médio e longo prazo são as únicas que realmente irão incidir de forma direta no problema. “É preciso uma política de trânsito efetiva. As nossas crianças precisam ser educadas em relação ao trânsito para não serem punidas no futuro. É esta política que as administrações precisam fazer, mas que sempre fica para a próxima e nunca é efetivada”, completa.
O capitão Jorge Luís Dias, responsável pelo Pelotão de Trânsito da PM, também enxerga que a melhoria neste contexto preocupante se baseia em um tripé: fiscalização, engenharia e educação. “Precisamos melhorar nestes três aspectos para garantir um trânsito mais seguro”, finaliza.
Moto primeiro, habilitação depois
O capitão Jorge Luís Dias, do Pelotão de Trânsito da PM, revela uma situação quase que caótica em relação à crescente frota de motocicletas. “As pessoas estão adquirindo motos antes de tirarem a habilitação”.
Segundo ele, esta constatação é feita nos bloqueios diários que a PM tem feito. “Hoje, adquirir uma moto é algo que foi muito facilitado. Nos bloqueios, apreendemos muitas que são guiadas por pessoas sem habilitação e elas nos descrevem esta realidade. É algo que nos preocupa muito”, conclui.