Ir para a Buenos Aires, em La Bombonera, palco da primeira decisão da Taça Libertadores, a primeira disputada pelo Corinthians, é o sonho da maioria de fieis torcedores. Eduardo Mauad, 48 anos, pode ser considerado então um grande sortudo.
O empresário bauruense viajou na manhã desta quarta-feira (27) até a capital argentina, falou à reportagem do JC sobre a expectativa única de um momento que, segundo ele, passou a vida esperando e que já se torna inesquecível, independentemente do resultado em La Bombonera. Ontem, ciente de que a noite seria uma das mais longas de sua vida, o corintiano contava os minutos para viver de perto mais um capítulo na história do alvinegro paulista. “Dormir? Impossível. Esperei minha vida toda por esse dia”, conta Mauad sem esconder a emoção de ser um dos poucos a garantir uma das 2.450 entradas enviadas pelo Boca ao Timão, e que foram esgotadas em 50 minutos.
De acordo com o site do Corinthians, mais de 11 mil pessoas estavam na lista de espera por uma chance. “Se você me convidasse para ir à França, em Paris, talvez eu me interessasse. Mas isto aqui (o jogo) é algo único. Isto é a história, não importa o que aconteça lá (na Bombonera), eu estarei com o Corinthians”. Estará mais uma vez, já que a viagem para Buenos Aires será o complemento de uma saga de peregrinação com o Timão. “Estive nos jogos contra o Emelec (do Equador, pelas oitavas de final), contra o Vasco (nas quartas) e agora contra o Santos (semifinal)”.
Com riqueza de detalhes, o corintiano conta a emoção vivida no caminho que percorreu com o time até a tão sonhada final. “Vivi os dois momentos mais incríveis desta campanha no jogo de volta contra o Vasco. Primeiro, no lance em que o Diego Souza saiu na cara do Cássio (goleiro do Corinthians). Naquele instante, presenciei um silêncio que jamais poderia imaginar no Pacaembu lotado em dia de jogo do Corinthians. Dava para escutar a respiração de quem estava do lado”. Os segundos de silêncio foram quebrados com uma defesa sensacional de Cássio, evitando o gol do Vasco.
“A Libertadores acabaria naquele lance. A tensão foi total, mas quando o Cássio defendeu, o Pacaembu veio abaixo, como se estivesse comemorando um gol”, conta. “O segundo momento no mesmo jogo veio aos 43 do segundo tempo, quando o Paulinho marcou o gol que nos classificou”.
‘Vai Corinthians’
Com a réplica da camisa de 1952 que o acompanha em todos os jogos do Alvinegro desde a partida final do Brasileirão de 2011, contra o Palmeiras, quando o 0 a 0 garantiu o pentacampeonato ao Corinthians, Mauad espera um jogo quente na Argentina e, como bom corintiano, não arrisca o placar para “não zicar” o time.
“Acho que a palavra certa para este time é preparado. Sabemos jogar, e estamos invictos com apenas três gols tomados. O último campeão invicto da Libertadores foi o próprio Boca, em 1978, quando o torneio se disputava em seis jogos apenas”, comenta, mostrando conhecimento do assunto. “Aliás, a Libertadores era um torneio secundário até chegar a década de 90, com os títulos do São Paulo e, principalmente, em 99, com a conquista do Palmeiras. A partir daí é que virou obsessão do corintiano”, provoca o torcedor, sabendo que a torcida contra será grande. “Mas Corinthians é assim mesmo. Só que tem uma coisa, e o que é mais importante. É que só nós, somente nós, corintianos, estaremos torcendo por nosso time. Só nós vamos viver nossa emoção, nosso momento. Os outros, a favor ou contra, vão ter que torcer para outro time”.
Em êxtase, o bauruense minimiza o privilégio de acompanhar o primeiro jogo da final. “Meu privilégio é ser Corinthians”, simplifica o corintiano com a ciência de que está entre os filhos, netos e bisnetos de uma história mais que centenária, e que hoje terá um capítulo à parte. “Vai ser adrenalina total. É um sonho que estamos vivendo”. Um sonho que começa hoje com enredo que promete drama, mas que a Fiel espera ter um final feliz.
Hermanos
Para o bauruense, não poderia existir um confronto mais apropriado. “Esta é a final mais perfeita possível. Imagine, a primeira final de Libertadores, contra o Boca Juniors, que é um time como a gente, de torcida. O Corinthians fará a final contra o Boca, e não como o São Paulo que foi campeão em cima do Newell’s Old Boys (da Argentina, em 1992 - a primeira do Tricolor), ou como o Palmeiras em cima do Deportivo Cali (da Colômbia, em 1999). Mas desta vez é o Boca. Não seria a mesma coisa se fosse, por exemplo, o Universidade de Chile”, cita.
Promessa é dívida
Hoje, quando entrar em La Bombonera e sentir o calor da também apaixonada torcida do Boca, Mauad estará pagando uma promessa. Em fevereiro deste ano, em visita a Buenos Aires, o corintiano passou pelo estádio do Boca, visitou a galeria de troféus, tirou dezenas de fotos, pôde imaginar a pressão dos adversários em um campo tão acanhado e, arrepiado, jurou: “Eu volto aqui para ver a final da Libertadores”. Dito e feito. “Meu pai sempre dizia que o homem não é obrigado a prometer nada, mas tem obrigação de cumprir o que foi prometido. E eu estou fazendo isso”.