Brasília - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou ontem ter tentado pressionar o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), a adiar o julgamento do processo do mensalão.
Em nota, ele se disse indignado com o ministro e afirmou que o seu relato sobre a conversa que os dois mantiveram em abril, no escritório do ex-ministro Nelson Jobim em Brasília, é “inverídico”.
Segundo reportagem publicada no sábado pela revista “Veja”, Lula teria dito a Mendes que seria “inconveniente” julgar o caso antes das eleições de outubro.
Em troca, ele teria oferecido proteção ao ministro na CPI do Cachoeira, que poderia vir a investigar suas relações com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO).
A assessoria de Lula contestou o relato do ministro: “A reunião existiu, mas a versão da ‘Veja’ sobre o teor da conversa é inverídica.”
A nota diz que ele “jamais interferiu ou tentou interferir nas decisões do Supremo ou da Procuradoria-Geral da República em relação à ação penal do chamado mensalão.”
“Meu sentimento é de indignação”, afirma o ex-presidente sobre o episódio. “Eu indiquei oito ministros do Supremo e nenhum deles pode registrar qualquer pressão ou injunção minha em favor de quem quer que seja.”
O petista quebrou o silêncio no início da noite de ontem, cerca de duas horas depois de o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, fazer uma cobrança pública por explicações sobre o episódio.
“O diálogo foi protagonizado por três agentes, três pessoas. Dois desses agentes já falaram. Dois já explicitaram sua interpretação dos fatos. Falta o terceiro. Aguardemos a fala do terceiro. Ouçamos o terceiro”, disse Britto.
Jobim já havia contestado o relato do ministro. Ontem, ao jornal “Zero Hora”, manteve o desmentido. “Não houve nenhuma conversa nesse sentido”, disse. “Foi uma conversa institucional, não teve nada nesses termos que a ‘Veja’ está se referindo.”
Em seguida, Mendes reafirmou seu relato ao site do jornal e disse que Lula “entrava várias vezes no assunto da CPI”, indicando que acionaria congressistas aliados para blindá-lo. “Eu percebi que havia um tipo de insinuação”, disse o ministro.
Impeachment
O ministro mais antigo do STF, Celso de Mello, saiu em defesa de Mendes e disse que o diálogo narrado por ele era “inaceitável e indecoroso”. Ele afirmou que Lula poderia ser alvo de pedido de impeachment se estivesse no cargo.
“Se ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro”, disse ao site Consultor Jurídico.
Mendes reafirma conversa
Brasília - O ministro do STF (Supremo Tribunal de Federal) Gilmar Mendes reafirmou ontem que o ex-presidente Lula conversou com ele sobre um possível adiamento do julgamento do mensalão.
“O presidente disse da importância do julgamento do mensalão de que, se possível, não se julgasse esse ano, que não haveria objetividade. Eu objetei então que não me parecia possível adiar esse julgamento”, disse Mendes em entrevista à TV Globo.
O ministro afirma ter argumentado com Lula que o adiamento do julgamento significaria a não participação dos ministros Cesar Peluzo e Ayres Brito, que irão se aposentar neste ano.
Mendes ainda rebateu a negativa do ex-ministro Nelson Jobim, que confirmou o encontro de Lula e Mendes em seu escritório, mas negou o teor da conversa. “Claro que houve a conversa sobre o mensalão e o ministro Jobim sabe disso”, afirmou Mendes.
Segundo reportagem da revista “Veja”, Mendes relatou que, em encontro em abril, Lula propôs blindar qualquer investigação sobre ele na CPI que investiga as relações de Carlinhos Cachoeira com políticos e empresários. Em troca, o ministro apoiaria o adiamento do julgamento.
“Depreendi dessa conversa que ele estava inferindo que eu tinha algo a dever nessa conversa da CPMI”, disse o ministro do STF para a TV Globo. Ele ainda afirma que se sentiu perplexo com a situação.
Oposição vai pedir que procuradoria investigue Lula
Brasília - A suposta tentativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de pedir a ministros do Supremo Tribunal Federal o adiamento do julgamento do mensalão levou ontem a oposição a pedir que ele seja investigado criminalmente e atraiu críticas de Celso de Mello, ministro do tribunal.
A Procuradoria da República confirmou ontem ter recebido o pedido assinado por membros do PSDB, PPS e DEM. Eles afirmam que Lula pode ter praticado três crimes tipificados no Código Penal: tráfico de influência, corrupção ativa e coação no curso do processo judicial.
“Ficam evidentes as práticas desses três crimes”, disse o líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR).
O ministro Celso de Mello, por sua vez, disse que, se a conduta de Lula for confirmada, constituirá lamentável expressão de grave desconhecimento das instituições republicanas e de seu regular funcionamento no âmbito do Estado Democrático de Direito. “O episódio revela um comportamento eticamente censurável, politicamente atrevido e juridicamente ilegítimo”, afirmou.
Apesar disso, o presidente da CPI do Cachoeira, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), disse que não há motivos para solicitar explicações a Lula e Mendes: “São questões de ordem pessoal do ministro. Não cabe explicações à CPI”.
Líder do PT na Câmara critica ministro do STF Gilmar Mendes
Brasília - O líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (PT-SP), criticou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes no episódio envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Conhecendo o presidente Lula, ele jamais falaria algo nesse tom e com esse conteúdo”, afirmou. “Lula tem a confiança de 90% da população brasileira, então vou acreditar nele. Prefiro a versão de Lula”, enfatizou. Tatto afirmou não haver possibilidade de Lula ir à CPI explicar o episódio. “Por que ele iria se manifestar sobre o que não falou?”, questionou.
O líder petista também classificou a oposição de “barata tonta”, ao recorrer à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ex-presidente. O PSDB, o DEM e o PPS pediram à PGR que abra investigação contra Lula por corrupção ativa, tráfico de influência e coação no curso do processo (julgamento do mensalão). “Essa é a prova de que a oposição continua uma barata tonta, perdida, está sem rumo, sem projeto e sem discurso”, afirmou Tatto.
O líder do PSOL, deputado Chico Alencar (RJ), afirmou que a forma de esclarecer o episódio e afastar qualquer suposição de “troca de favores” é o Supremo agilizar o julgamento do mensalão. Além disso, Chico Alencar defendeu que a CPI apure a possível viagem de Mendes e o senador Demóstenes, como teria relatado o ex-presidente Lula, bancada por Cachoeira.