08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Cozinha caipira


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Ao findar o dia 18 de maio de mil novecentos e vinte e sete, a soturna noite foi refrescada por uma brisa leve e fria que foi entendida como prenúncio de um inverno rigoroso pelos moradores das cabeceiras do rio Sucuri, no município de Pongaí. O rigor da frente fria provocara chuva na região, as goteiras que caiam do telhado do velho casarão de madeira serviam de acalento para o casal de idosos Isael e Cotinha, que em sono profundo se refaziam de mais um dia de trabalho. Incentivado por emigrantes japoneses, seu Isael passou a arrendar parte de seu sítio para plantadores de algodão que naquele ano lhe rendera lucros nunca antes conseguido com a lavoura de subsistência por ele praticado. A notícia correu pelas vizinhanças e seu Isael passou a gozar status de um pequeno fazendeiro.

A ausência de meios de transporte próprio da época e o comodismo dos caboclos os obrigavam guardar suas economias embaixo do colchão. Com a previsão de um fluxo maior de dinheiro, o sr. Isael começou a ensaiar para breve uma ida até Pirajuí para abrir uma conta corrente no Banco do Brasil, já que Pongaí não dispunha desse tipo de estabelecimento. Enquanto não ia à cidade para fazer o depósito, seu Isael procurava de várias formas proteger suas economia, pois sabia que os lucros obtidos com a venda do algodão estavam despertando a atenção de muitos vizinhos.

Sabendo que ratos e traças podiam lhe causar enorme prejuízo, não se sentia seguro guardando seu dinheiro na gaveta ou sob o colchão. Em sua matreirice de caipira, foi criativo e original ao escolher um lugar seguro para guardar seu dinheiro até que pudesse ir ao banco para depositá-lo: foi enrolando maços de notas em forma de charuto colocando-os no cano de um velho garruchão, tampou o cano com uma ponta de sabugo e dependurou atrás da porta do seu quarto, foram quatro charutos de cédulas de grande valor daquela época, que se somava uma pequena fortuna.

Alguém já informado sobre a existência do dinheiro e que o casal de velhos moravam sozinhos, viu aí a possibilidade de um roubo fácil e rendoso e mesmo embaixo de chuva dirigiu-se para o velho casarão e de posse de uma faca de lâmina fina e comprida a fez correr em uma fresta entre a rústica porta e o batente da mesma, girando uma taramela que escancarou uma grande e escura cozinha onde uma manta de toucinho e alguns gomos de lingüiça de porco defumavam sobre o embatumado fogão a lenha de onde exalava seu cheiro por toda a cozinha que, somado ao cheiro forte que vinha da tábua de queijo curado, dava uma atmosfera toda própria àquela cozinha, através da qual o larapio teve acesso ao corredor que o levou até o quarto, pois sabia que ali encontraria o que buscava.

Mesmo tomando muito cuidado para não fazer barulho, o abrir de gavetas e remexer em papeis parecia muito barulhento naquele ambiente silencioso. Após alguns minutos de procura, o ladrão ouviu alguém se mexer na cama e emitir alguns sussurros. Como sabia que seu Isael era sonâmbulo, resolveu tirar proveito e arriscou uma pergunta. - Onde está o dinheiro do algodão? Mesmo dormindo respondeu corretamente: - Está no cano da garrucha. Pensando tratar-se de uma reação armada, o ladrão fugiu na escuridão da noite deixando como denúncia as gavetas remexidas, levando como lembrança apenas o agradável cheiro de uma cozinha caipira.

Lázaro Carneiro