10 de julho de 2026
Cultura

A grande sacada de ?Xingu? são seus recados universais


| Tempo de leitura: 3 min

A cena mais marcante do filme Xingu é uma das últimas: mostra o encontro de Cláudio e Orlando Villas Bôas com o índio panará Sôkriti, fotografado por Pedro Martinelli, repórter do jornal O Globo, em 1973, entre o norte do Mato Grosso e o sul do Pará. O filme de Cao Hamburger reproduz a cena com fidelidade absoluta. O índio, que nunca havia contatado nenhum homem branco, se espanta com o volume da expedição, com o clique da máquina, com a imprevisibilidade do encontro.

Talvez, o índio Sôkriti simbolize um pouco da nossa reação ao filme. Também nos convertemos em seres primeiros, em homens originais, pertencentes a uma sociedade tradicional, quando precisamos nos confrontar com nossa origem, com nossa ancestralidade. A imprevisibilidade do encontro é a resposta que sintetiza Xingu. O encontro dos Villas Bôas com o índio, com o outro, com a divisa do novo mundo é também uma aproximação com um lado desconhecido de cada um de nós. A poesia do cinema mora aí. A do filme vai além: esse lado desconhecido se revela em cada segundo de exibição, em cada possibilidade do próximo frame.

Xingu prima pela fotografia perfeita, pela direção correta e pela atuação soberba de João Miguel, que interpreta um Cláudio Villas Bôas seguro em sua totalidade: um filósofo na floresta. João Miguel ofusca Felipe Camargo (Orlando) e Caio Blat (Leonardo), os globais mais conhecidos. Leonardo, aliás, recebeu uma tradução equívoca. No filme, ele é mostrado como um menino hesitante e emocionalmente franzino. Na vida real, Leonardo foi um homem muito mais complexo, muito mais vigoroso, um pai amantíssimo, não menos contraditório, o que não macula sua envergadura moral.

E é esse o ponto mais discutível do filme. Será que valeu a pena gastar tantos minutos com a vida amorosa dos irmãos? Será que essa vida amorosa foi, de fato, importante, para Cláudio e Leonardo? Leonardo pode ter se realizado como pai. Mas Cláudio nunca ligou para romance. Para o filósofo da floresta, essas “frugalidades” não tinham tanto significado como o filme tenta sustentar. Talvez, seus desejos tenham sido puramente instintivos. Mas, no cinema, acabaram recebendo tanta atenção quanto suas indagações interiores, suas inquietações existencialistas, sua natureza profundamente contemplativa.

Xingu traz recortes dos 30 anos dos Villas Bôas no, até então, insondável Brasil Central. Mostra Orlando acertando as dimensões do parque com o então presidente Jânio Quadros, e Cláudio enfrentando posseiros em defesa das terras indígenas. Fala quase nada da rica cultura xinguana, tão bem narrada pelos irmãos nos livros, o que é uma pena. Também comete alguns erros cronológicos e faz escolhas incompreensíveis, como a menção a Noel Nutels, médico da expedição Roncador-Xingu. Claro que a citação é nobre, porque ele foi importantíssimo para a missão, mas deslocada, porque o grande público não tem a menor ideia de quem é aquele doutor.

Mas isso é um detalhe. A grande sacada de Xingu são seus recados universais. Num tempo em que a crueldade e a intolerância assumem proporções assustadoras, a história dos irmãos que abandonaram tudo para se dedicar aos povos indígenas - e a lutar pela sobrevivência desses povos – deveria funcionar como uma inspiração. Os Villas Bôas não foram heróis, estão longe disso. Falharam muito e foram alvos de vaidades pessoais em vários momentos de suas vidas. O grande mérito dos irmãos foi ajudar a imprimir um novo destino aos índios brasileiros. Os Villas Bôas renunciaram a tudo em nome dessa bandeira. Por conta disso, Cláudio, Orlando, Leonardo (e mais tarde, Álvaro) acabaram desenhando uma nova maneira de conceber o indigenismo no mundo. Hoje, esse modelo está fora de moda. Mas a humanidade dos Villas Bôas continua atualíssima.