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Júlio César Santos Bernardo foi morto em outubro do ano passado em Bauru. Na última segunda-feira, o suspeito foi encontrado e detido: Mário Henrique dos Santos, 21 anos, é solteiro e, segundo a polícia, tem envolvimento com o tráfico. Júlio César não tinha apenas o sobrenome coincidente com aquele que tirou sua vida: ele era apenas quatro anos mais velho, também solteiro e usava drogas. Perfis parecidos de “predador” e “presa”, situação que, de acordo com levantamento da Polícia Civil, segue a tendência da maioria dos assassinatos em Bauru.
Este “mapa da morte” engloba os homicídios registrados no começo de janeiro de 2011 até o final do mês passado. Ao todo, 43 pessoas foram assassinadas neste período em Bauru. Comparados os crimes esclarecidos, que correspondem a 40% (leia mais abaixo), é possível verificar como o autor se assemelha com aquele que teve a vida interrompida.
E esta semelhança pode ser constatada em vários quesitos. De todas as vítimas, 30 estão compreendidas entre os 18 e 39 anos. Do lado dos autores, são 29. O sexo masculino também predomina em quem mata e quem morre. São 38 vítimas e 39 autores homens, de acordo com o “mapa da morte”;
“Pelo perfil, podemos ver que, em muitos casos, o que separa quem vai ser o autor e quem vai ser a vítima é um limiar extremamente tênue. Os papéis poderiam se inverter em um piscar de olhos”, afirma o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja.
De acordo com ele, esta semelhança, apesar de divergir em alguns casos, não é algo circunstancial. “É uma tendência. Na maior parte dos crimes, o autor, a vítima ou ambos têm ligação com a criminalidade”, aponta.
É exatamente neste ponto que, para o delegado Granja, incide a falta de vínculos familiares. O levantamento evidencia que, do total de mortos, 29 não eram casados ou não tinham parceiros. Estatística bem próxima do perfil dos autores: 24 dos identificados também eram solteiros.
“A família é realmente a base de tudo. Vemos que a maioria dos envolvidos nos assassinatos não era casada e não tinha estrutura familiar concreta. Acredito que esta falta de família exponha as pessoas ao crime tanto no papel de vítimas quanto de autores”, complementa.
Mais semelhanças
Outro ponto semelhante entre os dois lados opostos é a cor da pele. Com prevalência de brancos, o número é idêntico tanto nos autores quanto nas vítimas: 22. O delegado, entretanto, enxerga que tal igualdade seja circunstancial e não represente um padrão específico.
“Porém, podemos pensar que este número demonstra algo positivo, uma vez que não coloca Bauru no mapa de crimes motivados pelo preconceito, como são os casos de homofobia ou racismo”, finaliza o titular da DIG, Kleber Granja.
Cerca de 40% dos homicídios foram esclarecidos pela polícia
Entre os 42 homicídios em Bauru – que resultaram em 43 mortos - registrados durante o período analisado, o levantamento aponta que seis eram de autoria conhecida. Do restante, foram esclarecidos 14 casos, o que corresponde a uma média de aproximadamente 40% dos assassinatos de autoria desconhecida.
“Achamos que é um número excepcional. É algo acima da média, porém, longe do ideal. Estamos traçando estratégias para melhorar este índice”, afirma o titular da DIG, Kleber Granja, complementando ainda que muitos casos estão adiantados.
Ele completa ainda que o grau de resolução cria um ciclo inibitório da criminalidade. “A repercussão dos crimes resolvidos faz com que diminua ainda mais os índices. Os criminosos sabem que estamos agindo e isto inibe as suas ações”, conclui.
Os quebra-cabeças
Apesar de considerar o índice de resolução alto, a Polícia Civil ainda tem aqueles casos recentes que são “pedras no sapato” e geram a cobranças da população. Como perfeitos quebra-cabeças, tais crimes ainda precisam de muitas peças para serem montados.
Um deles foi um duplo homicídio que chocou a cidade em outubro do ano passado. Na ocasião, os corpos de Gelson de Oliveira Sales, 46 anos, e de Marcelino Fernandes, 47, foram localizados no depósito que fica entre os bairros Jardim Gasparini e Parque Pousada com as gargantas cortadas, marcas de tortura e camisetas cobrindo os olhos.
“É uma investigação muito difícil. Mas, podemos dizer que nossas apurações estão bastante avançadas”, limitou-se a dizer o titular da DIG, Kleber Granja.
O mesmo, entretanto, ele não pode afirmar sobre outro caso de bastante repercussão ocorrido cerca de três meses depois. Em janeiro deste ano, o cabeleireiro Josimar Ferreira Severino, 23 anos, foi executado com cinco tiros em seu ponto na região central, onde se apresentava como travesti com a alcunha de “Safira”.
“Este caso está bem difícil. Parece que está imperando a lei do silêncio. Não conseguimos nem levantar muitas informações sobre a vida pessoal da vítima. Porém, não consideramos nenhum crime arquivado”, destaca.
Além destes dois assassinatos, entre janeiro do ano passado e abril deste ano, são mais 20 casos que ainda não foram esclarecidos e continuam na “mira” da polícia.
Assassinatos fúteis revelam banalização
Apesar de a maior parte dos homicídios registrados em Bauru ter relação com o tráfico de drogas, os casos fúteis estão “ganhando corpo”. “São situações extremas em que vemos como a vida e a violência estão banalizadas hoje em dia”, explica o titular da DIG, Kleber Granja.
De acordo com o “mapa da morte” traçado pela Polícia Civil, são nove homicídios motivados por questões fúteis. Entre eles, teve homem que, por conta de discussão, matou o irmão com um golpe de picareta; jovem que esfaqueou o primo após brincadeira; assassinato por conta de dívida de sinuca; desentendimento por causa de uma vaca furtada; entre outros.
“A intolerância é muito grande. As pessoas não pedem e não aceitam mais desculpa. Aquele ‘contar até 10’ se transformou em agressão e ação. Este atitude é muito preocupante para a polícia”, completa o delegado.
Nestes casos, as armas frequentemente utilizadas são as classificadas como “brancas” (facas e objetos perfurocortantes usados com tal finalidade). “Nas situações ocasionais, as pessoas acabam usando o que tem em mãos. Já nos homicídios premeditados, as armas de fogos ainda são as mais usadas”. Do total dos 42 homicídios, o “mapa da morte” aponta que 24 foram provocados por armas de fogo.
O palco das mortes
Outra estatística curiosa dos 42 homicídios registrados é o local onde foram cometidos. Deles, 32 ocorreram em vias públicas – incluindo ruas, terrenos baldios e rios -, sendo que oito foram em residências e dois em estabelecimentos comerciais.
“Geralmente, nas residências, há testemunhas e facilita as investigações. Este grande número de assassinatos em vias públicas reflete o perfil premeditado dos crimes. Não podemos descartar que estes locais são escolhidos para dificultar nossas investigações”, teoriza o delegado Kleber Granja.
O horário das mortes também converge com esta hipótese. Foram 35 homicídios registrados durante a noite, madrugada ou bem no começo da manhã. “Isto também simboliza esta premeditação. Os crimes que ocorrem na luz do dia são, em maior parte, aqueles circunstanciais”, destaca.