A Revolução Gráfica, ocorrida no século XIX, multiplicou imagens e provocou uma grande mudança na mente das pessoas. Na passagem para o século XX, um articulista da Atlantic Monthly queixava-se que as imagens acabariam por substituir as palavras e que os símbolos visuais tornar-se-iam a fonte primordial do discurso. O risco é de que o pensamento imagético (pensar em termos de uma imitação ou representação artificial da forma externa de qualquer objeto) substituiria o pensamento ideal (pensar em termos de ideias e valores). A imagem nos direciona para o aqui e o agora, para algo imediatamente útil; o ideal nos direciona para algo que está acima e além, que não precisa ter utilidade imediata. A revolução gráfica é, também, uma revolução moral, pois substitui a aspiração pela gratificação imediata.
O texto impresso exige raciocínio. Empregar a palavra escrita significa seguir uma linha de pensamento que exige um poder considerável de classificação, inferência e argumentação. Consequentemente, uma sociedade baseada no texto escrito, ainda que não necessariamente dardejante de fulgor intelectual, era aquela em que a lógica, a ordem e o contexto predominavam. Uma sociedade baseada em imagens, por outro lado, dispensa a disciplina lógica. A Revolução Gráfica era o começo de uma longa caminhada rumo ao antirraciocínio, que acabaria por culminar na televisão. Abominando o vácuo de imagens, obrigada a nos manter estimulados para que não mudássemos de canal ou, pior, desligássemos o aparelho, a televisão converteu tudo que aparecia na tela em entretenimento, que era sua forma natural de discurso. Não importa o que a televisão mostre, ou de que ponto de vista, a suposição açambarcante é que ela está aí para nos divertir e dar prazer. Transformada no meio primordial mediante o qual as pessoas se apropriavam do mundo, a televisão disseminou uma epistemologia na qual toda e qualquer informação, não obstante a fonte, era forçada a se transformar em entretenimento; a era da tipografia cedendo lugar à era da televisão e mudando nossa forma de pensar.
Se a televisão transformou em notícia qualquer coisa que tivesse os rudimentos de entretenimento, também transformou em entretenimento tudo aquilo que contivesse os rudimentos de notícia. Para a TV, não bastaria apenas fornecer a notícia: a notícia tinha de ser grande o bastante, emocionante o bastante, com suspense o bastante, provocação o bastante, para satisfazer a audiência. Se um evento não estivesse à altura, a televisão, em seu frenesi, faria com que estivesse. Mas a televisão é sintoma, não causa. A causa é a fome de entretenimento do público, seja baseado em ficção ou na realidade. E ainda que a televisão tenha acelerado e expandido o conceito de notícia como entretenimento, a imprensa escrita esforça-se para não ficar para trás.
O autor, Ney Vilela, é professor de Teorias da Comunicação e de Telejornalismo na FJAU,
coordenador da Oficina Cultural Sérgio Buarque de Holanda e coordenador Regional do Instituto Teotônio Vilela