08 de julho de 2026
Articulistas

Perto do impossível

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

As expectativas em torno dos resultados da eleição na Grécia no próximo mês de junho, com as opiniões extremamente divididas entre a permanência do país na Zona do Euro ou o retorno ao velho Dracma, aumentaram a instabilidade nos mercados financeiros esta semana, num momento em que se confirmava um conjunto de notícias nada agradáveis sobre o comportamento da economia mundial. Pela ordem, a confirmação do estado de recessão em oito dos dezessete países da Zona do Euro e da estagnação da economia nos demais, com exceção da Alemanha, que conseguiu crescer 0.5% no primeiro trimestre do ano. Com as economias "tecnicamente" em recessão (dois meses seguidos de queda do PIB), estão Espanha, Itália, Portugal, Holanda, Eslovênia, Chipre e, evidentemente a Grécia, cujo Produto encolheu 20% nestes quatro anos de crise mundial.

Por conta desses resultados, vão de mal a pior as avaliações sobre as possibilidades de reequilíbrio político no continente europeu, onde a crise econômica e social já derrubou (felizmente pela via eleitoral, por enquanto) onze governos, na esperança de que os novos governantes resolveriam os problemas do crescimento e do emprego. A prestigiada revista inglesa "The Economist", indiferente às ameaças de pânico que rondam o continente não escondeu o humor negro com a publicação da piada (que inspirou o título deste meu comentário): o problema é que "o euro precisa de reformas na França, extravagâncias na Alemanha e de maturidade política na Itália". Chega perto do impossível...

Não resta dúvida que a situação lá fora está se revelando mais complicada do que a gente pensava, há dois meses, por exemplo: 1. Os Estados Unidos estão com uma recuperação mais lenta do que todos esperavam; 2. na Ásia o ritmo de crescimento continua se reduzindo e isto é mais visível na Índia, mas também se desacelera na China; e 3. a Europa, como os resultados do primeiro trimestre mostraram, está praticamente num processo recessivo. Essas manifestações que estão ocorrendo na Grécia revelam a gravidade da situação política em toda a Zona do Euro, quando nenhum governo consegue fazer o que tem que ser feito. Os gregos se defendem (com razão), mostrando que não podem fazer o ajuste dramático que é necessário para permanecerem no sistema do Euro. Os europeus têm tratado os gregos com grande condescendência, já deram para os gregos mais de 200 bilhões de euros para pagar uma dívida que continua crescendo, enquanto o PIB do país encolheu 20%. Sair do Euro, abandonar a moeda comum dos países e voltar para o dracma, vai custar muito caro ao país. Ela vai retomar a possibilidade de ter sua moeda, mas vai fazer o mesmo que faria ficando no Euro. A desvalorização cambial vai cortar o salário pela metade, sem ter a quem se queixar. Se o governo aceitar o corte de salário, cai o governo. O problema é que esses países estão sujeitos ao engano que consiste em acreditar que o novo governo vai resolver o problema, sem maior custo. Impossível. Foi assim na Inglaterra, agora o poder trocou de mãos na França e vai ser assim na Alemanha quando houver a eleição geral no ano que vem.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC