10 de julho de 2026
Geral

Drama do crack: tubulações viram casa

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 7 min

Douglas Reis

Tubulações são usadas como 'casa' pelos usuários de crack no Centro de Bauru

Há pouco mais de quatro meses depositadas em plena região central de Bauru, tubulações do Departamento de Água e Esgoto (DAE) viraram ‘casa’ para usuários de crack. Seja noite ou dia, as grandes peças de concreto são utilizadas por dezenas de dependentes como dormitório e até como esconderijo para a “fuga” de crimes.

“Esses tubos facilitam a fuga dos pequenos crimes no Centro. Os bandidos descem pelo vão do viaduto 13 de Maio e correm para se esconder ali dentro”, aponta o comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar, capitão Jorge Luís Dias.

De acordo com a Polícia Militar (PM), o problema envolvendo o acúmulo de usuários de drogas embaixo do viaduto da rua 13 de Maio existe há alguns anos, mas a intensificação ocorreu há cerca de quatro meses, após o local virar “depósito” das tubulações do DAE. “Na semana passada mesmo, atendemos um roubo a um senhor de 70 anos e abordamos o indivíduo por aqui”, ressalta o capitão.

A PM estima que mais de 100 usuários de crack frequentem o local em busca de abrigo para manter o vício. Do total, mais de 80% teriam ficha criminal e outros, até carteira de trabalho assinada.

Entre os próprios usuários o local acabou se tornando motivo de uma “triste piada”, sendo chamado de “Meu tubo, minha vida”, em referência ao projeto do governo federal para aquisição de moradias populares.

Entre o tubo e a ponte

Na manhã de ontem, a reportagem do Jornal da Cidade, acompanhada pela PM, esteve nas imediações do viaduto da rua 13 de Maio e na viela paralela à rua Tiradentes, às margens da avenida Nuno de Assis e do viaduto inacabado. Na ocasião, diversas pessoas dormiam dentro das tubulações e abaixo da alça da ponte. Entre elas havia uma mulher que afirmou estar grávida, mas não quis conversar. Alguns moradores foram arredios, outros receptivos.

Um deles foi o bauruense Thiago (os sobrenomes serão preservados na reportagem), que tem 22 anos e há dois afirma morar debaixo do viaduto da 13 de Maio. Viciado em crack desde os 15 anos, ele conta ter abandonado o trabalho de pintor e ter saído de sua casa, na Vila Industrial, para entregar-se ao vício.

Questionado quanto à sua família, o rapaz abaixa a cabeça e responde que sua mãe, por diversas vezes, tentou buscá-lo, mas sua dependência impediu o “retorno à vida”. “Eu até quero sair, mas ninguém me ajuda direito. Eles até já vieram aqui (Sebes), mas eu não fui, é difícil”, relata o rapaz, que afirma ter registros por roubo na polícia.

Com um pequeno lençol cobrindo até a altura dos joelhos, ele confessa ter passado fome e até frio nas últimas noites, mas não desiste da estadia na ponte, “quando chega a noite, vou para o tubo dormir”.

Encostada na coluna oposta ao local utilizado como ‘sala’ pelos moradores do viaduto, Thiago aponta uma cozinha improvisada. No chão, uma grelha com tijolos e um balcãozinho feito de pedras abrigava um saco com sal, recipientes com óleo e até mesmo moedas, indicando os resquícios da produção de alimentos por ali. Outro fato que chamou a atenção em meio ao chão de terra batida foi a presença de uma vassoura improvisada, indicando a limpeza no local.

Outra moradora do local, Josiele, 24 anos, trabalhava como doméstica antes de ser derrotada pelo crack, há cinco meses. Assim como Thiago, a jovem também é bauruense e morava no Bauru 2000 com os três filhos, que hoje estão com uma tia.

Apesar de mostrar-se firme com a escolha feita pela vida na rua, ela confessa ter medo. “Já me roubaram, tenho medo, mas acredito Nele”, afirma a mulher olhando para cima.

‘Eu tinha vergonha dos meus irmãos’

Gilberto tem 57 anos e é servente de pedreiro. Sua história não é diferente das demais contadas pelos outros usuários de crack que “residem” nas imediações da avenida Nuno de Assis.

Há cerca de três meses, ele adaptou uma das tubulações às margens do viaduto inacabado, na viela paralela à quadra 2 da rua Tiradentes, para “morar”. Sem oportunidades e dependente químico há mais de três décadas, ele improvisa para conter o vento, o frio e a chuva da porta de sua “casa”, protegida com edredom, lençóis e pedaços de madeira.

Sobrevivendo com os trocados conquistados no recolhimento de recicláveis pela região central, Gilberto, que afirma não ter filhos, conta ter resolvido fugir para Bauru por se considerar má influencia para seus sobrinhos. “Eu tinha vergonha dos meus irmãos e preferi sair de lá para não ser um mau exemplo”.

Na manhã de ontem, por volta das 9h, ele e sua companheira de 42 anos, que preferiu não se identificar, acordaram e se prepararam para a rotina da recolha de materiais recicláveis pela cidade, mas por conta da chuva, resolveram adiar a jornada e permanecer dentro do tubo.

Sobre as dificuldades de viver ao relento, em condições precárias, Gilberto conta com simplicidade a forma como se acostumou a viver com a carência de condições básicas.

“Para me alimentar, espero doações de restaurantes, para tomar banho uso um córrego próximo, e para lavar as roupas e ir ao banheiro, vou ao posto de combustível”, efantiza.

Ele relata que seu único temor morando na rua é ser assaltado ou agredido.

“Já me roubaram chocolate e outras comidas aqui, por isso, levo tudo comigo e só deixo a cama. De noite volto para dormir e aqui é tudo escuro”, completa o morador, que assim como Josilene, afirma nunca ter recebido nenhuma visita da prefeitura no local.

Em março, o JC publicou uma reportagem abordando a falta de iluminação pública e a ocorrência de roubos e furtos naquela região, principalmente na viela paralela à rua Tiradentes. Na ocasião, o secretário de Obras do município, Eliseu Areco, afirmou que o problema sobre a iluminação seria resolvido entre os meses de agosto e setembro deste ano.

Rede de esgoto

A respeito do depósito das tubulações nas imediações do viaduto da rua 13 de Maio e da viela paralela à rua Tiradentes, próximo ao viaduto inacabado, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) informou que as peças de concreto serão retiradas do local até novembro.

Por meio da assessoria de imprensa, a autarquia afirma ter conhecimento dos problemas que o depósito ao ar livre tem causado e alega que o material será utilizado para obras de interceptação da rede de esgoto, na região da Sorocabana até o Terminal Rodoviário, assim que a licitação para implantação for finalizada.

‘Creas terá atendimento 24h’, diz secretária

Durante a visita aos “moradores das tubulações” na manhã de ontem, uma equipe da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), junto a uma base móvel da Polícia Militar, chegou ao local para o recolhimento e registro dos usuários.

A assistente social da Sebes Marilda Bencoletto explica que a operação “Enfrentamento ao crack”, realizada em parceira com a PM, ocorre há alguns meses nos locais de risco de Bauru.

“De segunda a quinta-feira, das 6h às 9h, passamos nesses lugares recolhendo essas pessoas, mas a maioria não quer sair, acabam brigando e xingando a gente”, frisa Marilda sobre a dificuldade encontrada na resistência dos usuários de drogas ao atendimento. 

O maior ‘entrave’ apontado pelos moradores de rua em relação aos albergues e centros sociais de apoio na cidade, conforme ela, seriam os horários. “Eles não querem ter hora para chegar, comer e dormir. Às vezes abrimos exceções, mas não podemos fugir das regras sempre”, responde a assistente social.

Os usuários recolhidos pela operação são encaminhados para o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Creas Pop) e depois para os albergues noturnos, ou para hotéis sociais.

Sobre o atendimento e o ‘entrave’ nos horários colocados como empecilho pelos moradores de rua, a titular da Sebes, Darlene Têndolo, ressalta que nos próximos meses o Creas Pop, que atende somente até as 17h, receberá um reforço e terá equipe 24h para atender a população noturna.

“Temos um fluxo constante de pessoas que vão e voltam para as ruas. É um trabalho difícil e que requer o convencimento em querer mudar de vida, por isso iremos persistir e fortalecer ainda mais”, reforça.

De acordo com a Sebes, 93 pessoas seriam atendidas constantemente pela operação “Enfrentamento ao crack” na cidade. Dessas, apenas 6 aceitaram o tratamento contra o vício, e outras 13 teriam retornado para suas cidades de origem.

Sobre a negativa alegada por alguns usuários em relação ao recebimento de ajuda da prefeitura, a secretária é enfática. “Nós atuamos firmemente todos os dias, eles falam isso por não quererem nossa ajuda e não serem adeptos às regras dos centros de acolhimento, ou então, por causa de conflitos familiares”, pontua.