08 de julho de 2026
Articulistas

Onipresente

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Um dia, a inglesa Bridget Driscoll, de uns quarenta anos, caminhava com a filha adolescente pelos pátios do Palácio de Cristal, em Londres, quando, perto dali, Arthur Edsall demonstrava uma nova máquina que pertencia à empresa anglo-francesa Motor Car. Em um acidente nunca antes visto, Bridget foi atropelada por Arthur dirigindo um recém-inventado automóvel à tremenda velocidade de seis quilômetros por hora. Em 17 de agosto de 1896, Bridget se tornou a primeira vítima fatal de um acidente de automóvel. Nos registros, o inspetor de Polícia que investigou o caso assinalou que: "essa situação tão terrível não poderia acontecer nunca mais". A invenção do carro nos deu liberdade, uma viagem relativamente rápida e confortável, como consequência, além de poluir o meio-ambiente, ceifa a vida de milhares de viajantes ao longo do ano. Porém, se estivermos procurando alguém para culpar pela introdução de uma máquina tão mortal, teremos dificuldades.

A história dessa máquina começou por volta de 5.500 anos atrás, quando os sumérios tiveram uma ideia que mudou o mundo para sempre: a roda. Mas as rodas sempre precisaram ser puxadas por alguém com, pelo menos, duas pernas. Outro evento que merece destaque fez com que as rodas ficassem mais fáceis de serem puxadas: a pavimentação das estradas durante o império greco-romano. Lá pelos idos de 1400, Leonardo da Vinci desenhou um veículo autopropulsor, mas, como tinha muitas pinturas para fazer, essa sua concepção nunca saiu do papel. No início do século XVIII, com os mecânicos Thomas Newcomem e James Watt e com o movimento alternativo transformado em circular, a máquina a vapor tornou-se capaz de acionar qualquer engenho. Foi então que, em 1770, na França, Nicolas Cugnot teve condições de projetar e construir uma espécie de trator usado para puxar equipamentos militares a quatro quilômetros por hora e, logo depois, uma carruagem de três rodas, para três passageiros que se acomodavam atrás de um reservatório de água, de uma barulhenta caldeira a vapor e ainda por cima, arrastando lenha. Mesmo a passo de lesma, no ano seguinte, Nicolas conseguiu atingir a parede de pedra de uma residência, tendo assim a honra de causar o primeiro acidente de carro.

Até que, em 1876, o alemão Nicolaus Otto, caixeiro viajante que vendia chá, café e açúcar, talvez premido pelas distâncias através das quais tinha que arrastar os sacos de café, inventou o primeiro motor prático de combustão interna movido a petróleo. Apesar de tê-lo instalado em um veículo de duas rodas, produzindo assim a primeira motocicleta, seu motor foi o precursor dos futuros motores de carro.

Alguns anos depois, em 1885, o engenheiro mecânico Karl Benz inventou o primeiro automóvel e o dirigiu pelas ruas de Manheim, Alemanha. A patente para o seu veículo, com dois lugares e três rodas, é considerada a certidão de nascimento do carro. Mas, no ano seguinte, Gottlieb Daimler, que trabalhava na empresa de Nicolaus Otto, além de aperfeiçoar o motor de combustão, instalou-o em uma carruagem e fabricou o primeiro carro com quatro rodas. Henry Ford não inventou o carro, mas ficou conhecido por levar o carro às pessoas quando fundou a fábrica de motores Ford em 1903 e, mais precisamente, quando, em 1908, idealizou e iniciou a produção do Ford Modelo T. Em 1913, com a introdução da linha de montagem com uma correia transportadora móvel, fez com que o Modelo T fosse montado em apenas 93 minutos, muito mais rápido do que as 12 horas que levava anteriormente. Entre 1908 e 1927, quando encerrou a produção desse modelo, a Ford havia fabricado perto de 16 milhões de carros. Pouco mais de cem anos após o início da fabricação do Modelo T, o número de veículos em circulação no mundo supera a marca de um bilhão, isto sem contar as motocicletas. Se até os anos 70 a indústria automotiva se concentrava nos Estados Unidos e Europa, hoje outros países seguem o mesmo caminho: Japão, Coréia do Sul, México, Brasil, China e Índia, de tal forma que, segundo especialistas, teremos dois bilhões de veículos "circulando" em 2036. Se hoje o carro já está em toda parte, em 2036 como ficará nosso trânsito?

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp ? câmpus de Bauru