Em uma cidade pobre havia um advogado de família abastada, muito inteligente e competente como profissional. Nesta mesma cidade havia um padre que não era muito inteligente, mas bastante esforçado, que não possuía paróquia por opção, pois havia estudado os documentos do Concílio Vaticano II. Este padre também procurava fazer a ligação entre a mensagem do Evangelho e as situações do mundo em que vivia, afinal, uma função essencial da religião sempre foi o de ser uma força ética na sociedade contribuindo, não com imposições, mas com reflexões, para a humanização de nosso mundo. Um dia esta cidade acordou com o escândalo de uma denúncia de abuso sexual em uma família. O advogado, como era de sua competência, assumiu a causa das supostas vítimas e começou a trabalhar no caso. Depois de algum tempo, o padre acima citado chamou atenção da comunidade de que a opinião pública não pode condenar uma pessoa antes de um processo judicial, antes que um juiz venha a fazê-lo. O padre, que sempre foi pelo Estado laico, defendeu o papel da justiça e condenou a leviandade que acontece na sociedade de se condenar uma pessoa antes mesmo que ela seja julgada. Afinal, o processo ainda estava em andamento e a sociedade não possuía acesso a todas as informações. A homilia do tal padre ficou registrada em vídeo tanto no youtube como em seu site. O advogado, então, se manifestou por escrito dizendo para o tal padre se calar.
O padre não compreendeu a manifestação do advogado (talvez por não ser tão inteligente quanto o advogado) e se perguntou se o profissional havia mesmo escutado a sua homilia. Mais ainda, o padre resolveu assistir à homilia em vídeo para rever suas palavras e constatou que tudo o que havia dito não acusava nem inocentava ninguém, mas simplesmente chamava atenção para a sabedoria de se afirmar alguma coisa somente quando temos conhecimento dos fatos. De qualquer forma, uma voz suave e tranquila disse ao advogado: "Querido advogado, não se preocupe com a opinião pública! Se preocupe em continuar fazendo um trabalho honesto e digno de sua categoria, para que a dialética do processo possa acontecer e o juiz tenha condições de elaborar uma sentença justa. Padre, não se cale, pois se um dia você se calar, é sinal de que você está morto!"
Padre Roberto Francisco Daniel ? Padre Beto