“Não brincamos de fazer Saúde”. Com essa frase, a diretora da Divisão Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira, iniciou sua entrevista ao Jornal da Cidade, onde rebateu as denúncias da médica Tereza Pfeifer, do setor de Hemodiálise do Hospital de Base (HB). Em audiência pública realizada na Câmara Municipal, na semana passada, Pfeifer afirmou que o Hospital Estadual (HE) ‘escolhe’ pacientes e pontuou episódios de manipulação da Central de Regulação de Vagas, vinculada à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
Doroti garantiu que o trabalho da central não tem interferências políticas nem diferenciação entre encaminhamentos ao HB e ao HE, como pontuou Pfeifer, que dirigira críticas também ao não cumprimento da pactuação de referências. “Isso é uma inverdade. Quem talvez não cumpra a referência é o Base, que, por conta da crise, perdeu 50% de sua capacidade operacional”.
Em seu depoimento na audiência pública, a médica dissera que casos de pés diabéticos, que demandam longo tempo e alta complexidade no atendimento, são rejeitados pelo HE. “De fato, os casos da especialidade vascular são encaminhados para o Base, que responde por essa referência. Foi dito também que o Estadual prefere fazer mutirões, mas eles não são feitos desde 2010, pois a crise do Base os inviabilizou”, afirma Doroti.
A diretora da DRS-6 diz também ser impossível que a Central de Vagas trate de forma diferenciada as recusas de pacientes do HB e do HE. “O Base não tem condições de receber os pacientes negados pelo Estadual. Eu sei porque eu participo disso e, muitas vezes, quando o Estadual alegou não haver vagas, nós, ainda assim, mandamos internar, mesmo que em uma sala de emergência”, garantiu.
Doroti recorreu a números na tentativa de comprovar o que alegava. Segundo a diretora, prova de que o Base não recebe pacientes que deveriam ser atendidos pelo Estadual é o fato de o HB ter apenas de sua estrutura ocupada, enquanto o HE atinge níveis de 98%. “O Estadual está de portas abertas”, enfatizou.
Na semana passada, o JC mostrou que, pela primeira vez, em 2011, o HE superou o HB em número de internações. No entanto, a tese dos críticos de que o hospital tem ‘portas fechadas’ ganha ênfase com outro dado apresentado na audiência pública de que o tempo de espera no Pronto-Socorro Central (PSC) tem aumentado desde a crise do Base.
‘Vaga zero’
De acordo com Doroti, os relatos de encaminhamento de pacientes ao Base, mesmo sem estrutura material e humana para os atendimentos, podem ter sido motivados por situações de ‘vaga zero’ no próprio setor de Hemodiálise, no qual atua Tereza Pfeifer. “São casos em que, mesmo sem leitos, nós mandamos o hospital receber o paciente. Acontece por conta de alguns que, em razão da gravidade, não podem ser transportados por longas distâncias”, explicou.
A diretora pontuou, porém, que o procedimento é autorizado pelo Conselho Regional de Medicina. Doroti, adiantou também que, em até dois meses, será inaugurado um setor de Hemodiálise com 140 vagas em Promissão, que deverá desafogar o atendimento da especialidade na região.
On line
Outro ponto colocado pela médica Tereza Pfeifer e rebatido por Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira foi sobre o atendimento da Central Reguladora de Vagas. “Há muitos anos, o sistema é on line e não mais por telefone. O contato é feito de médico para médico, a partir da solicitação pela vaga do profissional que está de plantão. Os encaminhamentos são feitos a partir do mapa de referências”, explicou.
“Hospitais não são municipais”
Em seu depoimento na audiência pública, Tereza Pfeifer criticou ainda o fato de o Hospital de Base receber pacientes de cidades como Marília, que seriam negligenciados pelo Hospital Estadual. Nesse sentido, Doroti ressaltou que a Central de Vagas é estadual e o intercâmbio de pacientes existe também no sentido inverso. “Quando encaminhados para Bauru, o hospital que vai recebê-los é escolhido a partir da referência”, reforçou.
Ela disse também que o atendimento a pacientes de outras cidades da região no HB não pode ser alvo de críticas. “Ele não é um hospital municipal. Não temos um deste na cidade. Mesmo assim, quando o Base tinha melhores condições de operação, 76% de seus pacientes eram da cidade de Bauru”, afirmou.
Reação
O vereador Marcelo Borges (PSDB) reagiu aos discursos na Câmara Municipal estimulados pelas denúncias de Tereza Pfiefer, lembrando que a médica foi secretária municipal de Saúde na gestão Tuga Angerami. “Ela foi exonerada porque não deu conta do trabalho”, atacou.
Além disso, o tucano afirmou que os mais críticos do assunto não apresentam soluções para que o município assuma parte da gestão hospitalar de Bauru. “A administração não tem um hospital para receber algumas demandas”, pontuou.
Borges sempre foi crítico ao monopólio de gestão hospitalar pela Famesp em Bauru, chegando a defender que hospitais como o Base fossem assumidos pela Fundação Regional de Saúde, que aguarda sua regulamentação mediante avaliação de seu estatuto pela Câmara de Bauru.
O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, respondeu que, para isso, seria necessária uma repactuação dos serviços de Saúde em Bauru. No entanto, enfatizou que o município não tem como assumir o passivo do Hospital de Base.
Consultado pelo Jornal da Cidade, o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) afirmou que poderá intermediar uma audiência, em São Paulo, entre os vereadores de Bauru e o secretário estadual de Saúde, Giovanni Guido Cerri. Isso porque as comissões de Saúde e Direitos Humanos da Câmara, junto a outras entidades, enviaram ofício ao parlamentar solicitando a vinda do secretário a Bauru para discutir o assunto.