08 de julho de 2026
Geral

Artesãos assumem dupla identidade

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 7 min

Uma vendedora, um eletricista de autos e um técnico em segurança do trabalho transformam o seu modo de vida igual a de qualquer outra pessoa em uma trajetória singular.  Vilma Morgado Rodeguero, Miharu Takenaka e Leandro Prado não se conhecem, vivem em regiões distintas em Bauru. Não frequentam o mesmo círculo de amizades. Têm profissões completamente distintas. Porém a paixão pelo artesanato reinventa o cotidiano de cada um deles. Da arte que produzem espalham obras pelo mundo e também por Bauru e região. Dominam técnicas e usam materiais completamente diferentes uns dos outros. Trabalham a leveza em suas obras de arte e conseguem instigar outras pessoas com sua maneira de reapresentar a realidade. 

 

Ganhar dinheiro com artesanato é um luxo para os três. Já veio o reconhecimento de clientes arrebatados pelo modo como cada impõe a realidade a seus trabalhos. Até mesmo os locais que expõem suas peças não são nada comuns.

 

Na entrada da oficina autoelétrica do seo Takenaka uma águia de madeira recepciona os clientes. O movimento de veículos indo e vindo na quadra nove da rua Marcondes Salgado contrasta com o interior da oficina repleta de peças expostas no alto da parede. No fundo da autoelétrica, há um local ao ar livre onde seo Takenaka modifica ou retoca raízes de madeira que adquirem formas de aves, répteis, serpentes e mamíferos. A primeira ave que esculpiu sugere um pelicano e a peça ganhou a denominação de “O pássaro sujo de óleo”, guardada como relíquia em sua coleção particular. A madeira que modifica é desenterrada da natureza, na zona rural.  Da peça retirada do subsolo, Takenaka já vislumbra uma forma acabada e não propõe profundas modificações. Ao lado da águia, há um tubarão que ganhou uma barbatana implantada pelo artesão. 

 

Em 12 anos de produção, seo Takenaka, atualmente com 70 anos, perdeu a conta do quanto já produziu. Alguma coisa vendeu e obteve retorno de custos. Outras transformou em recursos para entidades de Bauru, com exposições no Bauru Shopping. Também expôs na sede do Clube Nipo Brasileiro. O Nipo tem peças doadas pelo artesão. Ele comenta que muitas viraram presentes para amigos no Japão. 

 

Algumas peças são trabalhadas de tal forma que se transformam em cachepó para abrigar vasos de ikebana, a arte japonesa de arranjos florais. O ikebana é produzido por sua esposa, Kikue. 

 

Takenaka também escupe a madeira produzindo pequenos elefantes, rinocerontes. Algumas peças são miniaturas. Ele explica que o urso comendo salmão retrata uma imagem comum no Japão e na Austrália. A madeira adquire forma com o uso do formão, martelo e acabamento com verniz incolor. “Se eu continuasse fazendo, ia ver cada coisa bonita”, define Takenaka.

 

A oficina autoelétrica, no momento, é tocada por ele e o filho mais velho Kenji, que herdou a paixão pela parte elétrica de autos trabalhando com o pai e com o tio Jorge, irmão de Takenaka e sócio na oficina. Takenaka teve que diminuir seu ritmo de produção no artesanato por alguns fatores que foram exigindo maior atenção dele no dia a dia. Jorge está afastado para um tratamento médico. Outro fator complicador para seo Takenaka foi que, tamanha dedicação para esculpir a madeira fez com que adquirisse um problema na mão direita, a principal para manipular as ferramentas que consertam a parte elétrica dos carros dos clientes da oficina, os mesmos que se impressionam com suas obras expostas. Diante da limitação na mão direita, o artesão diminuiu a intensidade de sua produção.

 

A vivacidade do seo Takenaka volta-se, também, para um jardim de vasos na parte ao ar livre no fundo da autoelétrica. A filha Reimi pediu para que salvasse um coqueiro. O pai passou a cuidar da planta na oficina e a recuperou. “Eu passo o tempo aqui pela manhã. Cuidando e colocando água”, explica. O jardim de seo Takenaka tem uma característica particular. “Gosto de plantar em vaso”, define. O pé de jabuticaba está próximo de frutificar. A goiabeira deu 15 goiabinhas. “Vermelhas e gostosas. Logo, logo, começa a dar de novo”, comemora. Tem também um pé de romã.  “Planta tem que saber o ambiente onde fica”, ensina o eletricista de autos.

 

Seo Takenaka nasceu em Getulina e mudou-se para Marília. Veio para Bauru com 10 anos. O pai criou a autoelétrica, instalada na rua Marcondes Salgado há 60 anos. Takenaka trabalhou como funileiro industrial. Posteriormente, se especializou como eletricista de autos e passou a trabalhar com o pai e o irmão.

 

 

Os interessados em conhecer o trabalho dos artesãos podem contatá-los pelos telefones: Vilma Morgado Rodeguero (14) 9769-2198; Miharu Takenaka (14) 3222-6316; e Leandro Prado (14) 9654-2065.

 

 

 

Pedras são o caminho

 

A artesã bauruense Vilma Morgado Rodeguero pinta desde criança. Um dia sua sogra trouxe uma pedra do sítio e pediu para que fizesse uma pintura. Passados 25 anos, Vilma não largou mais das pedras. Antigamente buscava em Arealva. Atualmente, clientes trazem a matéria prima. Também desenvolve a técnica em madeira e que transforma em peças utilitárias, como porta-chaves. Suas pedras já foram para Orlando, nos Estados Unidos, Japão e Itália. Ela conta que muita gente de Bauru e região também adquire suas pedras expostas na Feira Ubá, espaço itinerante de mostras dos artesãos bauruenses e da região.

 

A imagem da Maria-Fumaça é a que mais atrai interessados. Paisagens e bichos também ganham vida nas telas de pedra pintadas por Vilma. A artesã bauruense conta que nunca frequentou um curso de pintura. Ela relembra que recebeu uma encomenda de uma senhora de São Paulo que trouxe uma foto de uma cachorrinha de estimação e que havia morrido para que a artesã bauruense pintasse em uma pedra. Vilma procurou a pedra de formato ideal para reproduzir a imagem do animal de estimação. “Ficou perfeita”, orgulha-se. Outra encomenda veio de um senhor que tem um rancho no Mato Grosso, onde pescava. A artesã conta que ele trouxe uma foto da paisagem, com casa, a montanha e outros elementos. Ela pintou várias pedras para o cliente e também porta-chaves, que ele deu para os amigos que visitavam seu rancho para pescar.

 

Vilma trabalha há três anos como vendedora em um depósito de materiais de construção. “Às vezes, tenho tempo mas não tenho vontade”, comenta a artesã. Sua produção exige paciência, delicadeza, tranquilidade, concentração, circunstâncias que só encontra à noite e nos momentos de folga de final de semana. “Eu adoro fazer isso”, completa. Ela participa do circuito da Feira Ubá. Vilma conta que no primeiro sábado do mês, o pessoal expõe na praça Cruzeiro do Sul, no final da avenida Duque de Caxias.

 

 

 

Arte de tirar o excesso 

 

Leandro Prado esculpe a forma do infinito em uma peça de cedro. A madeira exala um aroma que fascina o escultor. Seu ateliê fica na varanda de entrada de uma residência, em uma rua sem saída na Vila Souto. Para chegar ao canto do artesão se segue até o meio da quadra 7 da rua Olegário Machado, onde a rua sem saída se prolonga à esquerda.

 

Leandro define que o artesão tem que tirar o excesso de cada peça. “A madeira é viva e você deixa a forma”, define. Uma máscara africana, produzida há sete anos, permanece com o artesão. Pendurada na varanda de entrada do imóvel, a peça sugere também como ele produzia. Uma das suas peças mais elaboradas foi uma encomenda da face de um Buda, recebida há cerca de um ano. O Buda são muitos e de diversas culturas. O de Leandro transmite uma tranquilidade milenar envolta em um sorriso discreto de Mona Lisa (ou a La Gioconda), o famoso quadro produzido pelo italiano Leonardo da Vinci.

 

Em casa mantém algumas peças como “A Família”, que retrata pai, mãe com uma criança nos braços. Para chegar na proposta de “A Família”, o escultor produziu um dorso de mulher em tamanho menor esculpido no cedro com canivete. Em outro dorso resgatou um pedaço de madeira de uma caçamba. Sua produção passa por fases nos últimos 10 anos que consolidam uma técnica. A madeira também impõe limite respeitado pelo escultor. No momento, Leandro não tem um acervo com tema para expor. 

 

Nascido em Osasco, logo Leandro mudou-se para Embu das Artes, um centro artístico de grande influência na produção artesanal do Brasil. Em sua infância em Embu, foi vizinho de muitos escultores como Jaldo Jones. Ele veio a Bauru pela primeira vez em 2002. Em 2007, retornou à cidade e, depois de uma temporada em São Paulo, voltou a residir em Bauru no ano passado.