09 de julho de 2026
Articulistas

As cidades e seus insolúveis problemas

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Estão se formando as chapas de candidatos a prefeitos e vereadores e cada um vai anotando os problemas da sua cidade. Embora venham a ser eleitos para governar o município, todos olham a cidade, que é parte do município, porque é na cidade que mora a maior parte da população e onde se concentram os principais problemas. Muitos são idealistas e imaginam que poderão contribuir para a solução. Alguns até exageram no imaginário. Outros sonham com poder, com melhorar a própria vida. O fato é que, bem intencionados ou não, todos prometem resolver os problemas. A magia da eleição, de poder votar em quem quiser, faz do período eleitoral uma espécie de hipnose e a população esquece que os seus escolhidos na eleição passada não fizeram quase nada do que prometeram ou até fizeram o que não deveriam fazer, mas se enche de esperança e novamente vota pensando acertar. Assim é a democracia, alternando esperanças e decepções.

Será que os problemas das cidades poderão ser solucionados? Será que aquela promessa, que praticamente todos gostam de fazer, de que procurarão tornar a cidade um lugar melhor para se viver, virará realidade? Um exame objetivo de tudo o que tem sido feito para melhorar as cidades mostra que, nem bem um problema foi resolvido, outros já surgiram. Os problemas das cidades são como a Hidra de Lerna, da mitologia grega. Era um monstro de nove cabeças, que ao ter uma cabeça cortada nasciam duas outras naquele lugar. Foi derrotada por Hércules. Esse monstro emitia um bafo que matava as pessoas que dele se aproximavam. Isso lembra o lixo e o esgoto a céu aberto. Nas cidades primitivas e até época não muito remota, o lixo era pouco e predominantemente orgânico e descartado no próprio quintal ou em terrenos baldios. Os dejetos iam para as fossas, também no quintal. Com o crescimento das cidades e as mudanças nos hábitos, o lixo foi se tornando um problema cada vez maior. Com carrocinhas e depois com caminhões passou-se à coleta domiciliar e depósito fora do centro urbano. Em Bauru o primeiro depósito de lixo foi no buracão do Córrego das Flores, região onde hoje fica o Senac. O incômodo fez com que fosse para lugar mais distante. Transformou-se em lixão e com as exigências de saneamento, em aterro sanitário, que se esgota com o tempo e novo aterro deve ser feito. A água, colhida em minas e poços de sarilho, foi canalizada e com ela o esgoto, que foi despejado nos rios. Novo problema com a poluição dos rios e necessidade de tratamento do esgoto. Agora temos o lixo tecnológico e, em alguns lugares, o lixo radiativo. Seria o fim da linha?

Outro dos problemas de maior responsabilidade das cidades, para ficar apenas em dois, é o do trânsito. Cidades antigas, ruas estreitas, calçadas de pedra, serviam para a circulação de pedestres, liteiras transportadas por escravos ou pequenos veículos de tração animal. Vieram as carruagens tracionadas por uma ou duas parelhas de cavalos e depois os automóveis, os ônibus e os caminhões. As ruas tiveram que ser alargadas, avenidas foram abertas, viadutos foram construídos, túneis foram perfurados, trens urbanos e metrôs ajudaram a formar o emaranhado da rede viária, numa sucessão infindável de problemas. Aqui em Bauru, no início da década de 1950 a Rua Batista de Carvalho tinha duas mãos, até os ônibus do Expresso de Prata, que faziam a linha de Botucatu, trafegavam por ela. O trânsito foi proibido, virou calçadão, como em outras cidades. A tranquila Avenida Rodrigues Alves tornou-se corredor de ônibus urbanos e trânsito intenso de veículos. As avenidas Duque de Caxias, Getúlio Vargas e Comendador José da Silva Martha já ficam congestionadas nas horas de pico.

As cidades e os problemas continuarão crescendo. A solução definitiva jamais será encontrada, porque os recursos financeiros arrecadados pelos tributos, cada vez maiores, são insuficientes para atender a crescente demanda e porque a má utilização e os desvios fraudulentos roubam-lhe grande parte. Que os candidatos considerem também os problemas de crescimento da infraestrutura urbana, saúde, educação, segurança etc. e formulem planos que não venham a envergonhá-los no fim do mandato.

O autor, Pedro Grava Zanotelli é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras