09 de julho de 2026
Política

?HE escolhe doentes e engessa a saúde pública?

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 3 min

As críticas ao funcionamento de ‘portas fechadas’ do Hospital Estadual (HE) e da manipulação de vagas para internação pela Central de Vagas, controlada pelo Estado, ganharam força com o depoimento de Tereza Pfeifer, médica do Hospital de Base há 30 anos. Ela afirmou, em audiência pública realizada semana passada na Câmara Municipal, que o HE ‘escolhe’ pacientes.

 

Pfeifer afirmou que o Base é tratado como o ‘primo pobre’, que recebe toda a demanda de serviços que não é acolhida pelos outros hospitais. Segundo a médica, é muito fácil trabalhar com portas fechadas e pinças para escolher o que vai ou não receber. “Pé diabético podre, não. Dá trabalho, fica um mês internado, vai para amputação, dá influência renal e falência múltipla dos órgãos”, disse ela, em dura crítica ao HE.

 

Tereza disse ainda que o Estadual prefere se dedicar à realização de mutirões, que consistem em cirurgias ‘limpas’, que dificilmente geram complicações e liberam os pacientes um dia depois. “E se complica, encaminham para o Pronto-Socorro ou para o Base. Não dá para falar em responsabilidade em saúde pública, com uma baita barreira de acesso. Os pacientes não conseguem passar por aquela roleta”, afirmou.

 

As críticas de Pfeifer também foram direcionadas à Central de Vagas, sugerindo a manipulação, inclusive de cunho político na distribuição e na divisão de responsabilidade entre os hospitais. Segundo a médica, o acordo pactuado no município para o encaminhamento de pacientes não é respeitado. “Quero saber que tem ‘saco roxo’ de dizer: esse paciente vai entrar no Estadual porque ele atende tal referência”, questionou.

 

Tereza afirmou, inclusive, que pacientes da região, não atendidos no HE, são levados para o Base, reduzindo a capacidade para a demanda municipal. “Recebemos pessoas de Promissão, Reginópolis e até de Marília. Gostaria de perguntar porque Central de Vagas não obedece referência acordada”, colocou.

 

Além disso, a médica pontuou que a Central de Vagas não tem ouvidos para as dificuldades operacionais enfrentadas pelo HB, em razão da falta de leitos, instrumentos e funcionários disponíveis. “Parecem ter um gostinho especial em colocar pacientes no Base, independentemente das condições. A gente tem que, simplesmente, receber esses pacientes”, pontuou, dizendo ainda que o hospital é tratado como a ‘casa da Mãe Joana’. Ela criticou também o distanciamento do controle de vagas, feito por São Paulo, através de telefone.

 

Diante de um cenário tão crítico no HB, a médica ressalta que, quando algum problema mais grave acontecer, os funcionários, que sempre se comprometeram com o atendimento incondicional à população, vão ter que se responsabilizar do ponto de vista ético, cível e criminal. No entanto, fez questão de enfatizar que, mesmo diante de tantos problemas, o Base ainda tem se destacado, como, por exemplo, na captação de órgãos para doação. “Além disso, todo o atendimento de urgência e emergência é concentrado aqui”, afirmou.

 

O Ambulatório Médico de Especialidades (AME) também foi alvo de críticas. “O que adianta um equipamento que, às 17h, fecha as portas e não tem compromisso com ninguém?”.

 

 

 

Responsabilidades

 

Tereza Pfeifer comentou ainda sobre os casos de desvios no Hospital de Base, dizendo que denúncias foram relatadas por uma comissão ainda em 1995. Ela mesma disse ter participado de uma das apurações. “O relatório foi entregue à Secretaria do Estado de Saúde. Ninguém poderia dizer que não sabia que aconteciam desvios de dinheiro, que aparelhos quebrados vinham como novos, superfaturados”, pontuou.