Eles saíram de casa para ir a um restaurante, mas acabaram amarrados com fios elétricos e presos no porta-malas do veículo. Foi assim o “passeio” aterrorizante de um casal de jovens em Bauru. Eles foram vítimas de um sequestro-relâmpago que, sem deixar pistas e com ingredientes de mistério, preocupa a polícia (leia mais abaixo). O caso acende o alerta principalmente aos jovens, as “presas” preferidas deste tipo de crime que não era registrado há mais de um mês na cidade.
Na recente ocorrência, um casal de jovens, de 18 e 19 anos (a identidade de ambos foi preservada por motivos de segurança), saiu de casa na noite de anteontem para jantar em um restaurante na Vila Aviação. Por volta das 21h30, enquanto procuraram uma vaga para estacionar o veículo Gol na quadra 2 da rua Pedro Antônio Ruiz, foram abordados por quatro homens encapuzados.
De acordo com o registrado no boletim de ocorrência (BO), dois dos criminosos portavam armas de fogo e outro tinha uma faca em mãos. Rendidos, os jovens foram amarrados com fios elétricos, cadarços de tênis e também amordaçados com fita adesiva.
O casal foi colocado violentamente no porta-malas do veículo, que pertence à mãe da jovem. Em seguida, os bandidos tomaram o controle da direção e trafegaram cerca de trinta minutos.
Em determinado momento, porém, o bando parou o carro em um matagal e abriu o compartimento traseiro. É exatamente neste ponto que o mistério se amplia. De acordo com as vítimas, os assaltantes teriam perguntando se os jovens eram filhos de empresários e se algum deles tinha o sobrenome “Costa”.
Ainda segundo o BO, os criminosos teriam afirmado que “tinham recebido ordem para fazer o serviço”. Após as perguntas, saíram com o carro novamente e abandonaram as vítimas com as mãos amarradas para trás e deitadas no chão. Eles fugiram levando o veículo, o celular da jovem, cartões bancários e R$ 27,00 em dinheiro.
A garota relatou à equipe do JC que conseguiu se desvencilhar das amarras e, logo após, desamarrou o namorado. “Andamos um pouco e conseguimos pedir ajuda no IPMet (Instituto de Pesquisas Meteorológicas) da Unesp”, disse. Com escoriações leves nas mãos e na boca - onde os bandidos usaram os fios elétricos e cadarços -, o casal foi resgatado.
A Polícia Civil, por meio do 3.º Distrito Policial (DP), conseguiu, na manhã de ontem, recuperar o carro. O automóvel estava abandonado na quadra 3 da rua Aviador Antônio Gomes Meireles. O local não é muito distante de onde as vítimas foram deixadas pelos assaltantes.
Alerta
Além do veículo recuperado, a família dos jovens comemorava ontem o fato de eles não terem sofrido nenhum ferimento mais grave nas mãos dos bandidos. Ambos passaram por exames no Instituto Médico Legal (IML) de Bauru. Para a polícia, o caso deve servir de alerta para os jovens, alvos frequentes dos sequestros-relâmpago.
“Os jovens se colocam mais em situações de vulnerabilidade. Eles transitam mais durante a noite e em locais ermos. E isto é muito perigoso”, aponta o major Flávio Jun Kitazume, subcomandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPMI).
Apesar de ressaltar que os sequestros-relâmpago ocorrem com baixa frequência em Bauru, Kitazume destaca que é preciso sempre estar alerta. E isto vale, principalmente, para as paradas em semáforos (veja no quadro ao lado), que, conforme apontam os casos, são os momentos “preferidos” dos criminosos para abordar as vítimas.
Preocupante
Apesar de não ser uma “modalidade” de crime cometida com tanta frequência em Bauru, o sequestro-relâmpago preocupa as polícias Civil e Militar. De acordo com as autoridades, o crime é de grande potencial ofensivo pelo perigo e transtorno oferecido às vítimas.
“Preocupa e muito. Temos que atuar de modo firme para descobrir e evitar que isto se torne frequente”, afirma o titular da DIG, Kleber Granja. No mês passado, duas quadrilhas suspeitas de praticar sequestros-relâmpago em Bauru foram desmanteladas pela polícia.
O major Flávio Jun Kitazume, subcomandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPMI), também reafirma a preocupação. “Como trabalhamos com prevenção, precisamos ficar atentos. É um crime que ocorre pouco, mas preocupa muito”, conclui.
Pouca idade, muito risco
Os casos demonstram como os jovens compõem o perfil de “presas” da criminalidade. Há pouco mais de um mês, um estudante de 23 anos quase foi vítima de um sequestro-relâmpago em Bauru. Este, inclusive, foi o último registro deste tipo de crime na cidade, conforme o Jornal da Cidade apurou extraoficialmente.
Ao sair de uma festa às margens da rodovia Marechal Rondon, o jovem foi abordado por três homens que queriam entrar no seu veículo, porém, conseguiu fugir. Na ocasião, dois dos assaltantes foram presos pela PM.
Outra vítima, também de 23 anos, não teve a mesma sorte em fevereiro. Ele, que é técnico de lavanderia e veio de Londrina (PR), estava há poucos minutos em Bauru, quando parou no semáforo na Nações Unidas e foi rendidos por um homem armado. Após meia hora em posse do assaltante, ele teve R$ 350,00 roubados.
Um caso envolvendo jovens que chocou a cidade ocorreu em abril do ano passado. Após duas garotas terem saído de uma lanchonete na avenida Getúlio Vargas com os respectivos namorados, os dois casais foram abordados por um trio armado.
Após roubarem dinheiro, relógios e aparelhos celulares das vítimas, o grupo foi levado até um matagal às margens da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), a Bauru-Marília, onde as duas meninas foram estupradas. Posteriormente, todos os suspeitos foram presos.
Polícia tenta montar ‘quebra-cabeça’ misterioso
O caso do sequestro-relâmpago anteontem está sendo apurado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) juntamente com o 3.º Distrito Policial (DP). Preocupada com a ocorrência, a polícia tenta encontrar qualquer pista para chegar aos suspeitos.
O titular da DIG, Kleber Granja, afirma que uma das teses é de crime encomendado, o que amplia a preocupação sobre o caso. “Pelo que eles falaram, pareciam saber quem eram as vítimas que queriam. Este é o fio de investigação que estamos seguindo”, ressalta.
Em relação ao sobrenome “Costa” - que não é de nenhuma das vítimas - citado durante o crime, o delegado afirma que é uma pista difícil de ser seguida. “Pode até ser que eles estavam atrás de outras pessoas e cometeram um engano. Mas este é um sobrenome muito comum”, completa.
O delegado do 3.º DP Fábio Mariotto revela que realmente não há quaisquer suspeitos até agora. Ele, porém, não descarta que a ação possa ter sido ocasional. “Estas coisas que eles falaram podem não ter qualquer relação. O crime pode ter sido cometido de maneira oportunista”, completa.
Ontem, o veículo das vítimas que foi localizado passou por perícia da Polícia Científica. Além de impressões digitais, foi encontrado um cigarro de maconha, que já foi apreendido.