08 de julho de 2026
Regional

Repelentes tentam afastar pombos

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 5 min

Pirajuí – A direção da Penitenciária I “Dr. Walter Faria Pereira de Queiroz” em Pirajuí (58 quilômetros de Bauru) está colocando repelente em pontos estratégicos da unidade para afastar os pombos. A medida foi adotada depois que duas aves com uma espécie de “mochila” adaptada nas costas foram capturadas transportando aparelhos celulares para dentro da PI. O caso, divulgado com exclusividade pelo JC na última terça-feira , ganhou repercussão nacional.

 

Além de veículos de comunicação de grandes e médios centros urbanos, a notícia publicada em primeira mão pelo Jornal da Cidade ganhou espaço no Gizmodo, um dos mais respeitados sites de tecnologia do Brasil e do mundo. Criadores de pombos também entraram em contato com a redação para levantar algumas hipóteses sobre o local de origem das aves (leia boxe abaixo).

 

Em nota, a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) declarou que mantém uma política de “tolerância zero” com relação à entrada de objetos ilícitos como aparelhos celulares e entorpecentes em suas unidades prisionais. “A direção da PI de Pirajuí está atenta à questão e tomando providências para dispersar as aves, como a colocação de repelente em locais estratégicos, entre outras medidas”, revela.

 

Segundo o órgão, todas as 151 unidades prisionais do Estado estão equipadas com aparelhos de Raio-X e detectores de metal, além de contarem com vigilância constante de agentes de segurança. “As revistas periódicas dentro dos presídios, realizadas pelos Agentes de Segurança Penitenciária, com o apoio do Grupo de Intervenção Rápida (GIR), completam esse esforço no controle de entrada de objetos ilícitos nas unidades”, diz. 

 

 

 

‘Recheio’

 

A SAP confirma a apreensão de dois pombos na PI de Pirajuí, conforme levantado pelo JC, além de outras duas aves, que traziam em  “mochilas” invólucros recheados com sabão em barra. A Secretaria informou que, em todas as ocasiões, as aves foram apreendidas diretamente pelos agentes de segurança da unidade, antes de chegarem às mãos de qualquer reeducando. Nos dois últimos casos, o órgão acredita que os pombos estavam em fase de “treinamento”.

 

A declaração confirma, em tese, hipótese levantada pelo JC sobre a existência de um suposto “centro de treinamento” no município, criado por criminosos para “ensinar” a nova “tarefa” às aves.  Existe a suspeita de que uma chácara próxima à unidade esteja servindo de base para o ato criminoso já que, dificilmente, os pombos conseguiriam percorrer distâncias longas com tamanho peso nas costas.

 

 

 

Asas à investigação

 

O delegado titular de Pirajuí, César Ricardo do Nascimento, confirmou que foram instaurados dois inquéritos para apurar eventual crime. O responsável pelo envio dos celulares, se identificado, pode ser condenado a pena que varia de três meses a um ano de prisão. 

 

No caso do envio de drogas, o autor reponderá por tráfico de entorpecentes, crime cuja pena varia de 5 a 15 anos de prisão, aumentada de um sexto a dois terços por ocorrer dentro de estabelecimento prisional. “A Polícia Civil, quanto aos celulares, inicia investigação por meio da análise da agenda do aparelho de telefone, ligações efetuadas e recebidas, mensagens efetuadas e recebidas”, explica. 

 

“Nós também adotamos a solicitação ao Poder Judiciário de quebra de sigilo dos dados cadastrais de quem é titular da linha”.

 

Além da apuração criminal, segundo a SAP, os presos surpreendidos com drogas ou celulares sofrem sanções disciplinares e perdem benefícios conquistados durante o cumprimento da pena. 

 

 

 

‘Gaiolas’

 

As penalidades administrativas variam de advertência verbal a repreensão, suspensão ou restrição de direitos, isolamento na própria cela ou em local adequado.

 

E ainda: até inclusão no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que deve ser cumprido em presídios de segurança máxima. 

 

 

 

Pombo-correio e pombo comum

 

O criador de pombos-correio Diego Torres de Camargo, que mora em Pirajuí, ressalta que as aves da espécie não devem ser confundidas com os pombos comuns, que foram os encontrados no interior da Penitenciária I da cidade. 

 

Segundo ele, os pombos-correio, muito utilizados durante as 1ª e 2ª Guerras Mundiais, não levam nada de um lugar para outro. 

 

“Eles só voltam para o lugar de origem”, revela, chegando a voar até 800 quilômetros por dia. 

 

“Desde quando ele é filhote, tem todo um processo de adução [habituação ao espaço], para você treinar o pombo. E isso não tem como um preso fazer sem ninguém perceber”. 

 

Além disso, Diego Camargo aponta diferenças na plumagem, bico e comprimento das asas.

 

 

 

Tratamento

 

O criador defende duas hipóteses para a origem dos pombos que foram capturados na P1. 

Uma delas é a de que pessoas estejam retirando as aves de dentro da unidade nos horários de visita e colocando nelas bolsas adaptadas com os celulares. 

 

“Os presos começam a tratar delas lá dentro e elas vão ficando muito mansas”, diz. “E retornam atrás de comida”.

 

A segunda hipótese é a de que os pombos estejam sendo alimentados, ao mesmo tempo, em locais próximos e na unidade prisional. 

 

“Quando ele está bem acostumado, a pessoa de fora captura o pombo, coloca o celular nele e corta a alimentação dele”, diz. “Aí o pombo vai voltar para se alimentar dentro da cadeia”.

 

A apuração policial continua sendo realizada para elucidar as dúvidas sobre o caso.

 

 

 

Relembre o caso

 

Os pombos com as “mochilas” improvisadas nas costas, onde são armazenados aparelhos celulares e drogas, passaram a ser avistados nas imediações da Penitenciária I de Pirajuí no início deste mês. 

 

O JC apurou a ocorrência de pelo menos sete casos do tipo. A Polícia Civil, porém, confirma a instauração de apenas dois inquéritos para investigar eventual crime.

 

A primeira ave teria sido apreendida há cerca de três semanas. O pombo chocou-se contra o vidro da janela de uma das celas do pavilhão três – provavelmente por não suportar o peso de sua bagagem – e acabou morrendo. Na “mochila” que ele trazia no dorso, foram encontrados um aparelho celular com bateria e chip. 

 

 

 

Alambrado

 

Já o segundo caso oficial ocorreu há cerca de uma semana, quando funcionários da unidade capturaram um pombo vivo, próximo ao alambrado da PI, com um celular e bateria nas costas. O JC apurou, contudo, que a visualização de pombos voando com dificuldade nas imediações da unidade prisional chega a ser quase diária.  Em algumas situações, funcionários de plantão tentaram atrair as aves para verificar o que elas transportavam nas costas, mas sem sucesso. Ainda não se sabe quem seria responsável por enviar os produtos ilícitos aos presos da PI e nem quem seria o destinatário. 

 

O fato é que os pombos têm acesso livre à PI, onde encontram comida e ambiente propício para fazer o seu ninho. Além disso, dificilmente despertariam desconfiança de agentes, já quer fazem parte do universo da unidade.