09 de julho de 2026
Ciências

Universidade: pesquisar ou formar pessoas?


| Tempo de leitura: 3 min

A universidade foi criada com um único objetivo: formar cidadãos muito mais preparados do que a maioria para analisar criteriosamente os problemas e necessidades, julgar e propor decisões em que a comunidade se beneficie de sua sabedoria. A essência da universidade está em formar pessoas com capacidade de análise e realização, com senso crítico e plena consciência de sua condição humana e social!

A universidade não existe para prestar serviços à comunidade como atender pacientes. Ela não existe para formar e treinar profissionais exímios. Da mesma forma, não foi criada para pesquisar e criar patentes. A essência está em formar pessoas pensantes e críticas. Se para formar um cidadão crítico e analítico deve-se ter atividades de ensino, pesquisa e prestação de serviços como ferramentas, que se tenha, mas sem estabelecer como fim o cumprimento de metas e objetivos ambiciosos nos níveis governamentais e empresariais.

Em alguns países, e também no Brasil, existe uma rede de institutos de pesquisas dos quais se deve cobrar produtividade, número de marcas, patentes, registros e muita criatividade na aplicação de tecnologias. Existem o IPT, ITA, IME, Butantã, Osvaldo Cruz, Lauro de Souza Lima e muitos outros distribuídos pelo país.

Da universidade deve-se exigir que formandos saiam cultos, com capacidade na expressão oral e escrita, com senso crítico e analítico, criativos, consciente do seu papel na sociedade enquanto cidadão e principalmente comprometidos com o aperfeiçoamento da comunidade. O indivíduo que frequenta a universidade deve sair consciente em servir ao país e não ter a ideia de que a sociedade deve se adaptar a ele. O coletivo deve prevalecer!

Infelizmente tudo foi se misturando e a produtividade numérica, mas não qualitativa, da pesquisa passou a ser o único critério de avaliação se a universidade é boa ou não! Chegou-se ao ponto de professores e universitários não se importarem se as aulas são boas ou não, o que importa é a iniciação científica, trabalhos para ganhar bolsas. O importante para ser bem avaliado, é publicar!

Quantos ganham seus títulos e nem sabem porque chamam-nos de mestres e doutores. Os mestres são os habilidosos, que fazem bem feito, treinados quase à perfeição como o mestre-cuca, mestre-cervejeiro, mestre de obras e outros. São os másters, os mestres, os maiores, os melhores em suas artes de fazer. Os doutores são os "doctors", os doutos, os que sabem tudo sobre uma doutrina, são necessariamente eruditos, sabedores, filósofos de raciocínio rápido e vasto conhecimento com profundidade. Fora deste conceito: são títulos, meros títulos!

Infelizmente na universidade brasileira diz-se aos professores recém contratados: não percam tempo preparando boas aulas, o que vale são publicações, deixe a graduação, não a priorize, é perda de tempo. Em outras palavras dizem: formar cidadão pensante, criativo com capacidade de comunicação e interação com os demais, pouco importa! Abaixo a essência da universidade.

Questionamento atual

Atualmente está em pauta o que seria uma boa universidade e um bom professor! O ex-reitor da USP Roberto Leal Lobo e Silva Filho em homenagem post mortem a Almir Massambani como seu melhor professor afirmou: "formar profissionais e novas lideranças pode exigir produção, aplicação e divulgação de novos conhecimentos, mas para ensinar bem e preciso preparo específico. Caso contrário as instituições não deveriam ser universidades, mas centros ou institutos de pesquisa."

Em seminário de gestão acadêmica, o pró-reitor de Pesquisa da USP, Marco Antônio Zago, afirmou: "estamos numa encruzilhada, ou viramos universidade de pesquisa ou de ensino. O Brasil tem 6 ou 7 universidades que pesquisam, as demais são de ensino terciário".

Nos dois tipos de universidade, a maioria dos profissionais são formados e nem sabem se comunicar, nem têm profundidade de conhecimento para pesquisarem independentemente e quase sempre não conseguem se instalar no mercado de trabalho sem antes frequentarem cursos de especialização ou treinamento. Talvez por isto o número de doutores formados a cada ano está caindo assustadoramente! Para Zago, as carreiras dos professores nas universidades não deveriam centrar-se na figura de um simples pesquisador, mas na de um verdadeiro professor.

O verdadeiro professor universitário ensina o aluno a ser consciente de sua condição humana e social: ... e quantos você conhece?