Com apenas 9 dias, a cabeleira de Lucas Gabriel Pedro já é vasta. Quando a mãe o acaricia, os cabelos desviados revelam duas pequenas marcas vermelhas. Pequenas marcas que poderiam ter resultado em uma tragédia. Quem vê o sono “pesado” do bebê não imagina que ele fora vítima de um atropelamento no dia anterior, no Parque Jaraguá, em Bauru. Para a família, foi um milagre, algo estampado no travesseiro da criança.
“Santo Anjo do Senhor/ meu zeloso guardador/ Se a ti me confiou a piedade divina/ sempre me rege/ me guarde/ me governe/ me ilumine”. Estes versos que precedem o “amém” estão estampados no pequeno travesseiro de Lucas. E, para quem viu o acidente, só a proteção divina pode ter salvo o garoto.
O atropelamento ocorreu no fim da tarde de anteontem na quadra 4 da sua Samuel Casali. Na ocasião, Jair Vieira, 46 anos, subiu na calçada com seu veículo Gol e atingiu o carrinho em que Lucas estava. De acordo com as testemunhas, o carrinho foi jogado a cerca de 10 metros. No teste de etilômetro, foi comprovado que o motorista estava com quantia de álcool no organismo dez vezes superior ao permitido.
A mãe do bebê, Débora Cristina Pedro, 16 anos, também foi atingida pelo veículo. Ela conta que estava indo ao mercado quando resolveu mostrar a uma amiga o filho nascido há pouco mais de uma semana. “Eu parei e mostrei o bebê. Pedi um copo d’água. Quando ela entrou para buscar, fomos atingidas. Nem cheguei a ver o carro”, relembra.
Com vários cortes nas pernas - um deles precisou de uma sutura de 10 pontos -, a jovem conta que tirou forças “do nada” para levantar e procurar a criança. “Quando abri os olhos, só pensava no meu filho”. Além da mãe e do bebê, outra adolescente também foi atropelada. Ela também teve ferimentos leves.
Choro
Débora Cristina Pedro relata que ficou desesperada ao ver que o carrinho de Lucas havia sido atingido. Entretanto, oito dias após ouvir o choro do filho pela primeira vez após o parto, foi este mesmo som que a acalmou. “Lá no fundo, eu escutei o chorinho dele. Mesmo com toda a preocupação, eu sabia que meu bebê estava bem. Aquilo me aliviou de um jeito que você nem pode imaginar”, completa. Em relação ao motorista Jair Vieira, responsável pelo atropelamento, ela conta que ficou revoltada. “Se fosse sem querer, né? Mas ele estava bêbado. É difícil perdoar”.
Ela ainda completa que tem medo do que o pai da criança pode fazer. “Ele está muito revoltado”. Apesar de namorar o pai de Lucas há cerca de 3 anos, ela não mora com ele. “Ontem, ele veio aqui e desamassou todo o carrinho. Estava muito nervoso”.
Carro foi incendiado por populares algumas horas após o atropelamento
O atropelamento do bebê de 8 dias deixou os moradores do Parque Jaraguá revoltados. Já anteontem, familiares da vítima e os próprios policiais tinham medo do que poderia ocorrer. Eles estavam certos. Horas depois do fato, o carro do motorista foi incendiado.
De acordo com o boletim de ocorrência (BO), era por volta das 19h quando o fogo começou. Segundo o registro, um grupo de pessoas entrou na residência e danificou o lado direito do carro, que estava na garagem da propriedade. O veículo foi incendiado, porém, o fogo foi contido por moradores.
Vizinhos confirmaram o incêndio criminoso ontem à reportagem do Jornal da Cidade, porém, alegam não saber quem foi a pessoa que deu início às chamas.
Ainda de acordo com o BO, o carro foi encaminhado ao pátio Bauru. Na tarde de ontem, a casa do proprietário estava totalmente fechada. Moradores das proximidades disseram que a família não ficou mais ali após o acicente.
Motorista foi solto
O motorista responsável pelo atropelamento, Jair Vieira, 46 anos, foi solto na mesma noite. Após ser constatada a embriaguez e o crime de trânsito, foi preso em flagrante. Porém, foi arbitrada a fiança em R$ 690,00, que foi paga. O titular do 1.º DP, Dinair da Silva, afirmou que o motorista ainda não foi ouvido. Isso será feito nos próximos dias. “Além dele, iremos ouvir mais algumas pessoas”.