09 de julho de 2026
Polícia

Mortes de jovens podem ter ocorrido por excesso de droga

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

A morte de um adolescente de 17 anos ocorrida anteontem no interior de sua residência, sem motivo aparente, disparou a hipótese de que ele tenha morrido de overdose. O caso, registrado pela polícia de Bauru como morte suspeita, ocorreu na Bela Vista. No mesmo dia, na cidade de Ibitinga, uma jovem de 20 anos morreu nos fundos de um bar, onde estava com amigos, e a mesma desconfiança paira sobre sua morte.


Em casos como esses, somente a necropsia vai comprovar se as mortes ocorreram graças a uma dose excessiva de substâncias psicoativa, quantidade acima do tolerável pelo organismo daquela pessoa. Para que ocorra a morte por overdose é preciso que pelo menos um órgão pare de funcionar, explica o médico psiquiatra da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Edson Capone.


Ele explica que as drogas que mais provocam overdose são aquelas cujo uso é intravenoso, ou seja, a cocaína e a heroína.


“O que facilita muito a overdose é via de administração. A heroína nós não temos no Brasil, mas a cocaína quando administrada por via endovenosa oferece o maior risco, embora no Brasil não haja estatísticas que comprovem o dado. Aspirada, a cocaína também pode provocar os efeitos do excesso.”


O crack, embora contenha substâncias presentes na cocaína, é fumado, o que dificulta a ocorrência de doses excessivas, avalia o médico. “Ele é fumado. Por isso, o usuário consegue determinar a quantidade de uso e com isso acaba respeitando o limite do corpo. O mesmo não acontece com o consumo intravenoso da cocaína, porque o sujeito perde a noção de quantidade consumida. Ele está aplicando diretamente na veia, na corrente sanguínea.”


Já o uso de maconha não oferece os mesmos riscos, lembra o psiquiatra. “Algumas drogas aparecem associadas à overdose. São a cocaína e heroína. O LSD e a maconha raramente ou quase nunca surgem em mortes por overdose”, explica.


O consumo excessivo de álcool, apesar de mais raro, também provoca overdose, embora o mais comum seja o coma alcóolico. “O álcool é uma droga que pode provocar overdose. O mais comum é o coma que é tão grave quanto. O uso de múltiplas drogas também leva a parada de órgãos no organismo e figura como overdose.”


Investigação


A Polícia Civil de Bauru vai investigar a morte do adolescente 17 anos, morador da Bela Vista, que chegou em sua casa passando mal e vomitando na última quinta-feira. Em seguida, ele morreu sem que houvesse tempo de ser socorrido. A mãe dele teria dito aos policiais que suspeitava que o filho fosse usuário de

drogas.


Em Ibitinga (90 quilômetros de Bauru), a morte de uma jovem de 20 anos que morreu nos fundos de um bar onde estava com amigos também será investigada. Segundo a polícia, a vítima passou mal e teve parada cardíaca, na noite desta quinta-feira.


Os amigos acionaram a ambulância e a jovem chegou a ser atendida no Pronto-Socorro, mas não resistiu. Somente a necropsia poderá comprovar se as duas mortes foram provocadas por uso excessivo de droga.

O que é a overdose?

Para que uma morte suspeita seja considerada overdose, é preciso que o consumo da droga seja além do tolerável pelo o organismo daquela pessoa. Cada um tem um limite, depende do peso, da função hepática e de vários fatores que limitam o uso da substância, explica o médico psiquiatra da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Edson Capone. “Depende de alguns itens, inclusive de como o fígado do usuário trabalha.”


Ele lembra que a dose excessiva para uma pessoa, pode ser normal para outra. “Quanto maior o uso, mais tolerância essa pessoa vai ter à substância. O usuário precisa usar doses cada vez maiores para alcançar o mesmo grau, o mesmo efeito sobre a mente que ela atingia antes com menores doses. Então, para ocorrer uma overdose ele tem que usar doses maiores do que normalmente está acostumado. Não há efeito cumulativo. Se ele usar de forma gradual por dia não terá, em tese, a overdose. Mas pode ter outros problemas”, alerta


Capone faz questão de frisar que há diferenças entre intoxicação aguda e overdose. “Na intoxicação aguda, o sujeito consome droga acima do tolerável pelo seu organismo. Passa mal, a frequência cardíaca e a pressão arterial ficam elevadas, mas nenhum dos órgãos para de funcionar.”


No caso da overdose, além do uso excessivo da droga, um ou mais órgãos param de funcionar. “Um órgão ou mais de um param de funcionar. É incomum. No Hospital das Clínicas de Botucatu recebemos muitos casos de intoxicação, raramente de overdose.”


Segundo o médico, não há um órgão que sinta mais rapidamente os efeitos da alta estimulação. “É muita estimulação, especialmente pela cocaína. Então, o sujeito pode ter um infarto do miocárdio, o rim ou o fígado pode parar de trabalhar. Em uma pessoa pode ser que o rim pare antes do coração. Depende da droga que está sendo usada, a via de administração. Não há estudos que comprovem qual é o órgão que mais sofre.”

O tempo de consumo é outro item que deve ser considerado para se configurar a overdose, enfatiza o médico. “É o consumo em grande quantidade em curto espaço de tempo.”