Brasília - Em depoimento que durou cerca de 5 horas, o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) rebateu ontem, ao Conselho de Ética do Senado, todas as acusações de que teria atuado em favor do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, ou de que teria participação em negócios do bicheiro.
No depoimento, que começou por volta das 10h e acabou às 15h30, o senador disse que enfrenta o “pior momento” da sua vida por ser vítima de uma “campanha sistemática orquestrada” para prejudicá-lo. O senador disse ainda que “redescobriu Deus” em meio às acusações.
Além do processo no Conselho de Ética, Demóstenes é também alvo de inquérito aberto pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que solicitou ainda a quebra do sigilo bancário do senador por suas ligações com Cachoeira, preso desde fevereiro acusado de comandar uma rede de jogos ilegais. Durante a sessão em que se defendeu das acusações, o senador usou páginas do inquérito que tramita no Supremo para dizer que não tem qualquer participação no esquema de jogos ilegais e que não foi alvo das investigações da Polícia Federal.
“Nunca sofri tanto na minha vida. Sou homem que tenho vergonha na cara. Fiquei um mês para entrar no Senado e ter coragem de olhar para os senadores. Ninguém pode usar o nome de Deus como estratégia de defesa. Eu sou um carola. Já era por conta da minha mãe, mas confesso que fiquei nesse tempo meio perdido.”
Traição
Em resposta a um questionamento do senador Humberto Costa (PT-PE), Demóstenes afirmou se sentir traído por Cachoeira, com quem admitiu relação de amizade.
“Sim (me senti traído), acho que todo mundo que se relacionou com ele e não teve conhecimento (de seus ilícitos). Todos nós ficamos na pior situação.”
Demóstenes admitiu ter recebido um rádio Nextel de presente de Cachoeira, mas negou que falava exclusivamente com o empresário. Ele considerou um “erro” ter recebido o presente. “Hoje é fácil verificar que foi um erro. Eu não imaginava a dimensão que isso teria, mas não tinha a lanterna na popa e não tinha como adivinhar que isso seria utilizado com outras finalidades. Mas não é crime receber o rádio Nextel e eu não sabia que outras pessoas tinham recebido.”
O senador confirmou que recebeu inúmeros pedidos de Cachoeira, inclusive para fazer lobby em favor do empresário no Congresso e no governo. Demóstenes confirmou que foi à Anvisa pedir em favor da empresa farmacêutica do empresário, mas disse que repetia essa conduta para várias empresas do Estado de Goiás.
CPI quebra sigilos da Delta, mas evita convocar governadores
Brasília - A bancada governista no Congresso, que tem maioria na CPI do Cachoeira, decidiu ontem ampliar a quebra do sigilo da empreiteira Delta, mas manteve na gaveta o pedido de convocação dos três governadores contra os quais há suspeita de ligação com a empresa ou com o grupo de Carlos Augusto Ramos.
A estratégia, avalizada pelo Palácio do Planalto, era usar a medida contra a Delta para tentar minimizar o desgaste do novo adiamento da investigação contra Marconi Perillo (PSDB-GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ). Inicialmente contrário a ampliar a investigação sobre a empreiteira, o PT, que tem três integrantes na comissão, votou ontem rachado.
O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi contra a aprovação do requerimento da oposição que irá permitir à CPI ter acesso a dados sigilosos nacionais da Delta de janeiro de 2003 até agora. O relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), votou a favor. O PMDB, que preside a CPI, tentou limitar a quebra do sigilo da Delta ao Centro-Oeste --área de atuação de Cachoeira--, o que já havia ocorrido, mas não conseguiu.
Para a Polícia Federal, a Delta foi um dos braços financeiros do suposto esquema ilegal comandado por Cachoeira. A empresa repassou, ao menos, R$ 40 milhões para firmas fantasmas que podem ter abastecidos campanhas. A assessoria da Delta disse que “qualquer investigação externa, realizada pelos órgãos públicos competentes, irá colaborar com o processo de forma a deixar claro procedimentos adotados na antiga gestão da empresa.”
Federação
Partiu do presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), a decisão de adiar novamente a votação de pedido de convocação dos três governadores. A justificativa é que ele irá consultar a assessoria jurídica da CPI para saber se governadores podem ser investigados ou mesmo convocados a depor.
O PMDB levantou a discussão ao considerar que isso feriria o “princípio federativo, a autonomia dos entes federados e a existência de prerrogativa de foro para governadores”. O relator da CPI já disse ontem que não vê razões para ouvir os governadores.
É de Cunha, entretanto, a iniciativa de votar hoje requerimentos que pedem a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do governador de Goiás. “O que há de evidência é depósito de gente da organização criminosa na conta dele”, justificou o relator. Perillo, segundo a PF, vendeu uma casa para um assessor de Cachoeira com dinheiro que pode ter vindo da Delta. O tucano nega.
Colegas avaliam que situação do senador é difícil
Brasília - Apesar da tentativa feita ontem por Demóstenes Torres (sem partido-GO) de desconstruir as suspeitas que sofre no Conselho de Ética do Senado, sua situação é considerada “complicada” por integrantes do colegiado.
“Para mim já é quebra de decoro um parlamentar ter despesas pagas por um agente privado”, disse o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) ao se referir sobre a revelação de Demóstenes, de que tinha suas contas de telefone Nextel pagas pelo empresário Carlinhos Cachoeira.
O relator no Conselho de Ética, Humberto Costa (PT-PE), disse que o fato constará do relatório, a ser apresentado nas próximas semanas.
“Sem dúvida, essa é uma questão que precisa ser muito bem