09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Olho clínico é o "apartheid" do policial


| Tempo de leitura: 3 min

Parado num "Comando" da Polícia Militar, nas cercanias do Shopping Center, na última sexta, 15/06, por estar com a documentação do veículo conduzido por mim vencida há um ano, algo creditado como irrefutável para ter o mesmo guinchado, bastou-me permanecer no local a observar o trabalho policial até a remoção do meu meio de locomoção. Nesse período, aproximadamente 20 minutos, algo a comentar e o fiz para o policial que me entregou a documentação da multa e do guincho. "Vocês só abordam carros velhos?", disse. Causei espanto. Não para mim. Outros entraram na conversa, não me convenceram e a nítida constatação, demonstra certa previsibilidade, junto a certo grau de preconceito embutido na ação. Feita a olho clínico por um deles, plantado no início da blitz, o critério "principal" é o de apartar os veículos que na sua visão devem se enquadrar nas suas estatísticas como tendo a maior probabilidade de apresentarem problemas na documentação, consequentemente na conservação do veículo. Muitos passavam incólumes e a maioria destes, com absoluta certeza, eram veículos mais novos, os do tipo "zero km".

O espírito predominante me deu a impressão de uma máquina registradora. Se existe o "olho clínico" do lado de lá, existe também do lado de cá. Quem toca a vida com dificuldade, tem sempre seus problemas ampliados e em alguns casos, quem patrocina a "fiscalização" é também alguém na mesma condição, só que, naquele momento investido de "autoridade". O policial raso é tão explorado, como a grande maioria dos que tiveram problemas naquela noite. Só que ele, investido desse poder (acatando ordens superiores, claro), reproduz a exclusão, pois aborda uns e deixa de fazê-lo com outros. Não tentem me provar o contrário, pois tudo o que virá é conversa fiada.

O que quero dizer com tudo isso. Simples. Existe embutido no seio do órgão que faz a fiscalização de nossas ruas, seja no caráter trânsito, violência urbana, abordagens nas ruas, etc, uma premeditação de quem possua o estereótipo "problemas à vista". É o pobre. Não entendam isso como crítica e sim constatação (também visual). Algo está errado no nascedouro, nos cueiros educacionais de quem forma o elemento para agir nas ruas, pois lhe embute, talvez até de forma inconsciente, esse "apartheid" social. E o mais abastado é tão ou mais infrator que o menos abastado. Porém, nada a estranhar numa polícia que todos sabem ser o braço armado do Estado, pago para defendê-lo e como ele o é o maior propagador da diferenciação de classes, nada mais normal de que um dos órgãos fiscalizadores tenha como linha mestra o mesmo procedimento.

Sempre foi assim, desde os princípios da Polícia Militar. Isso é histórico (muito antes do tempo em que o Dondon jogava no Andaraí) e serve como bom motivo de debate e observação. Querer que a atuação policial atue de forma diferente, com seu leque de visão abrangendo indistintamente todas as camadas sociais é pedir demais dentro da vigência de um Governo excludente e patrocinador da exclusão. Um sendo cabo de transmissão do outro, nada mais justo que um seja a cara do outro. Mudar isso? Como diria uma celebre música, o "problema é o regime". Isso é inerente ao capitalismo, unha e carne. Finalizo com dois exemplos concretos do que relatei.

No primeiro, uma senhora teve seu velho veículo guinchado essa semana somente pelo fato da placa estar com a tinta apagada, mas dias antes havia sido multada num radar fotográfico. Para a multa é legível, para o "olho clínico" do arrecadador não. Por fim, dias 21 e 22/06 teremos leilão da Ciretran de Bauru e dentre os 1.300 veículos arrolados, imagina quantos são novos?

Henrique Perazzi de Aquino