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João Rosan |
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A estrutura de organização e as metas a cumprir lembram bem a hierarquia e organogramas de um quartel. No entanto, a “guerrilha” em questão aqui tem outro fim.
Baseada nas armas do “faça você mesmo”, a faceta bauruense da rede Fora do Eixo - o Enxame Coletivo -, propõe realização de atividades culturais como instrumento de transformação social apoiada na cooperação mútua sem depender exclusivamente de boa vontade ou patrocínio alheios.
Desde a inclusão de uma banda do Pará no cenário independente de Bauru ou organização de uma mostra audiovisual na periferia, o grupo prima por atitudes sustentáveis e cooperativas em que o guitarrista que deu show no palco numa noite vai para a bilheteria no evento seguinte com a mesma empolgação.
Moeda interna como materialização de troca de favores entre artistas e realizadores, desenvolvimento de tecnologias e um primoroso esquema de comunicação também diferenciam o movimento social, cujo trabalho é detalhado nesta entrevista por seu agente de articulações políticas e planejamento em Bauru.
Jornal da Cidade - Afinal, o que é e o que pretende o Enxame Coletivo?
Artur Faleiros Neves - É um empreendimento cultural, com agentes e gestores conectados que trabalham na perspectiva da ressignificação de uma cadeia produtiva da cultura. Nossa principal missão é a articulação e produção cultural visualizada como uma ferramenta de conexão entre atores sociais. Integramos um circuito cultural e um movimento social conectado. Através de uma pauta, que é a cultura, trabalhamos por mudanças na sociedade.
JC - De onde vem a ideia do “enxame”?
Artur - O Fora do Eixo começou em 2006 pensando no contexto da “ressaca”, principalmente musical, a partir dos anos 1980. É casado com o advento da Internet e o surgimento do Napster, um marco para a indústria fonográfica. Nesse contexto, os festivais assumiram muita importância na cena musical e aí surgiu a Abrafim (Associação Brasileira de Festivais Independentes). A partir disso, em 2006, após um encontro em Minas Gerais, algumas pessoas perceberam que tinham ideias em comum e idealizaram uma rede de troca de serviços e tecnologia para baratear e até dividir os custos. Entre eles perceberam que poderiam trocar experiências e potencializar os projetos. A partir disso, foram gerados alguns escambos sociais, uma banda fazendo roading para a outra e vice-versa. Neste primeiro momento foi formado o Fora do Eixo, com uma banda de determinada região do país ajudando outra. Após congressos em Cuiabá e no Acre, em 2008, a principal discussão foi sobre o conceito de ser fora do eixo, vimos que era muito mais de vivência do que olhar para o mapa. Percebemos que tínhamos que ocupar o eixo Rio-SP, essa grande vitrine, e apresentar a proposta.
JC - E por falar em fora do eixo, São Paulo e Rio estão muito voltados aos próprios umbigos?
Artur - Na verdade todo mundo fala que a sua própria cidade tem esse tipo de problema, com bandas com rixa, casas de shows fechadas para bandas independentes, o conselho de cultura não funciona, etc. Esse chororô na verdade existe em todas as cidades. A questão é muito mais construir do que dizer apenas que as coisas não acontecem.
JC - Como Bauru foi inserida nesse mapa e ganhou o seu braço do Fora do Eixo, no caso, o Enxame Coletivo?
Artur - Foi quando o pessoal do Fora do Eixo percorreu umas vinte cidades do interior de São Paulo, de carro, fizeram uma palestra aqui na Unesp, em parceria com o Centro Acadêmico de Comunicação. A gente saiu de lá e formou (o enxame). O Fora do Eixo veio até nós e decidimos fazer junto, isso aconteceu no final de 2009. A partir daí começamos a estudar alguns textos de economia solidária. Engraçado é que a galera nunca gostou de estudar, nem textos da faculdade, não sabíamos direito o que acontecia. Começou com um cenário musical, ainda não tinha esse caráter de movimento social que tem hoje
JC - Você fala de mudança social e liga as gerações dos anos 1980 e 1990 a uma “ressaca” cultural, especificamente quanto à música. Mas o movimento do qual você faz parte, aos 22 anos, não corre o risco de ser taxado como “fogo de palha” estudantil?
Artur - Sou um agente do Fora do Eixo que atua em Bauru. Semana passada eu estava em Manaus, semana que vem no Rio de Janeiro. Hoje estou em Bauru, depois do Rio volto para cá e vou para São Paulo. Rodamos muito dentro da rede até mesmo para trocar tecnologia e conhecer novas coisas. Acho que a rede estimula a não ser fogo de palha e buscar novos desafios. Se eu sair de Bauru, por exemplo, hoje não é sair do movimento. Mas nesse sentido nós temos uma preocupação muito grande. Trabalhamos muito com sustentabilidade, economia criativa e economia solidária. Uma das coisas que a gente preza muito é pensar no processo e em continuidade. Dentro da nossa missão há projetos de formação, aproximação de novos públicos internos e externos e como estimular o fluxo de que o Enxame não são as pessoas. O que estimula são as propostas. Caso o Enxame um dia acabe, o que eu acredito que não aconteça ao menos em cinco anos, que a gente crie uma zona autônoma permanente que consiga trabalhar com uma movimentação no setor cultural e que deixe um rastro, para as pessoas absorverem as tecnologias. O que nos mantém é o desafio da construção e que nunca vai terminar porque a política cultural nunca está 100%.
JC - O legado é o que conta...
Artur - Não precisa ser como Enxame. Precisa ter continuidade. Por exemplo, se o Enxame terminasse hoje. O rastro que deixaríamos em Bauru seria com a música independente. Temos o Jack Music Pub, que é um grande parceiro nosso, e que trabalha com música independente de forma intensa e que, talvez, seja o único bar de Bauru que trabalhe desta forma. Outros bares também trabalham com uma banda ou outra (independente) mas priorizam muito o cover. O Jack prioriza o autoral. Nossa parceria com eles trabalha nesse sentido. Colocamos bandas de quase todos os Estados brasileiros para tocar na casa.
JC - Como organizar toda essa rede e logística?
Artur - Não somos produtores de grupos musicais. Somos parceiros e essa parceria não precisa ser contínua. Nesse sentido, existem milhares de bandas que se aproximam e construímos algumas plataformas, alguns softwares para facilitar isso. A gente constrói atualmente o software da música do Fora do Eixo que é um lance que vai facilitar muito o contato entre produtores e bandas, que se cadastram e colocam todo o seu perfil. A banda pode se cadastrar em eventuais oportunidades. Ano passado realizamos quase cinco mil shows no Brasil. E quanto mais espaços são abertos, mas bandas se empenham em fazer música independente. Só trabalhamos assim, não existe a proposta cover dentro de nosso movimento social.
JC - As outras gerações, principalmente nos anos 1960 e 1970, tinham no regime militar uma causa, um motivador para se mexer. O jovem de hoje não sofreria de uma certa alienação cultural, justamente por não ter algo contra lutar?
Artur - A nossa é o que chamamos de primeira geração livre. Nascemos numa democracia. Falamos muito de girar a chavinha fora do eixo. Até existem algumas coisas contra as quais lutar, mas não é o que vai mobilizar hoje. Atualmente as articulações da juventude não funcionam mais via protesto ou desconstrução. Estamos em vias de construção. Mas falta entendimento de como se insere num processo, qual o protagonismo e inserção política de cada um. O principal é entender a nobreza do termo política e principalmente saber como encontrar pautas comuns. Se temos algo em comum para caminhar, então vamos, depois a gente se divide, mas certos passos juntos a gene vai mais rápido.
JC - Como funciona o esquema de trabalhar e morar no mesmo ambiente?
Artur - Por mais que a gente more e trabalhe no mesmo lugar, por incrível que pareça, temos uma dinâmica online, até mesmo entre nós, muito grande. Primeiro porque é só parte da equipe, os quatro moram na casa, e somos em dois mil espalhados por todo o Brasil, e que Bauru é uma parte operacional do processo. Estamos sempre conectados, dando suportes, com mais de cem listas de email no Fora do Eixo, divididas por segmentos de trabalho e Estados. Cada frente de nosso organograma tem uma lista, são mais de 100.
JC - Mas e dentro da casa, desplugados, como é a organização de vocês?
Artur - Temos muitas ferramentas de sistematização online e off-line também. As ferramentas off-line são aquelas que a gente usa para se distribuir entre as tarefas cotidianas, quem faz o almoço, arruma a casa...Cada gavetinha tem uma etiqueta. Tudo é sistematizado para auxiliar nesse processo. Temos mais uma série de sistematizações online justamente para os projetos, com um coquetel de planilhas.
JC - Geralmente estudante de humanas, principalmente artes e comunicação, é rotulado como desorganizado. Mas vocês provam o contrário...
Artur - (risos) ...é um mito que cai. A sistematização, na verdade, é uma das maiores tecnologias que temos dentro do Fora do Eixo.
JC - E como viabilizar isso tudo financeiramente, o que são os conceitos de economia criativa e moeda social que vocês aplicam?
Artur - A moeda social faz com que a gente consiga trabalhar com as trocas. E elas não precisam ser equânimes, por exemplo, você investiu x em minha banda e eu tenho que me dispor do mesmo depois. É o Fora do Eixo Card, moeda complementar dentro da economia criativa e solidária.
JC - E o Festival Canja, qual o balanço que você faz?
Artur - O Festival Canja retrata um pouco do DNA do que é o Enxame Coletivo hoje. Começamos com o festival em 2010, como um evento de artes integradas e algumas questões ambientais envolvidas. Na segunda edição do festival já tivemos um apoio muito forte da secretaria de cultura, com uma estrutura no Vitória de Régia, palco, som e a prefeitura bancando um artista que veio de fora, o Emicida. Num dia tivemos 5 mil pessoas de público. Aí notamos que precisaríamos de uma linha editorial para o festival, um eixo temático que é a sustentabilidade, seja artística, política, econômica e também ambiental.
JC - E para a edição 2013, o que esperar?
Artur - Para a terceira edição, marcada para entre 27 de agosto e 2 de setembro, em diversos pontos da cidade com teatro, circo, dança, música, audiovisual, debates, oficinas, encontros e atividades na periferia, preparamos na temática “Artes Integradas, Economia Criativa e Sustentabilidade”. Pensamos em visualizar o festival como catalizador nesse processo na cidade. Ele é um exemplo de economia criativa, tem um orçamento de R$ 300 mil dos quais o fluxo financeiro não chega a R$ 70 mil. A gente tem mais de 60% do festival com moeda complementar. É um modelo sustentável de se construir. O que mais me estimula no Fora do Eixo é o modelo de construção, que está em constante transformação.
JC - Vocês enfrentam algum problema em mostrar essa nova proposta cultural e social?
Artur - Existe uma galera na cena há 15, 20 anos, ocupando vários espaços, com várias relações viciadas, um chororô de sempre reclamar. Em Bauru, temos uma política cultural, por mais que seja fraca, ela é muito mais avançada do que em outras cidades. Resumindo: estamos com disposição de fazer e corremos atrás para construir.