Não tem nada mais piegas do que dizer que o trabalho enobrece o homem. Porém, não há como fugir: enobrece. No convívio com as pessoas, na troca de opiniões e favores, somos forçados a nos enobrecermos. Temos de nos apoiar na ética para que esse amálgama de pensamentos não se transforme em um verdadeiro caos. Ou melhor, que o caos seja mais ameno. Ou seja: temos de ser elegantes em meio ao caos.
Elegantes, sim. Mas não na vestimenta, não na escolha de uma linguagem apurada ou num sentar à mesa de forma adequada. Mais do que vestir, falar e sentar. Somos gente que sente. E gente que sente também mente, não compreende, se equivoca, e muitas vezes nem se arrepende. Então, existe a possibilidade de mantermos a elegância a todo instante?
Acredito que não. Pois elegância é escolha que não depende só de minha pessoa. Depende do trato com o outro, que pode ter já por dentro de si visão feita de mim: um eu-já-formado-deselegante. O pior é que necessito de lidar com tipos que só piscam com o olho da elegância. E há situações que o cuidado do contato se complica ainda mais. Pois se no trabalho temos de pensar no bem coletivo, dependendo do bom desempenho individual. Como apontar os erros, de forma elegante, para que esses se tornem acertos.
Ajo com cautela e coragem. Visto-me de linguagem sutil para apontar o suposto erro, sugiro (de maneira amistosa, afastando-me de prepotências) uma direção ao acerto, agradeço e sinto-me assim um trabalhador aplicado com elegância.
Mas nem sempre me julgam assim. A fala atravessada de quem "errou" é uma auto-confissão acidental. Porém, nesta fala quem errou fui eu. Errei justamente pela deselegância de apontar um erro. Então devo desviar-me de tamanha exigência comigo mesmo? Devo sempre discordar? Descaminhar do conjunto para fazer minhas escolhas, sozinho, sem peso na consciência? Nada disso. Está decidido: continuarei com minhas deselegâncias.
Arlete de Fatima de Jesus - funcionária pública municipal