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Arquivo JC |
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José Carlos Rabelo Júnior, na época com 10 anos |
E o Brasil sempre no ataque é abatido por um atacante com nome de revólver. Por uma improvável Itália de um Rossi impiedoso. O Brasil de Zico, Sócrates, Falcão, Oscar, Chulapa... Chulapa? Sim, senhor. Ele era parte daquele elenco dos sonhos. Time inspirador de Barcelonas e afins. Mas... sem a taça para ostentar.
A “tragédia de Sarriá”, como ficou conhecida, calou um país devoto de Telê - e do futebol-pura-arte dos comandados de Telê. Três décadas, hoje, de um eterno nó na garganta. Poucos viram aquele cruel 3 a 2 como Reginaldo Manente - quatro prêmios “Esso” no retrospecto e uma certa “história de 82” para contar.
Paulistano radicado em Tupã, Manente, 78 anos, segue na ativa com trabalhos em São Paulo. Ele falou ao JC sobre “aquela foto que correu o mundo”. O menino da foto ainda soluça à espera do empate.
Por mil palavras
“Estava eu hospedado em Barcelona, perto do Estádio do Sarriá. Outros colegas de imprensa também.... Estávamos em dois fotógrafos, Alfredo Rizzutti era o outro. E mais três repórteres do ‘Estadão’ e quatro do ‘JT’. Roberto Avalone, Vital Bataglia e Antero Greco eram alguns dos integrantes da equipe. Antero era um ‘franguinho’ ainda. Na época, eu já tinha três prêmios ‘Esso’. Rotina normal... Ninguém pensava em derrota. Um jogo antes, Telê retrucava: ‘E por que vocês estão falando da Itália? Pode ser Camarões. Itália tá jogando mal’.
Itália tinha briga interna, clima muito ruim. Podia mesmo nem classificar. Diferentemente do clima no Brasil... No Brasil, tranquilidade absoluta...
Então veio o dia de Brasil e Itália. Acordei sem ansiedade especial. Era cobrir bem mais uma boa vitória. Bom, todos conhecem a história do jogo em si. Pra gente, lá de perto, mesmo atrás no placar, havia um certo arzinho do tipo: ‘Deixa eles que a gente marca daqui a pouco’. Não iria eu ser diferente dos entendidos.
Paolo Rossi faz o primeiro, Brasil empata com Sócrates. Rossi faz o segundo, Brasil empata com Falcão. E vem o terceiro, o terceiro da Itália, o terceiro do Rossi. E o tempo, como quem não quer nada, começou a passar...
Trabalhando, torço pro meu serviço. O olhar é profissional. Chegou uma certa altura que comecei a me organizar para o que poderia ocorrer de pior: o fim do jogo com esse placar. Um empate classificava o Brasil. Um empatezinho.
Mas acabou a partida e eu precisava mostrar o sentimento que ficou disso. Não dava nem para engolir saliva: um nó na garganta, uma cara de idiota... Tive que fazer a leitura do que o jornal estava pensando e de como seria a primeira pagina, a capa. Primeira página acho que seria a decepção da galera em São Paulo - tinha telão na Praça da Sé. Aquela multidão vai ser a foto da capa, eu pensei.
Quando o juiz apitou eu estava do lado de fora do alambrado, atrás do Telê. Eu tenho uma foto dos italianos pulando e Telê de cabeça baixa. Mas estava focado mesmo é na arquibancada. Então vi o menino.
Na verdade, eram dois garotos. Era um lugar nobre do estádio. A mãe era mulher de um diretor do Fluminense. José Carlos Rabelo Júnior, só soube isso bem depois, era o garoto, então com 10 anos.
Fui chegando, mas ele não podia perceber que eu estava por perto. Vi soluçando pela primeira vez. A mãe do lado. Fiz de longe uma primeira foto. E cheguei mais perto, pulei um alambrado pequeno.... Bem próximo estava o João Avelange e nem percebi a presença dele. Só tinha olhos para aquele menino.
Até que fiquei a dois metros e meio dos dois garotos - mas queria o que soluçava. A mãe achando que a foto era com ela, até parecia se arrumar para ser clicada. A luz era difusa, fim de tarde, mas não estava com objetiva para longe.
Fotógrafo não é para ser percebido, tentei ser discreto. Mas o garoto nem ligou para minha presença... O outro ao lado dele estava com rosto abaixado no meio das pernas. Procurei não dispersar: foquei o choro do menino com camisa da Seleção...
Na sequência, continuei fotografando com minha Nikon F3 vendo se achava outras coisas. Podia ter feito uma foto boa e achar outra melhor em seguida. Temos que ser assim. Encontrei Alfredo e ele disse que iria fazer a saída do vestiário. Eu fiquei na arquibancada. No caminho, disse pra ele: “Fiz uma foto bonita”.
Fomos para hotel revelar os filmes, fazer a ampliação em papel fotográfico, colocar numa transmissora de fotografia com conexão com o receptor da redação... Por linha telefônica! Cada foto para transmissão, seis minutos. Comecei a achar que o garoto era um espanholzinho. Naquela correria, não peguei nomes. Aliás, não se fazia isso na época. Anos depois, um dos correspondentes do “Estado” no Rio ligou para o “JT” avisando que tinha localizado o menino. E não era espanhol.
Como tinha aparecido outras vezes gente dizendo que era o garoto, a gente não botava fé... Primeira identificação foi por volta de 1987. Em 94, a Bandeirantes fez o contato com o menino - que, enfim, só em 1994, eu conheci.
Mas voltando... o editor de ‘Esportes’, Mário Marinho, recebeu a foto no “JT” e ficou comovido. Ainda na Espanha, o Roberto Avalone, após o jogo, perguntou se tinha fotografado torcedores. Eu estava com ampliações na mão. Mostrei para ele, Bataglia estava junto. Quando Bataglia viu essa foto, começou a chorar. ‘Agora, caiu a ficha que perdemos’, disse ele.
Enfim, já com a foto em mãos no Brasil, Marinho fez a primeira página de ‘Esportes’ com ela. Quando chegou a prova na redação, foi um tumulto com a foto ampliada, aquele tamanhão. Isso me contaram. Fernando Mitre era o editor-chefe do jornal.
Mitre perguntou da mesa dele ‘que tumulto era aquele’. Mitre foi até lá e... Resultado: a foto foi parar na capa inteira da edição. Mitre e Marinho mostraram a capa para Rui Mesquita, diretor. O Mesquita até pensou que poderia ser exagero, mas topou. E eu na Espanha, sem ter detalhes de nada.
Só na noite do outro dia fui saber da capa. No hotel disseram se eu tinha ideia de que como tinha saído o ‘JT’. Só fui ver a capa quando cheguei ao Brasil... Foram prêmios da parte gráfica, arte, fotografia.... Inclusive prêmio ‘Esso’. E a imagem correu o mundo.”
Resumo da ópera
O exuberante Brasil de 1982 caiu na 2ª fase e terminou em 5º lugar com 15 gols marcados e seis sofridos em cinco jogos. A desacreditada Itália foi campeã com 12 gols marcados e seis sofridos em sete jogos.
A Itália ergueu a taça em cima da Alemanha (3 a 1) - e o artilheiro da 12ª Copa foi ele, Paolo Rossi - com seis gols, três dos quais naquele 5 de julho de 1982. A Copa da Espanha durou de 13 de junho a 11 de julho com 24 seleções.