09 de julho de 2026
Articulistas

Muito papo, pouco verde

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Nas últimas quatro décadas, a Organização das Nações Unidas patrocinou conferências sobre o clima no mundo em Estocolmo (1972), em Nairobi (1982), no Rio de Janeiro (1992), em Johannesburg (2002) e agora em 2012 novamente no Rio, neste mês de junho. Entre uma conferência e outra, em 1997, sempre sob o estímulo da ONU, 160 nações aderiram ao Protocolo de Kyoto, rapidamente desmoralizado pela reação dos governos das nações desenvolvidas cuja produção de energia depende basicamente de petróleo e carvão.

Com todos os grandes "pedindo tempo", os resultados práticos foram pífios. Desde 1880, a temperatura média da Terra revelou grande variação. Aumentou em torno de 0,0042 graus centígrados até 1980 e acelerou-se para nada menos do que 0,0135 entre 1980 e 2010. Nos últimos 130 anos o aquecimento da terra foi de quase 1%, mas é difícil discernir se devido aos movimentos "naturais" ou do efeito antropogênico. Se considerarmos o pequeno espaço de tempo decorrido, é muito provável que o grosso do efeito seja mesmo derivado do aumento da atividade industrial do homem.

Isso impõe uma grande responsabilidade à Rio+20 da qual se devem esperar compromissos firmes para a mudança "verde" na produção de combustíveis e no esforço recobrado em tecnologias que reduzem a quantidade de energia por unidade de PIB. Apenas para dar um exemplo, a China que desde 2006 é a maior poluidora internacional (é muito rica em carvão), consome 2,5 vezes a energia por unidade de PIB com relação à média mundial e 4,5 vezes a consumida pelos países da OECD. Apesar de todo seu esforço antipoluidor, sendo a maior consumidora de energia por unidade do PIB, sendo o aumento de sua energia produzida pelo carvão e tendo a maior taxa de crescimento do PIB, é pouco provável que mesmo com um esforço gigantesco ela venha a contribuir significativamente para o objetivo de 2050. O mesmo acontece com os EUA.

A situação é ainda mais complicada quando consideramos que 16 cientistas publicaram no início deste ano um manifesto sob o título "Não há necessidade de pânico sobre o aquecimento global" (The Wall Street Journal, 26/01/2012) afirmando que não há "evidência incontroversa que esteja havendo um aquecimento global" e que "não há prova que o CO2 seja um poluente". Sugerem que podemos esperar mais 50 anos para ver como as coisas ficam!

O mesmo fenômeno, num nível diferente, explica a enorme disputa que cercou o Código Florestal aprovado no Congresso. Um discurso de surdos. O lado mais vocal supostamente apoiado numa "ciência" duvidosa defendeu interesses difusos e nem sempre honestos como os patrocinados por algumas ONGs. O outro, com mais poder político no Congresso, defendeu, sem sutilezas, seus interesses econômicos concretos. O Código tem pouco a ver com o aquecimento global e a tentativa de misturá-lo com a Rio+20 não ajudará em nada. Ele tem tudo a ver com o uso inteligente de nossos recursos naturais para continuarmos a construir uma economia sustentável e economicamente eficiente.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC