Este "causo" curioso aconteceu no lendário e exuberante rio Paraguai, mais precisamente no Rancho Ipê em Porto Esperança, em Mato Grosso do Sul (foto abaixo). Antes de contá-lo, lembro alguns dados interessantes sobre este fantástico rio que nasce na Chapada dos Parecis, em Mato Grosso, e que também passa por Mato Grosso do Sul, sendo afluente do rio Paraná. Dentro do território brasileiro, ele percorre 1.693 quilômetros, desde as nascentes até a desembocadura do rio Apa.
Sua navegabilidade torna-se satisfatória em terras brasileiras a partir de Cáceres, passando por Corumbá até a foz do rio Apa. A constatação mais curiosa e interessante é que seu trajeto, no centro do Pantanal, é tão sinuoso e, consequentemente, a sua velocidade é tão lenta, que um barco solto em Cáceres (MT) demoraria cerca de seis meses para chegar ao Oceano Atlântico! Esta seria a mais exaustiva e longa "pesca de rodada" do mundo!
Voltemos ao Rancho Ipê do grande amigo, empresário e pescador Jaime Erloza que me contou esta "estória". O time era grande. Além do Jaime, estavam Nenê Boleti, Célio (Auto-capas), Hélio Vanini e Bráulio entre outros. Era época da cheia e as águas estavam na porta do rancho. Tudo alagado! De ótima estrutura, o Rancho Ipê parecia flutuar no rio e seu piso (laje) sentia a água batendo por baixo. Bebericando uma "branquinha", comendo um torresminho e jogando conversa fora, os nossos solertes pescadores estavam desanimados em sair enfrentando aquele mundão d`água!
Na ampla cozinha do rancho havia uma abertura de 20 centímetros no piso, um ralo, porém sem a grade, que se quebrara. Foi aí que o esperto Nenê Boleti deu uma olhada pelo buraco e percebeu um cardume de piraputangas ao redor do rancho à procura de comida. Não deu outra! Linhada de mão com uma chumbada média e um anzol também, isca de torresmo que estava na mão, foram introduzidos no ralo.
"Segura essa cozinheiro", gritou Nenê, puxando a primeira das 12 piraputangas que fisgou, via ralo! Coisa de louco! Era jogar a linha no buraco e puxar o peixe direto para as mãos do "mestre cuca". Sorte dele foi não ter fisgado nenhum pintado ou pacu, pois eles, com certeza, não passariam pelo buraco e entupiriam o ralo da cozinha! Quem não gostou muito foi o cozinheiro que teve um trabalhão danado pra limpar as "criadas" piraputangas e fazer um delicioso "sashimi" que todos comeram a semana toda. O Jaime Erloza nem se preocupou em consertar o ralo, esperando a próxima cheia. Abraços para minha galera de amigos e pescadores que "pescam" umas cervejinhas lá no bar Saudosa Maloca.
Fernando Lucilha Júnior é pescador e contador de causos