Correntes, brincos e pulseiras dourados e anéis com pedras de brilhante. Antes, sem qualquer preconceito, quando alguém da classe C utilizava algum desses objetos, logo se pensava que não eram joias verdadeiras. Hoje, este pensamento acabou. A denominada nova classe média, depois de adquirir bens para as residências, é cada vez mais “seduzida” pelo segmento joalheiro em Bauru.
Pelas lojas da cidade, é possível ver este novo perfil dos clientes. Karla Mirelli Arakaki, 17 anos, é um exemplo típico. Ela, que trabalha como crediarista em uma loja de vestuários, estava comprando, pela primeira vez, uma joia para presentear seu namorado no próximo dia 12 de junho.
A jovem estava em busca de uma corrente de ouro. “A média está entre R$ 300,00 ou R$ 400,00”, conta, decidida a levar o presente. “Antes, nunca havia pensado em comprar uma joia por conta dos preços elevados. Agora, além de encontrarmos peças mais baratas, o parcelamento em várias vezes ajuda bastante”.
A constatação do “bolso” de Karla está correta, segundo o economista Wagner Ismanhoto. Ele, que está inserido no mercado joalheiro há cerca de 20 anos, explica que as facilidades de pagamento aliadas ao poder aquisitivo crescente da classe C impulsionaram o segmento.
“A justificativa é muito simples: as pessoas de classes mais baixas sempre tiveram os mesmos sonhos de consumo das classes mais altas. Quando elas conseguiram ampliar seu poder de compra, passaram a realizar estes sonhos”, aponta o economista, comparando as joias com o “boom” de vendas de televisores de LCD e aparelhos celulares.
Mesmo com a alta do preço internacional do ouro (leia mais abaixo), proprietários do ramo confirmam este novo perfil de cliente. Carolina Rosseto da Silva, dona de uma joalheria com três unidades em Bauru, afirma que esta nova realidade alterou até mesmo a confecção das joias.
Mais leves
“Hoje, tanto que confecciona quanto quem vende, já pensa em como atender este novo público. Ou seja, as peças começaram a vir com menos ouro em sua composição para reduzir o preço, porém, mantendo a beleza estética”, conta Carolina Rosseto.
Ela exemplifica apontando que, antigamente, as correntes continham cerca de 1,8 grama de ouro. “Atualmente, esta quantidade está em 0,6 grama”. Por isso, há variações de preço quase que inimagináveis e orçamentos para todos os bolsos.
Nair Santos, proprietária de outra joalheira e atuante há mais de 12 anos no segmento, acompanhou a mudança de perfil da clientela. De olho nesta nova realidade, ela confirma as estratégias para “seduzir” a classe C.
Além das facilidades de parcelamento, ela aponta as opções mais baratas de joias como um dos principais atrativos, tanto que existe até uma classificação de peso de acordo com o preço das peças.
“As joias leves são aquelas cujo preço está abaixo de R$ 1,5 mil. Deste valor até R$ 5 mil são as joias médias. Já a partir deste preço, são as consideradas pesadas”, relata, confirmando que, atualmente, o que mais sai em sua loja realmente são as joias leves.
Maior obstáculo
Apesar deste crescimento em meio à classe C, o sonho de ostentar joias enfrenta um problema. O maior obstáculo é o ouro, um dos metais nobres mais presentes nas peças e, cuja cotação, cresceu muito no mercado internacional e nacional.
“É o que vem prejudicando o sonho”, constata o economista Wagner Ismanhoto. Para ele, mesmo que sem previsão, o preço deve ser normalizado pela famosa da lei de oferta e procura.
“As pessoas ‘guardam’ determinado produto, no caso, o ouro. Assim, ele sobe muito de valor. Mas o ouro não é a moeda que rege a economia. Então, ele tem que começar a ser vendido. E, com isso, os preços tendem a diminuir, voltando ao normal”, finaliza o economista.
Clientes procuram além das ‘peças douradas’
Além de mudar o perfil do cliente nas joalherias, o aumento do poder aquisitivo já criou até aqueles clientes fixos. Além das “peças douradas”, eles aproveitam para levar outros acessórios.
Uma destas consumidoras é a farmacêutica Elaine Escatamburlo, 30 anos. “Hoje, está bem mais fácil comprar. Eu venho sempre. Gosto muito de óculos e relógios. Vemos que, até as peças mais caras, estão mais acessíveis”, conta.
A técnica de contabilidade Ana Paula Campos, 33 anos, também concorda que os itens das joalherias estão mais acessíveis. Além do parcelamento, ela, de olho na realidade bauruense, destaca outro ponto positivo de haver opções mais baratas. “Hoje, é bom ter uma joia de qualidade que não seja tão cara, justamente por causa de roubos”, completa.
Peças parecidas variam em quase R$ 7 mil
A posição da joalheria é estratégica para conquistar este novo perfil de consumidor. Em pleno Calçadão da Batista, funciona uma das joalherias de Carolina Rosseto da Silva. Além da localização, ela ressalta a variação de preços das peças. Dois anéis bem parecidos ao olhar, porém, bem discrepantes no preço: cerca de R$ 6,7 mil de diferença.
O mais barato custa R$ 299,00, enquanto o outro, R$ 7.014,00. “O primeiro tem bem menos ouro e a pedra é zircônio. Já o outro é bem mais pesado e a pedra é diamante”, explica Carolina Rosseto, justificando a diferença “gritante” de preços.
Na outra joalheria, Nair Santos conta que é possível encontrar brincos com pérola cultivada a partir de R$ 170,00. “Hoje, saem muitas peças folheadas também. As pessoas procuraram o que mais se encaixa no bolso delas. E, hoje, certamente encontram”, conclui.
Uma das estratégias mais utilizadas é colocar menos metal nobre na peça e combinar com outros materiais, como metais semipreciosos.