A economia argentina atravessa uma fase difícil, às voltas com uma nova crise. Isso nos afeta diretamente. Sempre é uma questão delicada, até mesmo desagradável tratar dos problemas de outros países, especialmente nossos vizinhos, quando nós também temos muitos problemas no campo da economia. Seguramente o Brasil está numa situação incomparavelmente melhor do que a maioria dos países, na América Latina e no resto do mundo, tem feito uma política econômica racional, tem se comportado de forma adequada nas relações de mercado, mantendo um rumo de desenvolvimento constante, o controle da inflação uma política fiscal nitidamente superior em seus resultados, enfim uma política virtuosa. Até mesmo quando há alguma intervenção estatal ela é feita com moderação.
Na Argentina, infelizmente, tem sido exatamente o oposto, políticas feitas com voluntarismo e sujeitas a intervenções absolutamente fantásticas, como acontece agora no setor do comércio exterior: uma empresa importadora argentina só pode importar se exportar a mesma quantidade de produtos: um dólar importado trem que corresponder a um dólar exportado, o que é um erro monstruoso de quem não sabe que a importação é um fator de produção. Quando você prejudica as importações você está atrasando as exportações, principalmente as do setor manufatureiro.
São coisas que não fazem nenhum sentido, como tantas outras que estão acontecendo por lá, como, por exemplo, em relação à divulgação dos índices econômicos. O nível da inflação, hoje, é desconhecido, mas não deve ser muito diferente do que uns 25% ao ano; a Argentina hoje não tem mais reservas, praticamente. Uma situação de crise, como essa, em nosso vizinho é algo certamente indesejável, pois a Argentina é um parceiro importante para o Brasil e sempre participou do grande esforço em todos esses anos na construção do Mercosul, uma união custosa que está sendo destruída. Houve uma dissintonia que está nos afastando cada vez mais do objetivo fundamental que era (e continua sendo) a integração de nossas economias em mútuo beneficio.
A Argentina é um grande país, com recursos naturais e humanos de excelente qualidade. Tinha uma agricultura de altíssima produtividade. Nos anos 20 do século passado a sua economia se comparava às mais dinâmicas do continente europeu, com níveis de renda e padrões de consumo muito próximos, que lhes proporcionavam uma qualidade de vida das mais altas do mundo. O que está acontecendo agora é um fenômeno típico de regressão econômica que tem como causa a continuidade de políticas de má qualidade, escolhas muito erráticas na condução dos negócios internos e nas alianças externas desde as décadas de 40 e 50 do século 20, sob uma influência ideológica que se confundiu com práticas quase religiosas. Ao Brasil não interessa definitivamente que um parceiro da qualidade da Argentina se afaste do processo de integração do Continente, que deve continuar a ser um dos nossos objetivos vitais.
O autor, Antonio Delï¬m Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC