Energia limpa é necessidade planetária. China e EUA desenvolvem carros elétricos eficientes. As nações europeias substituem o carvão por energia nuclear, tentando reduzir a emissão de gases estufa. Energia eólica não é mais diletantismo de velhos hippies. Várias modalidades de energia alternativa são utilizadas, não importa se vinda de vulcões islandeses ou das marés, no Mar do Japão. O caminho para o futuro não pode ser trilhado com veículos que queimam derivados de petróleo. Só aposta no petróleo um país que ? por comodismo ou miopia governamental ? decidiu caminhar na contramão, apostando centenas de bilhões de dólares em jazidas petrolíferas que se encontram a sete mil metros de profundidade, ao invés de investir em desenvolvimento de carros elétricos, na difusão da tecnologia de produção de etanol em países africanos, ou na construção de hidroelétricas. Este país, infelizmente, é o Brasil. Entramos na contramão faz pouco tempo. Há nove anos, mais precisamente. Nos 40 anos anteriores, estivemos na estrada certa e na frente dos outros países. Na década de 1970 construímos grandes hidroelétricas, criamos o Proalcool, desenvolvemos usinas átomo-elétricas. De lá para cá, a tecnologia de produção de etanol melhorou. A produção de cana tornou-se mais eficiente e sustentável. Conseguimos, progressivamente, substituir o penoso corte manual. As usinas tornaram o etanol mais barato no momento em que passaram a aproveitar o bagaço de cana. Os carros bicombustíveis transformaram-se em um marco tecnológico. Os governos que se seguiram a Ernesto Geisel cometeram desatinos na política e não apostaram como deveriam no desenvolvimento educacional e cultural do país, mas ninguém se descuidou do provimento de uma matriz energética cada vez mais limpa. Até que Lula da Silva chegou à presidência e Dilma Rousseff chegou ao Ministério de Minas e Energia.
Na Rio + 20, Dilma Rousseff "esqueceu-se" de utilizar um carro movido a etanol para seus deslocamentos. E a diplomacia brasileira se absteve de defender o etanol dos ambientalistas, locais e estrangeiros, que acusam o nosso combustível verde de desmatar a Amazônia, de se utilizar de mão de obra escrava e de reduzir a produção de alimentos. Todos sabem que a maior parte da produção está em São Paulo e em outros locais a mais de mil quilômetros da Amazônia; que melhoram muito as condições de trabalho nas lavouras canavieiras e que o aumento da produção de etanol ocorre paralelamente ao aumento da produção dos mais variados tipos de alimentos. A verdade é que os que lutam contra o etanol não gostam de usineiros e de carros. Em suma: são anticapitalistas. O mundo sabe que produtos gerados com alta emissão de carbono precisam custar mais caro. O custo ambiental deve ser embutido no preço, para desestimular o consumo. O Brasil faz o contrário: retira o imposto (CIDE) do preço da gasolina e onera o etanol. Estamos vinte anos atrasados em relação à Rio 92. Regredimos ao período anterior ao governo Geisel. Deveríamos chamar o encontro do Rio de Janeiro de "Brasil menos 20".
O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela