08 de julho de 2026
Geral

Poupança ainda é bom investimento

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

A partir de hoje, a caderneta de poupança passará a render menos, mas quem tem o hábito de guardar seu dinheiro neste tipo de investimento não deve se desesperar. Apesar da perda, a poupança continuará sendo a aplicação mais adequada para os pequenos investidores, conforme garante o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Manuel Enriquez Garcia, autor de livro de economia mais vendido no país que esteve ontem em Bauru para reinaugurar a delegacia do Conselho Regional de Economia (Corecon) da cidade (leia abaixo).

Para ele, arriscar-se em opções como os fundos de renda fixa, por exemplo, pode gerar perdas para quem não possui muitas reservas para investir. Mesmo porque, segundo o especialista, quase todas as demais aplicações também tiveram queda na rentabilidade nos últimos meses. 

“Aplicar em fundo de renda fixa, por exemplo, não é vantagem porque a taxa de administração cobrada é muito alta para quem investe pouco. A pessoa vai ganhar menos do que ganharia com a poupança”, detalha.

 

A queda no rendimento da caderneta é resultado do corte da taxa básica de juros (Selic), de 9% a 8,5%, conforme decisão tomada ontem à noite pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) (leia mais na página 23).  Pelas novas regras anunciadas pelo governo no início de maio, sempre que a taxa básica chega a 8,5% ou menos, o rendimento da poupança passa a ser de 70% da Selic mais Taxa Referencial (TR). 

 

Acima deste patamar, o poupador tinha um ganho de 6,17% ao ano mais a TR. Com os juros reduzidos, o pagamento cai para 5,95% ao ano mais a TR. Leia abaixo os principais trechos da entrevista com o economista Manuel Enriquez Garcia.

 

 

 

JC - Com redução da taxa Selic, o que vai acontecer com a poupança?

Garcia - O gatilho da poupança foi disparado quando a Selic chegou a 8,5%. Mas, dentro das novas regras da poupança, a redução no rendimento só vale para os depósitos feitos a partir de 4 de maio. Todo o dinheiro depositado antes desta data continua rendendo como antes, ou seja, 6,17% ao ano mais Taxa Referencial (TR). Os depósitos efetuados após o dia 4 rendem 70% da Selic mais TR, que dará 5,95% ao ano, com a Selic neste patamar.

 

 

JC - A poupança pode perder a preferência do brasileiro, que sempre foi um investidor conservador?

Garcia - A maioria são pequenos investidores, que não têm mais de R$ 5 mil aplicados, um dinheiro que ele demorou cinco, dez anos para juntar. E, quando ele descobre que a poupança vai render menos, não vai destinar o dinheiro para outro tipo de aplicação. É um hábito que esta pessoa conservadora já adotou há anos e não vai mudar.

 

 

JC - Mas a recomendação é buscar outros tipos de investimento?

Garcia - Para este pequeno investidor, não. Ele tem muito pouco dinheiro para ser recebido por um gerente de banco que possa orientá-lo. Aplicar em fundo de renda fixa também não é vantagem, porque a taxa de administração cobrada é muito alta para quem investe pouco. Ele vai ganhar menos do que ganharia com a poupança, mesmo com a regra nova. Quem tem o hábito de guardar o dinheiro na poupança, continue fazendo isso, porque todas as outras aplicações também tiveram queda na rentabilidade

 

 

JC - E investir em Tesouro Direto, não é uma boa saída?

Garcia - Não é o perfil do pequeno investidor. Em teoria, é possível investir em Tesouro Direto a partir de R$ 100,00. Mas, na prática, você precisa procurar uma corretora para fazer a compra e venda (dos títulos) em seu nome. Essa corretora vai cobrar uma taxa de comissão e você precisa acompanhar toda esta movimentação (de compra e venda). Não é algo simples para quem está acostumado à caderneta de poupança. O mercado de ações também não é boa opção. Isso é para quem pode correr o risco de perder dinheiro.

 

 

JC - E qual será o impacto da redução da Selic na economia?

Garcia - Teremos dois impactos diretos. Um deles será sobre as contas públicas, já que gasto do governo com juros vai cair de 9% para 8,5%. Quanto menor for a taxa Selic, menor é a pressão dentro do setor público. O segundo impacto é a redução das taxas de juros cobradas pelos bancos. Isso porque, com a Selic reduzida, as instituições financeiras irão captar dinheiro no mercado pagando taxas menores, o que permitirá a ele baixar os juros dos financiamentos a seus clientes.

 

 

JC - E a redução da Selic e dos juros bancários pode aumentar a taxa de inflação?

Garcia - Não, porque estamos vivendo um momento recessivo da economia mundial, que já está contaminando o Brasil, principalmente o setor industrial, que sofreu queda de 3% na produção entre janeiro e março, em comparação ao mesmo período do ano passado. Só o ramo automotivo caiu 20,4% e a produção de bens de consumo duráveis caiu 10,6%. Não há espaço para aumentos nas taxas de inflação, até porque os preços das commodities agrícolas estão caindo nos mercados internacionais.

 

 

JC - Mas a recente alta do dólar não deve ajudar a indústria a se recuperar?

Garcia - O aumento do dólar exerce pressão sobre muitos produtos importados (sofrem aumento de preço, aumentando a competitividade dos produtos nacionais). Mas, sozinho, ele não deve surtir efeito sobre a taxa de inflação. Os outros efeitos mundiais que estão contaminando a economia brasileira são muito mais fortes. Não há perigo de aumento da taxa de inflação pelo menos até o final deste ano e primeiros meses de 2013. 

 

 

JC - As eleições na Grécia não podem revolucionar este panorama?

Garcia - Sim. Estamos em uma grande encruzilhada até 21, 22 de junho, quando devem ocorrer as eleições. Poderemos ter um terremoto financeiro até lá. A Grécia está com problemas sérios e a Espanha também está em uma situação muito difícil. É possível que a Grécia saia da Zona do Euro e que a Espanha precise ser salva (por outros países). Tudo isso deve ditar boa parte da política governamental do Brasil nos próximos meses.

 

 

JC - E estas medidas do governo serão suficientes para “blindar” o Brasil?

Garcia - O tsunami internacional está chegando e pode causar um grande estrago na economia brasileira. Por isso, o governo está reduzindo as taxas de juros para que a população compre mais. O problema é que a inadimplência dos cartões de crédito está em níveis estratosféricos. O brasileiro está muito endividado e, por isso, pode ser que as medidas que o governo tem adotado não tenham efeito nenhum nos próximos meses. A nova classe média já comprou o que poderia comprar, não há mais gente para se endividar. Então, se tudo correr bem, o Brasil vai crescer neste ano o mesmo percentual registrado no ano passado, que foi de 2,7%. Caso contrário, será menos do que isso.

 

 

 

Quem é

 

Manuel Enriquez Garcia possui graduação em Economia pela Faculdade de Economia Administração e Contabilidade (FEA-USP), mestrado e doutorado em Economia pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da FEA-USP. Atualmente é professor doutor da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Métodos Quantitativos em Economia. Junto com Marco Antonio Sandoval Vasconcellos, escreveu o livro “Fundamentos de Economia”, que se tornou o mais vendido do Brasil neste segmento.

 

Atualmente, é presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) e da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

 

 

 

Corecon de Bauru recebe novos equipamentos

 

Reinaugurada ontem, a sede do Conselho Regional de Economia (Corecon) de Bauru recebeu novos equipamentos – como ar condicionado, computadores e impressoras - para melhor atender os profissionais da categoria. A renovação tecnológica revela materialmente a intenção do órgão de fortalecer sua atuação em todo o Estado de São Paulo.

 

Segundo o presidente do Corecon-SP e da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), Manuel Enriquez Garcia,  o investimento faz parte de um plano amplo do conselho para valorizar o economista. “Dessa forma, ele se sentirá mais estimulado, mais capacitado e, assim, poderá cumprir melhor seu papel, que é contribuir para o desenvolvimento do país e com a sociedade”, diz.

 

Para tanto, o Corecon irá oferecer gratuitamente cursos presenciais e a distância, palestras e orientação aos associados, sempre com a preocupação de atender as demandas vocacionais da região. Consultas também podem ser feitas na página do órgão na internet (www.coreconsp.org.br), onde estão disponíveis vídeos com discussões sobre temas da atualidade, que são úteis não apenas a estudantes e profissionais da economia, mas também à população em geral. 

 

“Este fortalecimento em direção ao Interior fará com que os economistas daqui também se sintam integrados neste novo plano e que percebam o conselho como sua casa. É algo que estimula a categoria, inclusive, a prestar seu serviço à comunidade”, assinala o economista Reinaldo Cafeo, delegado regional do Corecon em Bauru.

 

Garcia assumiu a presidência do conselho no início do ano e, ao mesmo tempo em que pretende valorizar o economista, diz que o órgão assumirá seu papel social dentro das regionais em que estiver inserido. “Para isso, já começamos a arrecadar latas de leite em pó entre os participantes dos cursos que estamos realizando. Tudo será destinado a crianças de entidades carentes”, frisa.

 

O Corecon em Bauru abrange cerca de 30 cidades e atende mais de 600 economistas. A sede fica na rua Gustavo Maciel, 21-48, na sala 30 da Galeria 21 Center.