07 de julho de 2026
Ciências

Aborto, eutanásia e os animais!


| Tempo de leitura: 4 min

Sartre e seu existencialismo acredita que vida só existe quando o indivíduo tem consciência de seu papel na sociedade. Para um biólogo, vida corresponde a qualquer ser vivo com metabolismo próprio; os vírus não seriam considerados formas de vida. Para um químico, a vida existe em qualquer molécula pela combinação de vários elementos. Entre os religiosos, vida apenas quando se tem alma ou espírito envolvido, mas qual seria o momento concreto em que espírito e corpo se juntam ou se separam; poderíamos interferir neste processo?

Uma cena no laboratório: o professor experiente ao analisar que o pós-graduando havia sacrificado centenas de ratos em seus testes brincou ironizando: quando morrer, sua alma será recebida por um monte de ratinhos brancos formando um corredor mostrando qual a porta de entrada. Esta porta será a do inferno e quem lhe dará as boas vindas será o seu orientador! Está implícito neste episódio que os animais têm alma ou princípio espiritual, mesmo que elementar.

Quando vejo alguém tirando uma vida, as comparações são automáticas. Na pescaria, o homem engana o peixe com iscas, tira-o da água e deixa morrer sufocando-o pela falta de oxigênio, abrindo e fechando desesperadamente a boca. Quem pescou ainda fica mostrando para amigos, filhos e netos como um troféu em plena luta para conseguir uma gotinha de oxigênio. Imaginem os hormônios, enzimas e produtos secretados alucinadamente neste momento fúnebre de morte. Ao ingerir um peixe, estamos sorvendo a essência desta morte. Como falar para as crianças: não sejam maldosos e nem cruéis!

No frigorífico os animais esperam a morte nos corredores. Percebem: quem vai, não volta. Sentem o fim cada vez mais perto, é só uma questão de horas e minutos. Até que vem uma marreta eletrônica ou mecânica e o golpe mortal. Quantos mediadores químicos este animal não soltou em seu corpo e entranhas na tentativa de se proteger, resignar e ao mesmo tempo se debater contra uma morte anunciada. Ingerimos estas carnes.

Frangos, porcos e peixes mortos de forma cruel são colocados inteiros, assados, sobre a mesa ironicamente como a brincar com sua sina, colocam em suas bocas maças e outros objetos. Reclame e dirão: é para enfeitar a mesa e ficar mais alegre. Os canibais gritam e festejam quem está na fogueira ou caldeirão fervente prestes a morrer para ser comido!

O que faz refletir sobre isto? A revista científica Ciência e Saúde Coletiva em julho traz os resultados da Pesquisa Nacional do Aborto realizada por pesquisadores da UnB: de cinco brasileiras até 40 anos, pelo menos uma já fez aborto. Isto coloca a vida das mulheres em risco permanente pelas condições que são feitos. Quando um embrião ou feto deve ser considerado vida com espírito e corpo, quase sempre gera uma discussão inconclusiva. Os animais têm vida e os vegetais também! Tiramos a vida todos os dias e a comemos! O abortivo químico mais usado, o Cytotec, caso mal sucedido o aborto, promove malformações: que risco! A pesquisa trás dados assustadores que deveriam ser discutidos pela sociedade.

Outro motivo de reflexões: eutanásia e ortotanásia. Teríamos o direito de programar ou abreviar o encerramento de nossas vidas, como fazemos com os animais? Se a pessoa sofre e tem certeza que vai morrer pelo mal que lhe consome com dores e desconfortos profundos, pode-se tirar a vida ou cessar a medicação e uso de aparelhos? Na Suíça existem planos de morte com empresas e familiares conscientes das condições que a ortotanásia deve ser aplicada e alguns brasileiros pagam por este serviço. Uma das empresas, a Dignitas, cobra em torno de R$ 15 mil a R$ 20 mil pelo serviço completo, e pode se inscrever via internet.

E os animais: comeremos suas vidas? Os vegetais são formas de vida, mas temos os frutos, as sementes ou cereais, temos outras formas de consumir alimentos que não sejam às custas de vida alheia. Algumas pessoas não comem nada animal e vegetal, vivem de luz e água. Existiriam os "consumidores de luz" ou chamam atenção do mundo falseando sobre sua alimentação? Seriam espíritos muito evoluídos que obtêm energia com partículas cósmicas assimiladas pelos seus organismos em forma de luz?

A ciência bem que poderia dar uma chance e pesquisar o assunto, mas quase todos nesta área não acreditam, tem preconceitos e consideram perda de tempo! Quem sabe um dia, poderemos esclarecer isto com método científico.

Reflitamos: você conseguiria consumir apenas produtos que não representassem formas de vida? Quantas vidas consumirás em seu almoço?!

é â??professor
titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.
Email: consolaro@uol.com.br