09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Ricardo carrijo

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 12 min

João Rosan

‘Meu mundo é Bauru’

Ricardo Carrijo ocupa uma posição profissional que o leva para várias partes do Brasil e do mundo. Carrijo onde vai a passeio ou a trabalho leva aquele jeito do menino que brincava às margens do Córrego das Flores, em um tempo quando o curso d’água corria ao ar livre na direção do Rio Bauru, e onde hoje é o Centro Cultural e avenida Nações Unidas.

“Bauru é a cidade onde eu nasci, que amo e que eu adoro. Bauru é a capital do mundo para mim. Embora eu viaje, trabalhe e tenha rodado mais de 25 países, aqui é o meu mundo”, define Carrijo.

Ele nasceu na Vila Antártica, atualmente denominada Vila Cardia, onde morou na residência 1-30 da rua Guarani, próximo à Tilibra, onde trabalha.

Por sua trajetória, o bauruense Ricardo Carrijo receberá a Medalha “Custos Vigilat”, concedida pela Câmara Municipal de Bauru, em cerimônia no dia 22 deste mês, às 20h, na sede do Legislativo. O autor da homenagem é o vereador tucano Marcelo Borges. “É melhor do que virar placa de rua. Porque você recebe uma homenagem da Câmara Municipal, que é um dos Poderes da cidade, em vida por aquilo de bom que você fez pela sua cidade”, comemora. 

Ele é casado com Ângela Teresa há 31 anos, porém a convivência já chega a 36 anos. Carrijo define a esposa como companheira inseparável. “É um grande apoio na minha vida. A Ângela abriu mão da atividade profissional dela, porque tivemos que equilibrar. Eu trabalhando o dia todo e lecionando à noite, ela acabou assumindo a responsabilidade pela condução da casa e da educação dos filhos. Com ela me sinto extremamente feliz e realizado por ter dois filhos maravilhosos e educados. Que são orgulho para mim como pai”, ressalta Carrijo.

Na sequência os principais trechos da entrevista concedida ao JC ele fala dos dissabores na militância política, o prazer vivido na participação comunitária na comunidade católica, no Carnaval bauruense, profissional e na vida como professor universitário e palestrante em que concilia a vida acadêmica com a prática profissional adquirida durante 38 anos de serviço na Tilibra, em que, atualmente, ocupa o cargo de gerente de relações institucionais. Carrijo é professor do curso de marketing da ITE e do curso de administração da USC em várias disciplinas. Trabalha no programa de pós-graduação da Unesp. Ele é avaliador institucional de cursos do MEC/Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (Inep). Também tem especialização em gestão empresarial e Total Productive Maintenance (TPM), no Japan Plant Institute Of Maintenance (JIPM)

Jornal da Cidade – Como que o basquetebol entrou na sua vida?

Ricardo Carrijo – Fui aluno das escolhinhas do Luso. Lá havia uma pessoa extraordinária e que me ajudou muito na formação o saudoso professor das escolinhas de basquete Flávio De Angelis, que nos ensinou disciplina, trabalho em equipe e sempre buscar causas coletivas. Acabei absorvendo aqueles valores. Tínhamos um grupo de amigos que muitos anos depois acabaram se juntando e fundando as bases do Bauru Basket. O José Martha, o Caio Coube Vinícius, Rodrigo, Juninho Horta e Vitor Jacob (Vitinho). Uma série de pessoas que depois de anos, na faixa dos 40 e 50 (anos de idade), que fomos da escolinha de basquete e disputamos o Campeonato José da Silva Martha. Eu joguei no time do Barbosa e tenho orgulho de ter sido treinado pelo Barbosa, no Sesi C. Depois fui treinado pelo Caetano dos Santos Neto, outra pessoa muito importante como treinador de basquete, no Senac. Caetano foi campeão brasileiro pelo time de Lençóis Paulista. Outro professor que me ajudou muito foi o Nuno Cobra, que foi guru do Ayrton Senna, e passou acho que dois anos da vida dele aqui em Bauru. Ele foi meu professor no Instituto de Educação. A educação física e o esporte sempre me ajudaram muito na formação da minha base moral, intelectual e de ideiais de vida.

JC –  Como é sua participação muito ativa junto a grupo da Igreja Católica?

Carrijo – Na década de 70, eu participei ativamente da coordenação diocesana no Movimento Escalada, que era muito forte e veio na esteira do Concílio Vaticano II. Fui da coordenação da comunidade de jovens da Catedral do Divino Espírito Santo, orientado pelo saudoso padre Ivo Martinelli e pelo Dom Cândido Padin. Era um grupo muito forte que lançou os movimentos da Pastoral da Juventude. Até hoje ajudo no curso de noivos com minha esposa e na própria comunidade da Catedral, onde eu atuo como ministro da eucaristia. Frequento a Catedral desde 1973 e acho que sou um dos paroquianos mais antigos e sempre com regularidade, em todos os finais de semana. Participei durante 15 anos da Comissão Justiça e Paz da Diocese de Bauru em uma experiência fantástica, com Dom Cândido Padin, uma cabeça iluminada e um bispo extraordinário. Depois com Dom Aloysio José Leal Penna.

JC – Como foi a sua entrada para a política inserido na comunidade da Igreja Católica?

Carrijo – Nesse período acabei saindo um pouco para a política porque achava que a intervenção social era importante, ter um mandato e atuar. Incentivado pela movimentação da Igreja Católica acabei entrando para a política. Fui eleito vereador de 1988 a 1992 pelo PSDB e secretário da Câmara por dois anos. Carrego um pouco no DNA da política porque meu pai Guilberto Duarte Carrijo foi vereador na época do prefeito Alcides Franciscato, no primeiro mandato e quando vereador não era remunerado e era um trabalho voluntário. Depois foi vereador no período do prefeito Luiz Edmundo Carrijo Coube. Em 1976, eu disputei minha primeira eleição, com 19 anos. Meu pai adoeceu durante o mandato. Quando fui terceiro suplente e acho que tive 830 votos.

JC – Como é a formação do seu clã de políticos?

Carrijo – Teve a influência dentro de casa não só de meu pai.  Meu tio-avô Capitão Gomes Duarte (José Gomes Duarte prefeito de 1926 a julho 1929). O prefeito Edmundo Carrijo Coube também é da família. Meu avô dentista José Nogueira Carrijo foi um comunista ativo. Foi preso e era uma das cabeças mais articuladas do Partido Comunista, na década de 50. Minha avó por parte de pai, Dulce Duarte Carrijo, foi ativista político. Sempre tive exemplos dentro de casa de que era importante participar da política. Juntei a herança genética com a necessidade de ação social da igreja e fui parar na militância política.

JC – Distante das disputas, como você avalia as batalhas eleitorais que você travou?

Carrijo – Disputar mandato para mim acabou sendo uma coisa muito desgastante. Disputei 1992 em uma coligação impensável até hoje. Eu era candidato a prefeito pelo PSDB e Luiz Freitas, do PT, vice. Demos um calor danado no então deputado federal Tidei de Lima, que tinha, se eu não estiver enganado, quatro mandatos e tinha sido secretário estadual da Agricultura do governo Quércia (Orestes Quércia, ex-governador do Estado de São Paulo). Enfrentamos a eleição com pouquíssimo recurso financeiro. Foi a primeira que se utilizou da TV e tivemos que fazer uma mágica para colocar nossos programas no ar. Foi o momento dos caras pintadas. Às vésperas da eleição de 1992 houve a queda do Collor (o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello ocorreu em 29 de setembro de 1992, em sessão extraordinária do Congresso Nacional). Com bom discurso e uma boa proposta, nós conseguimos arrancar praticamente do zero e ser o segundo colocado na eleição. Se tivesse dois turnos naquela eleição, eu tenho dúvida se a gente não teria conseguido um resultado melhor. Acabou ganhando o Tidei. O saldo daquela eleição foi uma coligação muito positiva e nós elegemos um grande número de vereadores.

JC – Por que não conseguiu emplacar candidatura dois anos depois para tentar a Assembleia Legislativa?

Carrijo – Em 1994, eu seria um candidato natural a deputado estadual. Mas eu não soube administrar internamente dentro do partido esse capital eleitoral que eu tinha. Tinha quase 24 mil votos e, com pouco mais de votação na região, me daria a vaga. Acabei sendo derrotado em uma prévia interna. O PSDB acabou não elegendo deputado estadual e só tínhamos o Tuga Angerami deputado federal naquela época. Voltei para ser candidato em 1996. Fiz uma coligação com o PTB do ex-prefeito Osvaldo Sbeghen, uma pessoa também extraordinária. Fomos segundo colocado na eleição com o Izzo (ex-prefeito Antonio Izzo Filho). Só que a eleição com o Izzo foi de muito desgaste. Foi a segunda eleição com TV e com poucas regras de uso da TV. Fizemos um bom resultado. Mas todo processo político daquela eleição para mim, até do ponto de vista pessoal e da minha família, foi desgastante e até triste. Você se coloca como candidato do ponto de vista idealista e acaba enfrentando algumas agressões totalmente desnecessárias. Falei que não queria mais ser candidato mas aí, em 2000, fui convidado pelo Pedro Tobias para sair candidato a vice-prefeito. Acabamos ficando na terceira colocação. Nesses últimos 12 anos, venho participando dentro do partido. Ocupei coordenação regional, ocupei cargos no partido como presidente. Ajudei a construir os planos de governo do Caio Coube, nas duas últimas eleições. Caio me ajudou muito nas minhas  eleições.     

JC – O que acontece com o PSDB que, agora, não tem candidatura para prefeito?

Carrijo – Quando você disputa eleição pode ganhar ou perder. Eu me senti vitorioso na eleição de 1996 porque depois que o prefeito Izzo foi cassado, eu fiquei meio como prefeito moral (risos). As pessoas me encontravam na rua e falavam: “devia ter votado para você”.Temos que mudar o perfil do nosso candidato. Vamos disputar com a Chiara Ranieri (DEM) uma candidata jovem e mulher, o que é uma novidade em Bauru. Ela tem vários atributos. Ela está somando com um quadro do PSDB excepcional que é o doutor Gilson Rodrigues Lima. Ele é negro e tem uma identidade racial muito forte. Um sujeito que tem um trabalho voltado para o esporte há muitos anos. Vamos batalhar para ganhar. Não tem eleição ganha. Acho que dá azar ganhar eleição na véspera. Hoje, o governo estadual tem uma política salarial mais justa para com os trabalhadores estaduais. A gente sabe que o problema dos professores estaduais não foi resolvido, mas já melhorou muito em relação há anos atrás. O quadro para essa eleição pode dar uma surpresa para muita gente.

JC – Como atua o Carrijo ambientalista?

Carrijo – Eu participo de movimentos ambientais. Colaboro no Instituo Ambiental Vidágua há quatro anos como conselheiro. Sou membro do Conselho Estadual de Recursos Hídricos, representando o Vidágua. Participo da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), regional Bauru. Sou o vice-presidente para essa região coordenando 89 cidades.

JC – Você também é um folião de Escola de Samba.

Carrijo – Participo do Bloco Pé de Varsa há três anos. Meu pai dá o nome ao Sambódromo de Bauru. Meu pai sempre foi carnavalesco, minha mãe e minha família. Meu pai trabalhava na Coca-Cola e foi coordenador do Carnaval durante muitos anos em Bauru. E com a imprensa, com o jornalista Tobias Ferreira, eles organizavam os desfiles. Desde pequeno fui inserido. Por volta de 1976, por conta da minha amizade com o pessoal da Vila Falcão. A família Matos e a família Araújo, eles me convidaram para ajudar a formar a Mocidade Independente.  Fui diretor e presidente em 1982, 1988 e 1989. Desses 20 anos que eu participei de 1976 a 1996, nós ganhámos 13 títulos, seis vices e um terceiro lugar. Me considero um campeoníssimo do Carnaval de Bauru. Agora estou seguindo no bloco Pé de Varsa. Me orgulho de já ter sido bicampeão dos blocos nos últimos dois anos. Desfilo com minha família, meus filhos e minha mulher.

JC – Com suas experiências ao redor do mundo como você pensa a reclamação de que o Brasil passa por uma desindustrialização?

Carrijo – Mas não vejo isso com muita preocupação. A sociedade do século XXI é uma sociedade menos de produto e mais de serviços. No século XX vivemos uma neurose de consumo com todo mundo querendo comprar seu carro, seu fogão, sua geladeira. Você compra um, compra dois e três, mas existe um basta. Não precisa de quatro aparelhos de TV na sua casa. Talvez dois bastem. Você não precisa de três automóveis. No século XXI estamos vivenciando uma virada de consciência do ser humano em relação ao alto nível de consumo de produtos industrializados. O livro “O Mundo é Plano”, do articulista do New York Times Thomas Friedman, pensa esse mundo globalizado, em que as camadas mais simples estão tendo maiores condições de renda e consumo. E as camadas mais elevadas estão perdendo um pouco do seu poder aquisitivo. Então vamos ter um mundo mais justo e equilibrado. Eu não concebo que no Ocidente tenha gente morrendo de infarto e overdose de calorias e na África, gente morrendo de fome. Precisamos tirar uma média. Precisamos lutar por esse mundo plano e que está acontecendo em função de vários fenômenos. No livro, Thomas Friedman coloca a queda do Muro de Berlim (1989), o avanço da Internet e os processos que ele chama de walmartização do varejo, os processos de terceirização, de se transferir estruturas de produção de países desenvolvidos para países em desenvolvimento. É um movimento inexorável e nós não conseguiremos deter e teremos que nos adaptar. Cada cidadão tem que pensar como se adaptar.  

JC – Bauru então está na vanguarda se pensarmos em economia diversificada?

Carrijo – Sim temos ótimas indústrias. A Kraft Foods, as baterias Ajax, Tudor, o setor alimentício, o setor gráfico. Bauru tem a sorte de ter uma economia melhor distribuída. Porque sempre foi uma cidade com a vocação para prestação de serviços por ser um polo regional. Não podemos esquecer que o Interior de São Paulo virou um grande canavial, por conta do álcool que é o petróleo do século XXI. Estamos cercados de cana de açúcar e essas cidades em volta de Bauru se desenvolveram e acabaram se beneficiando do centro prestador de serviços que é Bauru, com faculdades, bom comércio, hospitais, uma boa estrutura de lazer e entretenimento. E o fato de termos um parque industrial diversificado por setores, nós acabamos não sofrendo muito com a crise. É o equilíbrio entre serviços e indústria que mantém essa dinâmica e empurra a cidade para essa vocação natural.

Perfil

Nome: José Ricardo Scareli Carrijo

Idade: 55 anos

Esposa: Ângela Teresa

Filhos: Gustavo, de 29 anos, Daniele, de 27 anos

Hobby: Participação comunitária e leitura

Livro de cabeceira: O Mundo é Plano, do jornalista norte-americano Thomas Friedman

Filme preferido: Iron Will – O grande desafio

Estilo musical: Samba e MPB

Time: Santos F.C.

Para quem dá nota 10: Para as pessoas que cuidam do social como dona Olga Bicudo, seo Sebastião Paiva e o bengalês Muhammad Yunus

Para quem dá nota zero: Corruptos

E-mail: ricardocarrijo@uol.com.br