Existem cinco condições para se chegar à verdade e torná-la producente para a sociedade, segundo o pensador e dramaturgo alemão Bertold Brecht, exposto em artigo de 1934. Em primeiro lugar é preciso "coragem" para dizer a verdade, quando muitos se empenham em sufocá-la. Em segundo, nada funciona se não houver "inteligência" para reconhecê-la nos seus benefícios universais, ou seja, a verdade é sempre boa, pelo menos para a maioria. Terceiro: "habilidade" para difundi-la. Em quarto lugar, é necessário tornar essa verdade "manejável", como se fosse um instrumento de paz e concórdia. Por último, e nem por isso menos importante, roga-se "discernimento" para escolher os que tornarão a verdade eficaz. A presidente Dilma Rousseff até parece que se inspirou em Brecht ao nomear e instalar a Comissão da Verdade, constituída para esclarecer o que ocorreu durante o regime militar (1964-1985). Tomada de forte emoção, ela mesma uma ex-militante de esquerda que acabou presa e torturada, deixou claro os caminhos que devem ser seguidos pelos sete membros da Comissão. Sem conseguir conter as lágrimas em alguns momentos, lembrou que a apuração dos fatos obscuros da ditadura deve ter como foco a busca da verdade, a ser perseguida sem revanchismo, ressentimentos ou ódios. Postura que, segundo ela, não significa perdoar os excessos cometidos. A ocultação da verdade é a estratégia daqueles a quem interessa o silêncio e o esquecimento. Somente o acesso aos fatos poderá libertar o povo, com a consciência e a esperança de que a democracia sempre será o melhor dos regimes. À Comissão da Verdade caberá esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de graves violações de direitos humanos. Cabe à história transmitir às gerações brasileiras as circunstâncias dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, banimentos, ocultação de cadáveres e sua autoria. Os gregos consideravam um direito divino o sepultamento dos seus entes queridos em lugar conhecido. Sófocles (442 a.C) legou à humanidade, em forma de tragédia, o drama vivido por Antígona, filha de Édipo, condenada por Creonte que a proibiu de enterrar o irmão. Ela escava com as unhas a cova do irmão, e paga por isso aprisionada em uma caverna, sem ver a luz do sol. "Aqueles que estão mortos detêm mais peso do que qualquer governante, que é o peso da lei divina" ? sentencia Sófocles. Dezenas de corpos de vítimas da ditadura clamam por um lugar conhecido. Todos os que perderam seus pais e filhos, irmãos e irmãs, maridos e mulheres, amigos e companheiros, têm direito ao pranto. Devem conhecer o lugar e o dia em que morreram, para poder chorá-los. O direito ao pranto é tão necessário quanto o direito de viver. É assim que também nos comovemos com a emoção da presidente Dilma Rousseff. É certo que, no próprio processo investigatório, será difícil não se inteirar de atos praticados pelos que resistiram à ditadura. Conhecê-los não macula os que os praticaram, nas duras condições dos combates nas trevas, para lembrar a imagem do historiador Jacob Gorender. A culpa real não cabe a quem age em defesa da legitimidade republicana, e, sim, aos que, ao praticar o crime lesivo aos princípios democráticos, provocaram a reação desesperada das suas vítimas.
A Comissão escolhida por Dilma mostra divergências em seus pronunciamentos. As presenças dos ex-presidentes Lula, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Collor de Mello mostram que Dilma colocou-se acima de querelas partidárias, reafirmando a caráter republicano do evento, e sua importância histórica para o país. Dilma, presa e torturada, recebe agora uma indenização de R$ 20 mil pelo seu sofrimento. Doará o dinheiro à Comissão "Tortura Nunca Mais", que assiste psicologicamente às vítimas. Vinte mil reais, eis o preço para tanto sofrimento. A verdade, esta não tem preço. Somente ela devolve a dignidade ao Estado, ao qual o povo confiou a sua segurança.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC