Uma infestação de animais peçonhentos tem tirado o sossego dos moradores da rua Pedro Salvador, no bairro Mary Dota, em Bauru. Em menos de dois meses, um morador afirma ter encontrado sete escorpiões do tipo amarelo dentro de sua própria casa, outra vizinha relata ter matado duas cobras, além de várias aranhas, escorpiões e ratos. Para eles, o foco do problema estaria em um terreno em frente à rua.
Há quatro meses morando na quadra 3 da rua Pedro Salvador, o técnico em vendas Claudinei Antônio Santana, 43 anos, afirma estar assustado com a situação vivenciada em sua casa nos últimos dias. “É o sétimo escorpião amarelo que eu encontro. Já dedetizei tudo, mas não adianta. Eles continuam aparecendo e dessa vez foi no quarto da edícula”, conta Santana, que levou um susto na noite de anteontem ao tentar pegar um produto para lavar roupas e se deparar com o aracnídeo, que diferentemente da categoria dos pretos ou marrons, é um dos mais venenosos entre as espécies encontradas no país.
Além deste episódio, o técnico em vendas também relata ter encontrado há algumas semanas outros seis animais do mesmo tipo no banheiro e no quintal da casa, que fica a apenas alguns metros de distância da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do bairro. “Minha esposa está nervosa com essa situação e quer que nos mudemos daqui o quanto antes”, reforça o bauruense.
A mesma situação é narrada por Aparecida Alves Yamamoto, 64 anos, que, há 20 anos residindo na mesma rua, diz ter se acostumado a conviver diariamente com o medo e a preocupação dos ataques peçonhentos.
“Outro dia fui tomar banho e quase pisei em um escorpião amarelo. Também já encontrei um no quarto da casa. Não temos sossego, eles não têm hora para aparecer. Ratos e aranhas são coisas normais por aqui”, afirma Aparecida, que contou ter encontrado e matado com um rodo, há menos de cinco meses, três cobras em um dos cômodos e no quintal de sua casa.
Ritual do medo
Por conta dos ataques repentinos, Aparecida, que mora com a filha mas passa o dia todo sozinha, afirma manter uma espécie de ritual para não ser pega de surpresa por uma picada de aranha ou escorpião.
No quintal, os cinco cachorros ficam protegidos com uma espécie de tela que faz a divisão entre a casa e os cômodos do fundo. “Tenho medo que eles sejam picados. Umas das cobras estava neste armário”, aponta a mulher em direção a um pequeno armário de concreto com portas de plástico ao fundo da casa.
Antes de dormir e ao acordar, a moradora verifica se as portas e armários da casa estão fechados, chacoalha a roupa de cama e mantém os sapatos no alto dos armários para que não sirvam de abrigo aos escorpiões.
Já Claudinei diz ter doado sua cachorra, uma dálmata com apenas 4 meses, com medo de que o animal, que ficava no quintal da casa, fosse atacado. Outra medida adotada pelo morador é deixar a televisão ligada durante toda a noite para que o quarto onde ele e a esposa dormem não fique escuro e possibilite a identificação dos possíveis invasores.
“Não sei se eles vêm do esgoto. Eu não tenho nenhum tipo de entulho em casa. Acredito que o mato alto e lixo que a população joga no terreno da frente sejam os grandes problemas”, argumenta o técnico em vendas.
Segundo o morador, há algumas semanas o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) foi acionado e enviou técnicos ao local, que teriam afirmado ao morador que a situação seria resolvida após encontrarem o foco dos animais.
Escorpião amarelo
O escorpião amarelo é o tipo mais comum que habita a área urbana da cidade e também um dos mais venenosos, podendo levar a vítima à morte.
Crianças e animais são mais sensíveis aos sintomas de envenenamento.
Em média, um escorpião pode gerar de 6 a 90 filhotes a cada três meses. Folhas secas, cascas de árvore, entulho, madeira, fendas e tijolos são alguns dos itens que servem como abrigo para esses animais, que dentro de casa costumam se esconder em roupas, sapatos e armários. A barata é o principal alimento do escorpião.
Calçada imaginária
Na manhã de ontem, a equipe do JC esteve nas imediações da rua Pedro Salvador e encontrou funcionários da Empresa de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) que trabalhavam no local para podar o mato alto do terreno ao redor da via.
De acordo com informações da Prefeitura Municipal, seriam podados cerca de 3 metros de mato das margens do terreno, que seria transformada em uma espécie de ‘calçada imaginária’, nome dado pela própria prefeitura ao serviço.
Ainda segundo a nota oficial, por se tratar de uma área grande, a ‘calçada imaginária’ deve ser concluída até a próxima semana.
Mato e lixo propiciam ambiente para animais
A rua Pedro Salvador é composta por quatro quadras, sendo a terceira a maior em extensão com cerca de 200 metros. Do lado esquerdo - contrário às casas e à UPA -, um terreno com mato alto e mata nativa se prolonga ao final da via. Além do mato, entulho e lixo podem ser observados nas imediações.
Segundo os próprios moradores, a reclamação sobre a situação do terreno, que colaboraria para a infestação dos animais peçonhentos, não seria novidade. “Nunca vi ninguém limpar esse terreno. O pessoal só sabe jogar lixo”, comenta Aparecida.
Conforme informou a Vigilância Ambiental, o caso sobre o terreno, que é área particular, já foi registrado pelo órgão, que também informou que realizará nova vistoria para possível notificação do proprietário sobre a limpeza da área.
A Secretaria Municipal do Meio Ambiente orienta a população para que jogue entulho e galhos de árvores no Ecoponto do Mary Dota, localizado na rua Américo Finazzi, quadra 4, no Nobuji Nagasawa.
Denúncia
Sobre as situações que envolvam a poluição de terrenos vazios, a Semma também orienta para que a vizinhança fotografe a placa dos veículos ou pessoas que estejam depositando irregularmente entulho e lixo. As denúncias podem ser feitas pelo telefone 3235-1105.