09 de julho de 2026
Geral

Bauru: 2 vezes mais carros que bebês

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

João Rosan

Em 8 anos, o número de veículos emplacados em Bauru deve se igualar à quantidade de habitantes; na foto, carros e motos na Gustavo Maciel

Emilene Daré Myiamoto Silva e Adriano Dias de Andrade Silva estacionam o carro na vaga mais próxima que encontram no Centro de Bauru e caminham por mais de seis quadras carregando a filha única no colo em meio ao trânsito, até chegar ao local de destino. A cena é a expressão certeira de um fenômeno que reflete, ao mesmo tempo, uma realidade econômica e social: o número de novos veículos adquiridos diariamente já é duas vezes maior que o de bebês nascidos na cidade.

Dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) revelam que são emplacados, em média, 40 veículos por dia pela 5ª Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Bauru. Nas mesmas 24 horas, vêm ao mundo cerca de 20 bebês nas quatro unidades hospitalares que realizam partos na cidade - Maternidade Santa Isabel, Hospital da Unimed, Hospital Beneficência Portuguesa e Hospital Prontocor. Se o ritmo de nascimentos e emplacamentos seguir o mesmo nos próximos anos, a previsão é de que frota e população se igualem até 2020 (leia mais abaixo e na página 9).

O técnico em telecomunicações Adriano e a esposa Emilene são o exemplo clássico da configuração atual das famílias de classe média: um casal jovem, com apenas um filho e dois veículos na garagem. Ontem, Adriano conta que procurou vagas na área azul e em estacionamentos, mas acabou tendo de parar o carro num local distante para cumprir algumas tarefas no Centro da cidade. “Levei mais de uma hora para encontrar um lugar para estacionar. O trânsito está bem complicado, principalmente em horário de pico. E, com criança pequena, só carregando no colo para atravessar as ruas no meio de tantos carros”, pondera ele, referindo-se à pequena Beatriz, de 3 anos.

De fato, Bauru já coleciona números recordes quando o assunto é a frota. Conforme levantamento feito pelo JC com base nos dados do IBGE e do Denatran, Bauru contava, em março deste ano, com 221.153 veículos, uma média de 64 unidades para cada 100 moradores. O índice está acima da média nacional (38 veículos para cada 100 moradores) e de países europeus como a Alemanha (60 por 100) e França (62 por 100).

Somente nos quatro anos que se passaram, foram registrados quase 57 mil novos emplacamentos em Bauru, impulsionados pelos incentivos do governo federal para recuperar a indústria automobilística prejudicada pelas crises internacionais. “Além da redução de impostos para a compra de veículos, a facilidade de acesso ao crédito faz com que as prestações caibam no bolso de qualquer pessoa. Hoje, com R$ 180,00 por mês, todo mundo tem a oportunidade de comprar uma moto”, exemplifica o economista Reinaldo Cafeo.


Transporte individual


Ele destaca ainda que crescimento econômico do Interior paulista - responsável pelo segundo Produto Interno Bruto (PIB) nacional, atrás apenas da região metropolitana - e o nível de emprego mantido em Bauru principalmente em função da construção civil e setor de serviços também são protagonistas deste fenômeno. “Por conta desta estabilidade, mesmo em uma situação que poderia ser desfavorável em virtude das crises econômicas internacionais, as pessoas continuam consumindo”, assinala.

Neste contexto, o transporte individual é cada vez mais estimulado e sedimentado na cultura do bauruense. Mesmo com um sistema de transporte coletivo considerado satisfatório na cidade, quando surge a oportunidade para a aquisição do carro – ou moto – próprio, a grande maioria não costuma pensar duas vezes.

“Até porque, hoje, as famílias da classe média, que compõem a grande maioria dos moradores de Bauru, estão cada vez mais atarefadas. Os filhos precisam ir à escola, ao curso de inglês, à natação e os pais, com medo da violência, dificilmente deixarão que eles dependam do transporte coletivo”, detalha o economista.

Atualmente, a frota de Bauru, enfileirada, alcança a distância de 884,6 quilômetros, maior do que o trajeto entre Baru e Belo Horizonte (MG). São veículos que transitam todos os dias de um lado a outro da cidade, agravando os gargalos do trânsito que todo bauruense sente na pele diariamente.

2020: população e frota iguais

Daqui a oito anos, o número de veículos emplacados em Bauru deve se igualar à quantidade de habitantes da cidade. Segundo projeção feita pelo economista Reinaldo Cafeo a pedido do JC, por volta do segundo semestre de 2020, o município deverá ter 370 mil veículos e 370 mil moradores.

A estimativa tem como base dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Segundo o Censo do IBGE, entre 2000 e 2010, a população de Bauru cresceu 8%, variando de 316.064 para 343.937 habitantes.

No mesmo período, o volume de veículos dobrou, indo de 116.633 para 217.548 unidades. Apenas entre março de 2011 e março de 2012, o total de veículos emplacados na cidade subiu de 206.724 para 221.153 unidades.

 

Aumento da frota ainda desafia o poder público

Saturada, a malha viária de Bauru foi posta em condição limite e demanda a criação de alternativas para o tráfego para, ao menos, desafogar os grandes gargalos das vias mais carregadas. O poder público, dentro de sua capacidade orçamentária, tem adotado algumas medidas para reduzir o impacto deste enorme problema urbano, entre elas a recuperação de viadutos, recapeamento de artérias e possíveis rotas alternativas, além de estratégias mais simples, como implantação de semáforos e binários para dar maior fluidez ao tráfego.

Entretanto, projetos já prontos que requerem grande investimento - como a construção das avenidas Água Comprida e Água do Sobrado - ainda permanecem no papel. Para tentar melhorar a qualidade da movimentação de veículos e pedestres nas ruas da cidade, a prefeitura pretende, em breve, levar à votação da Câmara Municipal o Plano Diretor do Transporte e Mobilidade de Bauru.

Anunciado em março de 2010, o projeto tem como objetivo traçar um diagnóstico do deslocamento dos bauruenses, as rotas mais usadas, os obstáculos enfrentados e propor soluções, como investimentos em meios de transporte alternativos, sustentáveis e até novas vias para melhorar o fluxo de condutores, pedestres e ciclistas. Sendo aprovado pelos vereadores, o plano servirá como suporte para o município reivindicar recursos junto ao Ministério das Cidades para implantar melhorias no sistema viário.

Número de crianças com até 4 anos cai 17% em uma década

Se, por um lado, a estabilização da economia permitiu o aumento vertiginoso da frota, o surgimento da pílula anticoncepcional, na década de 1950, e o ingresso da mulher no mercado de trabalho são alguns dos motivos para explicar a redução do número de crianças na cidade.

Em apenas dez anos, a quantidade de pessoas com até 4 anos de idade caiu 17,3% no município, enquanto a população total cresceu quase 8%, segundo dados do Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2010, Bauru contava com 20.747 habitantes com até 4 anos, ante as 25.081 crianças nesta faixa etária que moravam na cidade em 2000.

De acordo com Nair Leite Ribeiro Nasralla, professora de antropologia da Universidade Sagrado Coração (USC), além do surgimento da pílula anticoncepcional – que introduziu no país os conceitos de planejamento familiar e controle de natalidade, o a ciência médica avançada permitiu que a mulher postergasse os planos de ser mãe, o que incidiu fundamentalmente no número de filhos que os casais passaram a ter. “As inovações médicas recentes garantiram poder de escolha às mulheres adultas de hoje. Elas sabem que, agora, podem ter filhos com 40 anos com maior margem de segurança (de que eles nascerão saudáveis)”, comenta.

A redução da quantidade de crianças também é reflexo – de longo prazo - do ingresso da mulher no mercado de trabalho. Há ainda, conforme destaca Nair, uma preocupação crescente em garantir não apenas boa educação e saúde aos filhos, mas todos os bens materiais que os pais passaram a julgar necessários.  

“É uma preocupação excessiva, que se confunde com o consumismo, e que pode ser prejudicial. Há crianças que ganham celular e computador com 5 ou 6 anos de idade”, comenta. Trata-se de um hábito essencialmente atrelado ao aumento do poder de consumo da população, proporcionado pela estabilidade econômica conquistada na última década.


Recessão e violência


Mas, por outro lado, Nair avalia que o medo da volta de um cenário de recessão ainda paira sobre alguns casais que preferem adiar a decisão de ter filhos. “A memória da instabilidade econômica da década de 1980 ainda é presente na vida da geração adulta de hoje. E as crises internacionais atuais transformam esta memória em temor”, observa.

A professora ainda aponta como fatores para a redução do número de bebês o medo da violência urbana e o desejo de investir na carreira até conquistar certa estabilidade financeira antes de gerar um filho. “As mulheres inseridas no mercado de trabalho se assustam porque terão de deixar seus filhos muito tempo sob os cuidados de outras pessoas. Com esta ausência, elas ficam inseguras sobre o que será das crianças neste mundo em que vivemos”, analisa.

Fabiana Martinez da Silva e Antonio Roberto Custódio da Silva já tiveram dois filhos – Renan, 3 anos e Nicole, 7 meses. Mas, como ambos trabalham e se preocupam em garantir um bom futuro para os pequenos, decidiram fechar a fábrica. “É muito caro manter as crianças. Quando são pequenas, a gente gasta bastante”, destaca Antonio, dizendo-se econômico quanto aos custos com transporte da família.

“Vou e volto do trabalho no carro da empresa, minha esposa trabalha perto de casa e as crianças também estudam em escolas próximas. Só uso meu carro particular quando preciso sair com as crianças para alguma emergência ou a passeio. Manter carro também custa caro e o melhor é economizar para investir em outras coisas”, ensina.