09 de julho de 2026
Articulistas

O fenômeno Andre Rieu

Maestro Alexei Lisounenko
| Tempo de leitura: 4 min

Amado por uns, invejado por outros, o auto-intitulado "popstar da música clássica", o holandês André Rieu, finalmente chega ao Brasil. Na bagagem, traz sua experiência de mais de 30 anos de trabalho. Todo o seu sucesso internacional vem de uma simples receita: unir arranjos de música clássica com a irreverência dos shows populares. Ele costuma dizer: "Meus concertos são para todo mundo e não unicamente para os eruditos, aliás, nem sei o que é isso. O importante é você deixar falar seu coração". Em São Paulo, seriam 3 apresentações, mas devido à grande procura serão 18 entre o fim de maio e a primeira semana de julho, e o artista já diz que fará uma homenagem especial ao Brasil interpretando uma canção brasileira.

A orquestra (Johann-Strauss-Orchestra) é um show à parte, pois, tão importante quanto o próprio André, estes músicos talentosos e extrovertidos chegam ao ponto de comer bifes e tomar cerveja durante o espetáculo. Numa apresentação em Berlin, a farra era tanta que os músicos pulavam e dançavam com os trompetes e tubas enfiados na cabeça. Fatos que provocam o público e tornam o show muito divertido levando a plateia a interagir com o músico e até a dançar. É comum muitos chorarem durante as performances, como num clima de plena nostalgia.

Rieu costuma interagir com o público fazendo comentários sátiros: "Música clássica é coisa séria! Vamos agora tocar a Nona Sinfonia de Beethoven. Inteirinha!". E o público delira.

A chegada de Andre Rieu ao Brasil gerou muitas críticas no mundo erudito, inclusive artigos chamando o de "falsificador", "picareta", "usurpador" da música, entre outros adjetivos. Matérias duras tentando atingir um homem hoje inatingível. Por que inatingível? Quem dará ouvidos a críticos eruditos que expõem suas opiniões de forma tão pessoal e ainda zombam dos ouvintes? Na verdade, estas críticas que deveriam orientar musicalmente o leitor só servem para afastar os possíveis apreciadores de música erudita e a tornam ainda mais distante do mundo de um público que ainda não sabe que gosta dela.

Mas por que atacam tão forte? De fato, Rieu não é um virtuose do violino, até hoje não ouvi nenhum arranjo original de um compositor erudito. Pelo que vejo, esses ataques se devem a ele se intitular proclamador da música erudita e a seus arranjos de baixa qualidade técnica musical apagar o brilho conseguido por seus compositores em versões originais. Mas como um homem que musicalmente não é excepcional faz tanto sucesso com a música? Primeiro, sua orquestra conta com excelentes músicos europeus. Segundo, a música é o pano de fundo para um grande show visual. Terceiro, Rieu consegue cativar e tornar o seu show um momento único para o público que vibra, grita, aplaude, chora e até dança.

Quem vai assistir a estes shows não está em busca de uma música de concerto, não quer ouvir a Nona Sinfonia inteira, quer apenas a melodia, quer algo leve, quer um Beethoven menos sério, um Bach mais romântico, um Joahann Strauss mais simpático e sedutor. O público quer festa, graça, interagir com a orquestra que normalmente seria séria e com seu regente que, com seu olhar, convida o público a subir ao palco e viver o mundo de encantos. Lembra muito quando Walt Disney se juntou a Leonard Bernstein criaram o desenho musicado "Fantasia", só que neste caso com composições originais dos compositores eruditos.

Aos "eruditos", estudantes e críticos deixo um conselho. Se vocês continuarem vivendo em seus pequenos ciclos fechados e não acordarem que é necessário sair do pedestal por vocês criados e se envolverem com o público de uma forma clara e didática, distribuir seu conhecimento de forma generosa e educada, a vocês só restará ficar criticando alguém que faz muito sucesso porque soube levar o pouco que aprendeu a este público que é carente deste som. Já a célebre pianista Guiomar Novaes disse que "o artista precisa descer do palco para aproximar a arte do público". Você, ouvinte de Andre Rieu, não seja passivo, anote o nome das músicas que ouviu e gostou, procure a história delas na internet, as gravações originais, aumente o seu conhecimento e verá que existe um mundo maravilhoso a ser desvendado, pois mesmo que ele só toque o tema de alguma música erudita, colabora em muito para a popularização da mesma.


O autor, Maestro Alexei Lisounenko, é colaborador de Opinião