09 de julho de 2026
Articulistas

Os seios como arma política

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Marx e Lênin jamais imaginaram que os seios femininos pudessem ajudar no marketing dos seus ideais socialistas. No Louvre está exposto o famoso quadro de Delacroix (1798-1863), no qual uma mulher (Marianne) com os seios à mostra, barrete frígio e a bandeira da França na mão, pula uma barricada dos revolucionários para declarar que o povo derrotou a Monarquia e instalou a República. Marianne é a personificação nacional. Significa a mãe pátria, simultaneamente enérgica, guerreira, pacífica e protetora maternal. Análise sócio-política dos seios, desde Delacroix só havia lido em Gylberto Freire quando escreveu que o protótipo de mulher brasileira era a Sônia Braga, com "bunda grande e seios pequenos". Vejo agora, por ironia, a utilização do corpo como protesto a partir de Kiev, capital da Ucrânia, que foi uma das repúblicas socialistas soviéticas.
O movimento neofeminista é chamado de Femen, uma mistura de fêmea e homem, em ucraniano. Reúne uma centena de mulheres lindas, loiras de olhos azuis, marcas registradas dos povos eslavos. Elas saem às ruas com os torsos nus, seios firmes e os biquinhos eriçados pelo vento frio. Qualquer uma delas, pela beleza e corpos perfeitos arrumaria um bom casamento em qualquer lugar do mundo. Bastaria expor-se na internet. É triste ver pessoas capazes de encomendar mulheres pela rede social como se tivessem comprando sapatos. As mulheres de Kiev escolheram o caminho mais difícil. Exigem maior participação na vida pública, emprego honesto, equiparações salariais e reforma do sistema previdenciário. Em entrevista, Inna Schevchenko, criadora do movimento justificou que "ser uma garota na Ucrânia é muito difícil. Ninguém ensina às mulheres daqui que elas têm direitos e possibilidades... só há duas possibilidades de trabalho: ser professora e ganhar 200 dólares por mês, como minha mãe, ou ser puta e ganhar cem dólares por noite". Ela também vitupera contra o turismo sexual no seu país, sede da Eurocopa de futebol, com a Polônia: "a Ucrânia não é bordel".
Aqui também precisamos de pessoas que metam os peitos, invadam praças e prédios públicos para protestar, mesmo vestidas. Principalmente contra a corrupção. Os escândalos diários dominam a mídia brasileira e envolvem pessoas públicas. A sem-vergonhice dos que deviam dar exemplos à República até encorajou uma garota que usa o pseudônimo de Sara Winters, a sair com as mamas pintadas de verde-amarelo na Marcha das Vadias. O qualificativo "vadia" foi usado como parte do escracho. Os seios nus, pela primeira vez neste século deixam de ser apenas objetos do desejo masculino (e dos bebês, naturalmente), para se transformarem em arma política. Na França, outro dia garotas portavam cartazes em manifestação sob a Torre Eiffel ? "ni putes, ni sounises"(nem putas, nem submissas). O seio, símbolo da identidade feminina, aparece sem conotação sexual. Lembra aquelas mulheres corajosas que nos anos 1960 libertaram-se dos sutiãs queimados em praça pública. Não sei por que certas mães escondem os seios com um pano quando vão amamentar os filhos em público. Enquanto isso as bailarinas de Aché e a Gretchen ganham cachês para mostrarem as bundas saracoteantes. E há os que batem palmas.
Vivemos num pais dominado por forças conservadoras que sequer admitem abortos de anencefálicos. A cúpula sobre discussões ambientais Rio+20, será uma ótima oportunidade de mostrar que, se dependermos dos discursos o Planeta será frito no aquecimento global. Essas meninas da Ucrânia inspiram o mundo e merecem respeito pela ousadia. Gente que quer mudanças e encontrou uma maneira de ser ouvida. "Patético e surreal" é o mensalão, é o Cachoeira. Elas se arriscam para mudar a triste realidade. O ativismo nu foi a melhor ideia que alguém poderia ter criado neste século, precocemente envelhecido. As esposas dos guardas ucranianos obrigados a reprimir as manifestantes de seios nus, que tenham um pouco de paciência com seus maridos. Pela primeira vez eles começam a chegar em casa satisfeitos, apesar da "dura rotina de trabalho". Quem sabe também aquelas esposas, como as mulheres de Atenas, também se animam a aderir à causa do neofeminismo.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC